nossos mortos

água, vinho, matéria e paixão

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água, vinho, matéria e paixão

para Gelson Radaelli

Gelson Radaelli nos deixou na madrugada do dia vinte e oito de novembro do difícil ano de 2020, que não cansa de surpreender, transformando a pandemia de COVID num fenômeno nefastamente habitual.  Sem qualquer sinal de que estava prestes a embarcar para sua última viagem, foi-se o artista intenso, de personalidade forte, e o amigo querido, pronto para receber todos com gestos de cordialidade nos seus espaços de trabalho. 

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para Gelson Radaelli

Gelson Radaelli nos deixou na madrugada do dia vinte e oito de novembro do difícil ano de 2020, que não cansa de surpreender, transformando a pandemia de COVID num fenômeno nefastamente habitual.  Sem qualquer sinal de que estava prestes a embarcar para sua última viagem, foi-se o artista intenso, de personalidade forte, e o amigo querido, pronto para receber todos com gestos de cordialidade nos seus espaços de trabalho. 

Nos últimos anos, desapareceram do nosso convívio muitas pessoas talentosas, homens e mulheres, que ajudaram a sedimentar o campo artístico no Rio Grande do Sul. Perder mais um amigo artista, com tanto potencial ainda por ser revelado, assim, de maneira inesperada, acende o alerta da fragilidade da vida.  E abre-se, sob os nossos pés, aquela misteriosa cratera que guarda todas as coisas não ditas.

Estávamos às vésperas de uma importante eleição para a cidade de Porto Alegre, e parte expressiva da comunidade artística, mais uma vez, alimentara-se da utopia de dias melhores para todos.   Durou poucas horas a ilusão de que os tempos obscuros, que caem sobre nós como uma daquelas paisagens tempestuosas do Gelson, estavam terminando. As urnas, como úteros estéreis, pariram o medo e a feiura, desafiando a esperança que, enfim, sonhava florescer. O meio artístico, que, principalmente nas horas de dor, se parece muito com uma família, chorou de tristeza. 

Há muitos anos eu convivo com artistas, e tem sido um processo de aprendizagem contínua. O resultado do trabalho artístico, como sabemos,  pode variar radicalmente. Mas, cada vez mais, me convenço de que existem basicamente dois tipos de artistas: os que criam mundos paralelos, para se proteger da realidade, adotando uma atitude otimista diante da vida, que pode variar em diferentes graus de consciência e de alienação, e os pessimistas e melancólicos, que mergulham nas profundezas existenciais e se deixam levar pelas convulsões internas, mais interessados nas verdades impronunciáveis, do que nas doces banalidades. No mundo contemporâneo isso tudo é bem mais complexo do que a tradicional polaridade entre os apolíneos e os dionisíacos, ou entre os integrados e os apocalípticos. Na era da pós-verdade, até mesmo os fatos artísticos, que sempre gozaram da prerrogativa de fazer uso dos recursos fantasiosos, disputam espaço com uma realidade cada vez mais inverossímil.

Esteticamente falando, o conjunto da obra de Gelson Radaelli aproxima-se da contribuição dos artistas da Transvanguarda Italiana, que na década de 1980 revigoraram a pintura em âmbito internacional, em contraponto à assepsia minimalista.  No contexto cultural do sul do Brasil, nutria afinidades com o trabalho de Iberê Camargo – cuja visão de mundo  impregnou seu universo pictórico, também tocado pelo neoexpressionismo, pioneiramente divulgado por Michael Champman e Karin Lambrecht no sul do Brasil. 

Por força das circunstâncias, Gelson Radaelli manteve uma dupla atividade profissional: além de artista reconhecido pelos seus pares, era sócio do Atelier das Massas, um misto de restaurante e galeria de arte, muito conhecido em Porto Alegre, que fundiu a tradição familiar, o melhor da culinária ítalo-brasileira e as artes visuais. Como empresário sensível e solidário, incentivou outros artistas, apoiou projetos nas mais diversas áreas, fez ligações importantes entre artistas experientes e iniciantes.   Depois das aberturas de exposições de artes visuais, dos espetáculos de teatro ou dos concertos musicais, era comum que grupos de artistas, críticos e historiadores da arte se reunissem alegremente no restaurante dos Radaelli, para conversar, se divertir e celebrar a vida. Gelson sempre tinha um vinho novo para apresentar, uma sugestão de cardápio, ou uma boa conversa sobre arte para oferecer. 

Em isolamento social, contando os dias para voltarmos à normalidade, os   amigos de Gelson Radaelli estão de luto e se solidarizam carinhosamente  com seus familiares. Quando este período difícil passar, voltaremos ao Atelier das Massas.  Brindaremos à vida, sob observação atenta das pinturas e desenhos que testemunham, sempre criticamente, nossa breve passagem por aqui. Gelson estará conosco, em cada gole de vinho, em cada risada franca, em cada abraço sincero.

Porto Alegre, 1 de dezembro de 2020


Neiva Bohns é historiadora e crítica de artes visuais. Professora e pesquisadora do Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas.

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