Nossos Mortos

Até logo

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Até logo

É muito difícil pra mim entender que uma pessoa não existe mais

Acabou.

Não tem mais voz. Não tem respiração. O coração não bate mais. 
Aquela pessoa nunca mais voltará pra casa. 

As fotos futuras não terão aquele rosto. O WhatsApp não ficará mais online, nenhuma mensagem será respondida. As brigas perderam todo o sentido. As perguntas ficarão sem respostas. A voz não será mais ouvida e a presença não estará mais lá. A porta não vai mais abrir para aquela pessoa entrar. Os pés não calçarão mais sapatos nem encostarão o chão. Os olhos já não são mais capazes de enxergar, e as pálpebras sequer se abrirão. A pele não sente mais o toque, e os braços não abraçam mais ninguém.

Tudo que aquela pessoa foi fica aqui na memória e só. Não dá pra reviver.

E quando cremado, nem mais o corpo existe na forma que conhecemos. Vira pó. Às vezes, as cinzas são espalhadas em algum lugar querido por aquele que partiu, e então a pessoa se mistura ao local e ficará eternamente ali, e também pelo mundo se o vento soprar.

E o que a gente faz com tudo que não fez? 
Tudo que ele não ouviu. Os abraços que não deu, os olhares de carinho que não recebeu por conta da distância.
As vozes que não escutou. Os caminhos que não andou. As lembranças que não teve tempo de construir… O que a gente faz agora?

Paulo Gustavo foi gigante, muito maior do que qualquer um que acompanhava de longe poderia imaginar. E foram gigantes também todas as pessoas que somam o horroroso número de 410 mil mortos por COVID-19 no Brasil.
Gigantes dentro de si e ao seu redor. 

Anônimos ou famosos, todos foram alguém na vida de outro alguém.
Irmãos, pais e mães, filhos, sobrinhos, netos, avós, amigos. Amantes e amados. Caridosos e pecadores.

410 mil seres humanos que respiravam iguais a você e eu. 
410 mil corações que batiam. 410 mil corpos e almas. 
Peles que sentiam toques. Braços que abraçavam. Pés que calçavam sapatos. Mãos que tocavam. 410 mil vozes que provavelmente não puderam se despedir. Ouvidos que infelizmente não ouviram o último tchau.

Vi partirem pessoas que foram muito amadas por mim e por centenas de pessoas. E depois de um ano e meio de perdas imensas me questiono: o que ficou aqui? 

Acredito que o amor ficou. A lembrança ficou. O legado ficou e a saudade também. Mas ainda não sei o que fazer depois de dizer tchau, adeus ou até logo, e se alguém souber, por favor, me ensine.


Thainá Coimbra faz parte do Matinal Jornalismo e é estudante de letras francês pela Universidade Federal de Santa Catarina. 

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