Nossos Mortos

Até sempre, Mauro

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Até sempre, Mauro

Vários amigos mandaram whats avisando a morte do Mauro Soares. Sabem que não sou muito ligado a redes sociais, essas ferramentas velozes que comunicam quase em tempo real o que se passa à nossa volta. Nem eu nem Mauro éramos/somos entusiasmados com tamanha eficácia, chegamos a falar algumas vezes sobre isso, o nosso desconforto diante de tantas facilidades à nossa disposição.

Mauros Soares foi um dos nomes mais emblemáticos dos últimos cinquenta anos do teatro gaúcho. Foi um gigante. Era um ator talentoso e capacitado a desafios da cena. Nem sei quantas vezes trabalhamos juntos. Ele chegou a ganhar prêmios por algumas atuações em peças que dirigi.

A gente se conheceu lá atrás, adolescentes, ambos cheios de sonhos e disposição. Eu o conheci recém-chegado de Pelotas, no Grêmio Dramático Açores, o braço amador do Teatro de Arena, que tantos nomes revelou. Mauro foi um desses talentos. Dali, de montagens amadoras daquele porão abençoado, nunca mais nos afastamos. Eu morava num casarão da Lima e Silva, típica casa de estudante universitário. Quase sem móveis, toda branca por dentro, com portas e janelas verdes, minha casa era quase um centro acadêmico, de tantos que circulavam ali a qualquer hora.

Lembro bem o dia em que Mauro pediu para dormir uma noite na minha casa, pois estava com problemas de alojamento. Concordei na hora, claro. E foi a noite mais longa do mundo, pois ele ficou quatro anos hospedado comigo. Tínhamos conversas intermináveis sobre teatro, sobre Porto Alegre, sobre o mundo. O humor do Mauro me cativava. Era ácido, inteligente, sempre ligado no que acontecia ao redor.

Fui testemunha da sua descida ao inferno, pois meu amigo não controlou o vício e se enredou nele até o fundo do poço. O álcool entranhou sua vida. Eu via aquilo, triste e impotente. Não foi pouco. Não foi fácil. Mauro bebeu todas, tudo. Até perfume. Eu vi. Foi me dando uma tristeza letárgica, uma impotência absoluta diante da situação do meu amigo querido. Até um dia que pedi que ele deixasse minha casa, prosseguisse sua vida, pois eu estava triste demais com a minha impotência diante da situação.

Ele saiu e, momentaneamente, nos perdemos. Pensei que ele não teria forças para superar a situação. Alguns poucos meses depois, o reencontrei. Estava calmo e seu corpo tão castigado estava bem. Contou as experiências que tinha vivido, as internações, os terrores. Contou sereno. Estava sem uma gota de álcool no organismo. E assim ficou o resto de sua vida. Um exemplo de superação raro, uma determinação absoluta de continuar vivo. Nunca mais nos separamos, nunca mais voltamos a morar juntos. Mas tínhamos uma amizade permanente, presente e solidária. Nunca me faltou quando precisei, nunca o abandonei quando ele precisava de apoio. Éramos amigos. Éramos irmãos.

Esteve presente na estreia da minha última peça, “O Inverno do nosso Descontentamento”, e me abraçou emocionado, com uma emoção legítima e sincera. Tinha adorado a montagem, as interpretações do Marcelo Ádams e da Margarida Peixoto. Ele invadiu o camarim pra abraçar Marcelo. Dias depois, me ligou e conversamos longamente sobre o espetáculo. Contou que estava aposentado, feliz, tranquilizado. E eu fiquei muito sereno e feliz ao ouvir o meu amigo da vida inteira naquele astral tão bom.

Na véspera de completar 70 anos, um dos segredos mais bem guardados do teatro gaúcho por muito tempo (ele resistia a comentar sua idade, era divertido), Mauro nos deixou. Sereno, pelo que eu soube por Gilberto Gawronski, outro ator talentosíssimo e que, hospedado na casa do Mauro em uma folga carioca, foi com ele ao teatro. Ficamos os três abraçados no saguão do teatro, entre gargalhadas e memórias boas.

Dizer mais o quê? Só que amei o Mauro com um amor de amigo que atravessou toda minha vida, acompanhei suas andanças pelos festivais de teatro no interior do Estado e sua intensa movimentação em prol desses grupos tão longe da Capital. Mauro era alegre, talentoso, ferino, leal, um amigo de todas as horas, todos os dias, toda a vida. É assim que vou guardá-lo no meu coração. Para sempre.


Luciano Alabarse é cenógrafo e diretor de teatro. Ele deu uma entrevista para nós, leia aqui.

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