Nossos Mortos

Despedida

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Despedida Paulo José como Inspetor Monteiro, em Luna Caliente, dirigido por Jorge Furtado(Acervo Casa de Cinema)

Não foi a primeira despedida mas, na primeira, as lágrimas se misturavam com o riso, a tristeza com a esperança. Paulo José estava interrompendo uma história que vivia aqui conosco, para construir um outro caminho, no qual não estávamos incluídos, mas que queríamos que fosse de sucesso.

Nós estávamos ensaiando, no pequeno palco do Teatro de Equipe, a peça de Marcel Archard “Uma mulher e três palhaços”. Paulo seria um dos palhaços, Milton Mattos e Pereio os outros, e eu a mulher, agradecida ao diretor Mário de Almeida, que me escolhera para o papel. O espetáculo seria um sucesso, sou capaz de jurar. Nunca vou ficar sabendo, porque foi do alto da escada que a mulher subia que a notícia me tirou. Um dos palhaços devia partir. Os outros dois e a mulher precisavam dizer adeus. E o espetáculo nunca aconteceu.

Esta foi a primeira separação. O Teatro de Arena de São Paulo fez o convite, nós vibramos, mesmo sentindo que aquele entrosamento que tínhamos, aquela família que se criara em torno de um ideal, aquela casa que compartilhávamos, já não seria a mesma e a saudade ocuparia o lugar que era de Paulo.

Ele fazia parte de todas as paredes, de todas as crenças, dos investimentos, das esperanças, das pesquisas, das buscas que levaram ao Teatro de Equipe e à sua casa de espetáculos. A casa foi um sonho gerado num vagão de trem, na volta de Montevidéu, onde tinham apresentado,  na Embaixada Brasileira, os espetáculos de poesias “Rondó 58” e “Poetas e Poemas”, a convite do adido cultural do Brasil, Vinícius de Morais. Os aplausos e o encantamento do público fizeram com que eles acreditassem na possibilidade de ir além do amadorismo e tentassem uma experiência de teatro profissional. Saíram daqui amadores e voltaram profissionais. E os profissionais precisavam de casa própria. Paulo José, Milton Mattos, Mário de Almeida e Pereio, com a contribuição de grande parte da cidade, construíram esta casa.

Eu cheguei depois, o teatro já estava pronto, com “Almanjarra”, de Artur Azevedo, em cena. Fui acolhida com o carinho que era característica daquela família. Pouco depois eu estava no palco, atuando e convivendo com eles, em “A farsa da esposa perfeita”, de Edi Lima. O cenário era do Paulo José. Belíssimo! Rico nos detalhes. Nossa Senhora abençoava o casebre segurando, no lugar de um coração, uma cuia de chimarrão. 

Com este espetáculo viajamos também por algumas cidades do interior, com uma apresentação em Bagé, em Passo do Príncipe, onde se passava a história. Nesta viagem conheci os pais de Paulo José (Dona Carmencita e Sr. Arlindo), que tinham fazenda em Lavras e ampliavam sua família agregando os integrantes do Equipe. Enquanto o Equipe existiu, eles estiveram ao nosso lado.

Paulo José, no Arena, passou a ser um de nós em São Paulo. No início, sabíamos de tudo. De cada passo, de cada dificuldade, de cada medo. Paulo era um obsessivo, tudo tinha de ser perfeito, tudo tinha de ser sucesso. Acompanhamos o casamento, a primeira filha, os primeiros filmes, os primeiros ousados investimentos. Sabíamos de Paulo por ele mesmo e por vários outros gaúchos que também precisaram deixar Porto Alegre para tentar sobreviver fazendo teatro. As férias de Paulo seguidamente eram passadas em Lavras; no caminho, uma parada em Porto Alegre para um chope com os amigos.

Mas a freqüência dos contatos foi diminuindo.  Continuávamos acompanhando mas sem conhecer todos os detalhes. Eu o encontrei algumas vezes em festivais de cinema de Gramado, consegui entrevistá-lo na TV e na Rádio FM Cultura. Com ele e vários outros integrantes do Equipe estivemos reunidos numa homenagem que o festival Porto Alegre em Cena nos prestou e em outra performance na Câmara de Porto Alegre, e ainda no lançamento do livro sobre o Equipe escrito por Mário de Almeida e Rafael Guimaraens. Outro encontro emocionante foi quando Paulo recebeu o título de cidadão de Porto Alegre, com a mãe e os irmãos presentes.

E no meio disso tudo surgiu a doença, Mal de Parkinson, e a luta de Paulo. Batalhas e mais batalhas. O enrijecimento das pernas precisava ser combatido. Paulo trocou o apartamento por uma casa com piscina. “Comprei uma piscina e veio junto uma casa”, me disse ele. E na casa entrou um piano para que os dedos fossem exercitados. Memória trabalhada com poesias, que eram seu encantamento. A poesia esteve sempre presente em todos os seus momentos, não ficaria afastada por causa de uma doença. Cirurgia, fisioterapia, tratamentos e testes intermináveis.

  O trabalho seguia em frente. Personagens com algum problema no braço direito, braço direito ajeitado junto ao corpo para que o tremor não aparecesse tanto, diretor montando espetáculos. Assim era Paulo José.

E assim foi Paulo José que encerrou sua vida como quem escreve um poema. Há uma separação, uma despedida, há lágrimas, mas não um ponto final. Seu talento permanece, está registrado, e sua ternura, uma ternura que brotava do seu olhar, está aninhada naqueles que o conheceram e usufruíram de seu bem querer.


Ivette Brandalise – Escritora, psicanalista

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