Nossos Mortos

Ele queria

Change Size Text
Ele queria

Contardo Calligaris foi o primeiro presidente da Associação Psicanalítica de Porto Alegre – APPOA -, fundada em dezembro de 1989. Acho que foi durante esse ano que o conheci. 

[Continua...]

[elementor-template id="36664"]

Contardo Calligaris foi o primeiro presidente da Associação Psicanalítica de Porto Alegre – APPOA -, fundada em dezembro de 1989. Acho que foi durante esse ano que o conheci. 

Minha esposa, Loraine, estava fazendo formação em psicanálise quando foi criada a Associação. Pouco depois, em julho de 1990, fui convidado a trabalhar na Coordenação do Livro da Secretaria Municipal de Cultura. Já havia um evento em fase de preparação para eu assumir. Se chamava “O Amor na Literatura”, que consagraria o horário de sábados pela manhã para eventos no Centro Municipal de Cultura.

Conversando com os amigos da APPOA, perguntei se seria possível alguma forma de parceria. Eles não apenas toparam como se envolveram na discussão de nomes e temas, e sugeriram que eu convidasse o Contardo. Sabia que ele tinha sido aluno e amigo de Roland Barthes, então seria uma escolha aparentemente fácil pedir-lhe para falar sobre Fragmentos de um Discurso Amoroso

Telefonei, com a Lora ao meu lado. Ao fazer o convite, comecei a me assustar com a reação. Contardo saiu já negando, que não poderia falar sobre Barthes, havia questões emocionais envolvidas, e, sem que eu insistisse, ele seguia negando. “Se tu disseres que eu tenho de falar sobre ele, que esse é o autor que me apresentas, então… terei de te dizer…, sabe…” E de repente, a Lora saltou com esta: “acho que ele quer falar.” 

Espantado, passei adiante: “Contardo, acho que queres falar sobre ele”. O psicanalista largou o telefone. Aguardei. Em seguida, Eliana dos Reis, sua então esposa, veio ao telefone e disse que o Contardo estava dando voltas na sala, esbravejando em italiano. Então ele retornou à chamada, soltou uma risada boa e disse que sim, que falaria sobre o Barthes. 

Esse era o Contardo para mim. Emotivo, intenso, mas de uma inteligência que sabia racionalizar suas próprias reações. Nesse dia também aprendi o que era um “interpretaço”’. Só depois fui saber o quanto esse autor era caro a ele. Muito ele e a APPOA se envolveram com os eventos da SMC na sequência, e a vida cultural da cidade 

naquela época deve muito a Contardo Calligaris. 


Flávio Azevedo – professor de Literatura.

RELACIONADAS

Escolhe um dos combos

Pagamento exclusivo via cartão de crédito