Nossos Mortos

Folha ao vento

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Folha ao vento

Soube agora, há pouco, que o nosso amigo Elton Manganelli, artista visual dos mais talentosos e criativos, morreu hoje à tarde. Sensação de choque, abatimento, incredulidade. Nos vimos nos últimos protestos em plena Borges de Medeiros, menos de um mês atrás, como é possível? Ele sempre serelepe, magrinho e inquieto. Leonino inspirado, sempre inventando e nos brindando com fotografias e vídeos cuja poesia transbordava a flor da pele.

Não me lembro exatamente do nosso primeiro encontro, certamente no início dos anos 80, mas lembro-me perfeitamente dele no divertido e colorido espetáculo A Comunidade do Arco Íris, de Caio Fernando Abreu, no qual contracenava ao lado de outros amigos e amigas queridas, como Sérgio Lulkin, Simone Castiel, Carla Pernambuco e Flávia Aguiar, entre outros. Tive a sorte de contracenar com ele em 2017 quando, ao lado da atriz Suzana Saldanha, Júlio Conte, Catarina Conte e outros colegas, fizemos uma leitura dramática desta linda peça na sala de música do Theatro São Pedro. Elton, silencioso e observador, sempre conservou uma aura de mistério e encanto em sua figura longilínea e elegante. Discreto, se transformava em cena, onde se arriscava sem receio de se perder, assim como nas artes plásticas, onde não media esforços para chegar aonde queria. 

É possível que ele tenha me visto brincando nas areias da praia de Cidreira, mesmo local onde as nossas famílias veraneavam na década se sessenta. Ele descobriu isso, alguns meses atrás, e me contou a novidade, entusiasmado, pelo facebook. Ele era quinze anos mais velho do que eu, e por isso não fomos colegas na Escolinha de Arte, quando ainda era ao lado do Theatro São Pedro. Anos depois, ele seria professor nesta mesma instituição inspirando e ensinando alunos com o seu dom maravilhoso para a arte e criação. 

Desenhista, pintor, escultor, cenógrafo e ator, ele também era um excelente fotógrafo que exercia esse ofício com delicadeza e rigor, entregando beleza e poesia em doses generosas. Produziu cenários lindíssimos para programas infantis que alegraram as tardes da criançada gaúcha nos inesquecíveis Guaíba Criança e Pandorga

Tive, ainda, oportunidade de seguir com o trabalho incrível que ele desenvolveu com os internos do Atelier Terapêutico na década de 1990. Elton foi um excelente arte-educador, atuando com grande sabedoria e competência, extraindo sempre o máximo e o melhor de cada um. Respeitava a individualidade de cada um, mas sempre o instigava a ir mais fundo, despertando com afeto e bom humor a imaginação alheia.

No ano passado ele me pediu que eu lhe desse um poema para compor com um trabalho lindíssimo que ele investigava e realizava, na época, sobre ikebanas. Assim como eu, outros artistas colaboraram com ele, gerando obras interessantíssimas. Elton era capaz de fazer relações inusitadas e fecundas entre artes plásticas e psicanálise, poesia, literatura, ciência, filosofia, vídeo e fotografia. Sua inquietação frente ao cotidiano e às questões existenciais não respeitava fronteiras, e assim ele transitava com grande desenvoltura entre campos diversos do conhecimento e linguagens múltiplas. Era mestre em ressignificar conceito e ideias e descobrir novos sentidos na percepção sensível e original da vida.

Mas, como diria Caetano Veloso, “A vida é real e de viés e vê só que cilada o amor me armou”. O inesperado aconteceu. Infarto fulminante, sem a menor chance de salvação. Inacreditável. Elton foi levado num instante, como folha ao vento, curiosamente como as folhas que ele vinha transformando e fotografando nos seus últimos ensaios.

Ficam as folhas douradas e a magia das suas obras singulares, com o seu olhar agudo como ele mesmo. Um ponto de exclamação permanente diante dos abismos da existência. Uma espécie de figura clownesca, num eterno deslocamento em relação à brutalidade da vida. Um verdadeiro artista. No coração e na alma. Deixará saudades, mas permanecerá para sempre nos seus lindos desenhos, pinturas, colagens e fotografias. Nos seus vídeos e poemas gráficos. No encanto de quem experimentou da vida o seu melhor. Vá em paz, querido.

Porto Alegre, 17 de agosto de 2021.


Nora Prado é atriz, cronista e poeta. Sócia da Cia. Megamini, produz espetáculos infanto-juvenis. É professora de interpretação para Teatro, Vídeo e Cinema. Formada em Artes cênicas pela UFRGS, atuou com o Grupo TEAR, de Maria Helena Lopes, por 8 anos. Morou em São Paulo por 25 anos, trabalhando em produções de renomados diretores, como Gerald Thomas e Hugo Possolo. De volta à cidade natal em 2017, ganhou o Troféu Tibicuera por sua atuação no espetáculo musical infantojuvenil em “Tem Gato na Tuba”. Apresenta o programa de entrevistas semanal Estação Prata da Casa. Publicou os livros de poesias A Espessura da Vida (2017) e Alma das flores (2021). 

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