Nossos Mortos

Irene, no plural

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Irene, no plural Mirna Spritzer (esq.) com Irene Brietzke, em "Fantasias de uma dona de casa" (Foto: Alexandre Bazzo)

Quando o editor da Parêntese, Luís Augusto Fischer, me pediu um texto sobre a Irene Brietzke – “uma imagem, uma lembrança, um bastidor” – levei um susto. Não porque fosse algo que não seria esperado, mas porque não sabia por onde começar, como estabelecer um norte para uma parceria tão imensa posta diante da realidade da morte. Então percebi que poderia escrever sem norte. Escrever desnorteada. 

Poderia falar sobre a professora generosa e original na invenção de exercícios e convivência. Ainda era tempo de fumar no intervalo ou até no exercício. Professora que sabia rir junto dos erros e comemorar os acertos.  E que marcou indelevelmente suas e seus alunos. Ou da profunda conhecedora da obra de Bertolt Brecht a quem admirou e de quem soube ser também uma crítica sagaz. Além das montagens memoráveis de Brecht no Brasil, Irene foi das poucas sul-americanas autorizadas a pesquisar nos arquivos de Brecht em Berlin. Ela amava as canções de Brecht e Weill e muitas vezes nós as cantamos. No meu caso, lembro da surpresa de me ver cantando, prazer que trago até hoje.

Poderia ainda falar da viajante incansável, do prazer de ser andarilha, de conhecer lugares e pessoas. Ou de andar anônima. Do gosto requintado por restaurantes e sabores. A última viagem que fiz, quando voltei, a pergunta: qual foi a comida que tu mais amaste? Ou do gosto que compartilhávamos por flores, em especial Copos de Leite, Frésias e Orquídeas. Meu último presente para ela, porém, foi um Girassol. Vamos ver ele girar e buscar a luz, eu disse. 

Da artista apaixonada pelas e pelos criadores do carnaval, que ela dirigiu duas vezes em Porto Alegre. Rosa Magalhães, Joãozinho Trinta, Renato Lage e tantos. Durante os desfiles a gente trocava ideias pelo WhatsApp e às vezes vinha “que maaaaravilha” ou “que horrooor”. Também nas cerimônias de Oscar e Emmy, havia comentários sobre os trajes, os discursos. Risos e imprecações. O espetáculo grandioso apaixonava a Irene. Seus espetáculos ela os queria assim. Creio que parou de dirigir teatro quando entendeu que por aqui já os havia realizado. Ou que não havia como torná-los ainda maiores. Em O Rei da Vela, ela olhou para João Acir de Oliveira, seu parceiro mais frequente na iluminação, e disse: “Eu queria que no final o teatro viesse abaixo!” Assim se fez pela genialidade da dupla que encontrou no Teatro Renascença, embora rudimentar, as formas de desabar tudo.

Da fada madrinha da minha filha Laura, que nasceu no mesmo dia dela. Nos aniversários em que havia sempre velinhas para ambas no bolo. Ambas sagitarianas, loucas por botar uma mochila nas costas e sair. Do carinho dos almoços das sextas depois da aula de música junto com a Miriam Amaral. Ela adorava sempre as novidades que vinham da Laura.

Do amor imensurável por animais. Todos eles, ou quase. Os cachorros, os mais próximos. Dedicação e alegria, um gosto que vinha de algo muito profundo, alma talvez. As notícias e fotos não eram apenas bem recebidas, mas comemoradas. Ainda isso, amávamos os pandas e os pinguins.

A tia-avó amorosa de Artur e Catarina, a quem dedicava muito carinho e alegria com a novidades que vinham em fotos, telefonemas e vídeos do Canadá. E a quem visitou em duas viagens queridas e inesquecíveis.

Irene atriz, seu primeiro e último ofício. Em especial suas incursões pelo cinema e tv. Irene gostava das pequenas participações, de estar no set, no camarim. Do desafio das linguagens, de exercitar-se de outros jeitos. De trabalhar com parceiros antigos como a Casa de Cinema Porto Alegre ou com jovens diretores e diretoras e produções a quem jamais recusou qualquer papel. Pelo contrário, sentia-se provocada e faceira. Amava trocar ideias com ela sobre essas inquietações, gostava de sermos atrizes colegas. Muitas vezes me senti encorajada pela entrega sem pudor dela. Eu que às vezes tenho essa imensa cabeça de áries.

Acho mesmo que com Irene Brietzke entendi o que é ser artista. Desde o primeiro trabalho que fizemos juntas no Teatro Vivo, até a última cena que gravamos na série Fantasias de uma dona de casa ou no filme O mercado de notícias. Como diretora, Irene imaginava a peça inteira e trazia para a sala de ensaio para que a vivêssemos e para que a cena ela mesma se refizesse quantas vezes fosse necessário.  Um humor especial que se derramava pela vida e pela cena. Em Mahagonny, por exemplo, espalhávamos bombinhas no chão de lona para que o público pisasse e saltasse de susto ao entrar. Após receber um copinho de cachaça na entrada.

Havia ainda o expressinho. Cada noite, vinha ela do foyer e parava na porta do camarim: “Querem expressinho?” Entrava, pegava seu indefectível cigarro e aguardava o debate sobre querer ou não saber quem estava na plateia (era disso que se tratava o expressinho). Embora todos nós e ela soubéssemos que haveria o expressinho de todo modo. E ríamos. Rir. Rimos muito juntas e juntos. Rimos da vida, da dor, do teatro.

E havia A coisa. A coisa era uma espécie de tempestade de paixão e indignação que vinha especialmente antes de alguma estreia, de algum ensaio com luz e som, de alguma burocracia que emperrava a cena. A gente podia ver A coisa se armando. Víamos seus sintomas no olhar, na carteira de cigarro se esvaziando, num silêncio perigoso antes da explosão. Era um não aceitar que as coisas não fossem como poderiam ser. Com o tempo A coisa virou motivo de mais risos.  Em especial depois que ela passava. 

Irene deixa tantos bordões e expressões que permanecem nas pessoas, assim como seu legado de artista genial, de criadora inquieta e original. Em mim fica a amiga e mestra. Uma lista de criações e bobagens maravilhosas. Sonhos e risos. E algumas lágrimas. E, é claro, A coisa.


Mirna Spritzer – Atriz, professora e radialista

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