Nossos Mortos

Nosso mestre Celso Pedro Luft

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Nosso mestre Celso Pedro Luft Celso Pedro Luft (Foto: acervo da familia)

Entre 1970 e 1984, Celso Pedro Luft, que teria completado cem anos no último dia 28 de maio, manteve uma coluna intitulada No mundo das palavras, no Correio do Povo, em que tratava da língua falada e escrita dirigindo-se aos leitores do jornal numa linguagem inteligível para qualquer alfabetizado. Publicou um manual de ortografia, o Novo guia ortográfico, que, durante muitos anos, foi o único recurso prático a ser consultado a respeito da ortografia vigente. Fez isso porque o primeiro Vocabulário ortográfico, o de 1943, assim como as suas edições subsequentes, esgotou rapidamente graças às tiragens devidamente minúsculas que tiveram para que esse conhecimento fosse mantido ao alcance da menor quantidade possível de pessoas. Ainda na contramão desse projeto elitista, mestre Luft escreveu também gramáticas em que não há apelos à manutenção da pureza da língua de Camões e Vieira, mas uma cristalina descrição da língua em que andávamos escrevendo. 

Do meu ponto de vista, sua obra fundamental foi Língua e liberdade, publicada em 1985, num simpático livrinho de bolso, na mesma linguagem da sua coluna. Para explicar por quê, preciso contar a relação que desenvolvi com a língua escrita, desde a alfabetização até o meu exercício profissional como professor de Português. 

Quando eu comecei a cursar o primeiro ano do Primário, meu pai me perguntava se eu já tinha aprendido o beabá, e eu não tinha menor ideia do que era isso porque o que a professora fazia era ler pra nós os capítulos do Livro da Lili: Olhem para mim. Eu me chamo Lili. Eu comi muito doce. Eu gosto muito de doce. Vocês gostam de doce? Eram vários capítulos, mas eu só lembro desse, o primeiro. Minha memória não registra um episódio em que eu me tenha dado conta de que eu já lia outras coisas além das histórias da Lili. Acho que foi ainda no primeiro semestre do ano. E em casa eu tinha muita coisa pra ler. 

Quando terminei, em 1954, os cinco anos de Curso Primário, passei no exame de admissão ao Ginásio do Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio Grande do Sul, onde, segundo alguns dos meus novos colegas, obrigavam a gente a ler demais. A diferença que eu notei foi entre a poesia que liam pra nós e nos mandavam ler num e no outro colégio. No Instituto de Educação se lia Olavo Bilac, Gonçalves Dias, Raimundo Correia, Castro Alves. No Colégio de Aplicação, passamos a ler Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade. Fiquei sabendo também da diferença entre uns e outros e qual era o significado de modernismo e que alguns desses poetas modernistas ainda andavam escrevendo poesia por aí. 

Depois, nos botaram a ler também os antigos: Macedo, Alencar, Aluísio Azevedo. Na quarta série do Ginásio, a gente leu e discutiu o cerne machadiano: Memórias póstumas, Quincas Borba, Dom Casmurro. No Colegial, a gente leu Gil Vicente, Camões, Vieira, Garrett, Eça de Queiros, e, no terceiro ano, em 1961, estávamos lendo os contemporâneos do nosso professor de Literatura, Carlos Jorge Appel: Dalton Trevisan, José J. Veiga, João Antônio. E quem dava aulas de Português? Pois é: sei que tive uma ou duas professoras de Português, mas eu só lembro o que elas liam pra nós. 

Quando – muitos anos depois – eu estava escrevendo a minha tese, que trata de ensino de Português, eu quis consultar a minha experiência de aluno de Português, e na minha cabeça apareceram aquelas leituras que faziam pra nós, composições que mandavam a gente escrever, mas nenhuma aula de gramática. Lembro especialmente da leitura de uma carta de Monteiro Lobato, em que ele exortava um amigo, também escritor, a escrever na língua em que eles falavam. Modernismo, pra mim, passou ser isso: escrever na língua que a gente falamos.

Quando fiquei sabendo, muito tempo depois, que tanto o Instituto de Educação quanto o Colégio de Aplicação se orientavam pela Escola Nova e que vinha daí não só a minha alfabetização pelo Método de Contos mas também a leitura dos modernistas no Aplicação, entendi que ensinar a ler pela leitura de textos forma leitores de textos; ensinar a ler pelo beabá ensina a ler juntar letra e som para chegar à palavra – pra distinguir o supermercado da farmácia, por exemplo – e, depois, então, de palavra em palavra, chegar ao texto por um caminho penoso.   

No ano de 1968, formado, fui dar aula na Escola Comercial Protásio Alves, da Rede Estadual, e eu também não tinha programa algum, mas também não tinha passado pelo programa da gramática normativa. Convenci, então, o coordenador pedagógico que os alunos do curso de Técnico em Propaganda precisavam escrever, e era isso que eu queria ensinar nas minhas aulas de Português. Ele topou, e eu me botei a mandar os alunos escreverem, e a ler e comentar o que eles escreviam. 

Fui convidado, em 1972, a integrar a equipe dos que iam ensinar os alunos da UFRGS a escreverem Redação Técnica, uma providência copiada da Universidade norte-americana. Foi uma experiência radical ensinar alguma coisa a respeito da qual nada se sabe, mas voltei pro meu eixo quando me escalaram para dar aula de redação no curso de Jornalismo, onde continuei botando os alunos a escrever e lendo e comentando o que eles escreviam. Fui dar aula também em outros colégios, onde, a partir das dificuldades com a língua escrita que eu já tinha coletado nos textos dos meus alunos, comecei a montar um programa de Português útil para ensinar a escrever melhor. Em 1978, ressurge, no vestibular, a prova de redação, eliminada desde a reforma da universidade em 1972, e os especialistas da universidade se botam a estudar o que resultou disso. 

Em 1983 foi publicado Problemas de redação, de Alcir Pécora, que faz um diagnóstico das dificuldades dos vestibulandos para escreverem textos, em que diriam o que pensam, e não apenas redações escolares, em que dizem o que é pra dizer. Atribui isso às aulas de Português na escola, ao ensino da gramática normativa, à cultura do certo/errado, à prática da repetição do que já foi dito. De 1984 é O texto na sala de aula, em que vários artigos tratam do ensino da leitura e da escrita na escola e em que o organizador, João Wanderley Geraldi propõe, no artigo Unidades básicas do ensino de Português, finalmente, um novo programa, que se baseia em três práticas a serem desenvolvidas: a leituras de textos, a produção de textos, a análise linguística, tal como passaram a prescrever os Parâmetros Curriculares Nacionais, de 1996. 

Língua e liberdade, o simpático livrinho de bolso de mestre Luft, que tinha na capa um desenho de Caulos, cartunista conhecido de todos os que liam O Pasquim, onde se escrevia em brasileiro pra se opor aos jornalões que apoiavam a Ditadura escrevendo em português, é de 1985. Foi lido por um monte de gente, por causa do prestígio do autor como gramático, como autor do Novo guia ortográfico e graças ao poder esclarecedor de sua coluna no jornal.

O livrinho abre com um comentário em que dá o seu respaldo a uma debochada crônica de Luís Fernando Veríssimo, que se atribui a condição de gigolô das palavras, de aproveitador, de explorador das palavras, que bota elas a trabalharem para ele, a fazerem o que ele quer que elas façam, deixando bem claro que é ele que manda nelas. Luft diz, a seguir diz, na abertura do seu primeiro capítulo, que se chama Subversão linguística? (p. 33): Não se trata de “ensinar” a língua materna, que o aluno já fala ao entrar na escola; nem se pode, aliás, ensinar uma língua. O que cabe é ir aumentando a capacidade comunicativa dos alunos, trabalhar com a língua, melhorando sempre mais e tornando mais produtivo o manejo desse instrumento.

Não se trata, principalmente, como podemos ler na p. 49, de obrigar a aprender combinações lusitanas de verbos e pronomes: condoêssemo-nos, fi-lo, pu-lo, tem-no, ponde-lo, púnhei-lo… Tento traduzir, pela ordem: nos condoêssemos, fiz isso ou fiz aquilo, tem ele, põe isso aí, ou melhor, bota isso aí, e – socorro! – não faço ideia do que seja púnhei-lo na língua que a gente fala.   

Assim mestre Luft encerra o seu livrinho, evocando a palavra de Paulo Freire: Um ensino libertador, a libertação pela palavra; será esse o grande objetivo a ser perseguido em nossas aulas de língua materna. Liberto, e consciente de seus poderes de linguagem, o aluno poderá crescer, desenvolver o espírito crítico e expressar toda a sua criatividade.

Em 1984, essa língua que a gente já sabe não era ainda chamada de português brasileiro, expressão que comparece na capa de, pelo menos, duas das mais importantes gramáticas contemporâneas: Nova gramática do português brasileiro, de Ataliba Castilho, editada pela Contexto em 2010 e Gramática pedagógica do português brasileiro, de Marcos Bagno editada em 2011 pela Parábola Editorial. 

Valeu, Mestre Luft.


Paulo Coimbra Guedes é professor do Instituto de Letras da UFRGS, onde leciona redação há muito tempo, atuando nas licenciaturas de Português no curso de Jornalismo. É autor, entre outros, de Da Redação Escolar Ao Texto – Um Manual De Redação (Editora: UFRGS). Foi homenageado no livro O que eu quero dizer é o seguinte (Editora da UFRGS).

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