Nossos Mortos

O pai de todos os memes

Change Size Text
O pai de todos os memes Daniel C. Dennett no Fronteiras do Pensamento, 2010. Foto: Divulgação/Fronteiras do Pensamento

O corpo: se existisse um filme chamado O Natal de Darwin, Daniel C. Dennett (1942 – 2024) poderia ter sido escalado tanto para o papel do cientista quanto para o do Papai Noel. A mente: se você não leu suas memórias (I’ve been thinking, 2023) ou qualquer outro dos seus livros (Brainstorms: Ensaios filosóficos sobre a mente e a psicologia, A perigosa ideia de Darwin, Quebrando o encanto: A religião como fenômeno natural, para citar alguns que já foram traduzidos no Brasil) imagine um sujeito com a curiosidade oceânica (e as barbas, claro) de um Leonardo da Vinci. Além de tudo isso, o filósofo e cientista cognitivo Daniel C. Dennett pode ser considerado o pai de todos os memes, já que foi ele quem desenvolveu o termo (cunhado por Richard Dawkins em 1976) para demonstrar como diferentes tipos de comportamentos são produtos da nossa evolução cultural.

Um filósofo que estuda ciência a fundo para tentar entender como a vida na Terra foi “da bactéria a Bach” (título de um de seus livros) e como a espécie humana alcançou (ou acredita que alcançou) a consciência, o livre arbítrio, as crenças religiosas e a capacidade de criar memes não se encontra em qualquer departamento de Filosofia por aí. Mas Dennett é “renascentista” também no lado menos cabeção da existência. Em sua fazenda no Maine, o professor da Tufts University (Massachusetts) consertou canos entupidos e telhados danificados, criou porcos, produziu vinhos, cuidou de um pomar. Nas horas vagas, velejou e praticou mergulho. Também casou, educou dois filhos, aprendeu a tocar piano e chegou a pensar em dedicar-se profissionalmente à escultura, mas logo se deu conta de que não era tão bom assim no negócio – outra prova inequívoca de inteligência. (A coisa fica ainda mais fabulosa quando a gente dá um pulo de uma geração para trás e descobre que seu pai, um historiador, trabalhou como espião durante a II Guerra e foi reconhecido como o primeiro agente da CIA morto em ação, em 1947, em um acidente aéreo nunca explicado na Etiópia. Que tal essa?)

Dennett esteve em Porto Alegre em 2010, e coube a mim entrevistá-lo no palco do Fronteiras do Pensamento depois da conferência. Talvez a cidade tenha jornalistas que manjem mais de filosofia (não é muito difícil), mas poucos devem gostar tanto quanto eu de ler sobre pensadores, de todas as épocas, que desafiaram a ideia bastante popular de que Deus existe. (Meu delírio, como o do Belchior, é a experiência com coisas reais.) Quando dá pé, também gosto de falar e escrever sobre o assunto. Sempre imagino uma guria como eu, criada com crenças demais e livros de menos, tendo a satisfação de descobrir que seu coraçãozinho laico pertence a uma linda tradição intelectual – mesmo que não exista um feriado nacional dedicado a celebrá-la. Dennett faz parte dessa tradição.

Junto com o biólogo Richard Dawkins, o jornalista Christopher Hitchens e o neurocientista Sam Harris, o filósofo integrava o grupo que ficou conhecido como “os quatro cavaleiros do Novo Ateísmo”. Na esteira do 11 de Setembro, entre 2004 e 2007, o quarteto antifantástico publicou O Fim da fé: Religião, terrorismo e o futuro da razão (Harris), Deus: Um Delírio (Dawkins), Quebrando o encanto (Dennett) e Deus não é grande (Hitchens) – para horror de muitos, satisfação de alguns e indiferença da maioria que nem chegou a tomar conhecimento do debate. No meio intelectual, os livros fizeram um certo barulho. Até a última contagem, Deus: Um Delírio, o best-seller da turma, já havia vendido mais de 3 milhões de cópias no mundo todo – além de ter circulado como texto proibido em países onde questionar a fé dá cana ou coisa pior.

Teria sido um passeio na Disney conduzir a entrevista se Dennett tivesse vindo a Porto Alegre apenas para entreter ateus, irritar crentes e aborrecer os que acreditam que não é de bom-tom chacoalhar a fé alheia (esse é o “encanto”, ou feitiço, a que se refere o título do seu livro). Nananina. O filósofo queria falar de filosofia, vejam só, e a polêmica da hora seria servida apenas como sobremesa. Dennett bagunça os limites que costumam separar as ciências humanas de áreas como biologia, neurociência e computação. Ou seja: não é fácil encaixá-lo como filósofo, cientista ou mesmo como filósofo da ciência. Eu não sabia nem por onde começar a perguntar, e o tempo para preparar as questões que eu faria no palco era pequeno. Por sorte, Dennett participou de uma conversa pré-Fronteiras no saudoso StudioClio. A proposta era reunir um grupo pequeno de estudantes e professores que já conheciam os seus livros para aprofundar alguns dos temas que seriam apresentados na conferência do dia seguinte. O assunto principal da conversa, até onde eu me lembro, foi o conceito de livre arbítrio.

Dennett discordava de Descartes, e de boa parte da Humanidade, ao defender a ideia de que não existe um corpo separado de uma “alma” que maneja emoções e pensamentos abstratos. De Bach à bactéria, é tudo física e química. Mas, para complicar, ele discordava também de quem acredita que não existe nenhum tipo de livre arbítrio, uma vez que estaríamos todos condenados a executar comandos sobre os quais não temos controle porque são consequência natural de tudo que veio antes de nós desde o Big Bang. Para Dennett, somos como “máquinas de escolher”. Melhor deixar ele explicar:

A expressão “máquina de escolher” é na verdade de Gary Drescher, um teórico da Inteligência artificial. Ele distingue “máquinas de escolher” de “máquinas de situação-acção”. Estas são construídas com um conjunto de regras que dizem “Se estiver na situação x, faça A”, “Se estiver na situação y, faça B”, e por aí afora. É como se tivéssemos uma lista na carteira para consultar sempre que fosse necessário tomar decisões importantes. Se existirem as condições para uma decisão particular, então agiríamos. Não saberíamos porquê. A regra afirma apenas “faça”. Uma “máquina de escolher” é diferente, pois olha para o mundo e vê opções, e diz “Se faço isto, o que acontecerá?”, “Se faço aquilo, o que acontecerá?”, “Se fizer outra coisa, o que acontecerá?”. Ela constrói uma antecipação do resultado provável de cada ação, e depois escolhe com base no valor ou desvalor desse resultado. Elas são ambas máquinas, mas uma delas é muito mais livre do que a outra, já que escolhe as suas ações na base dos seus valores, e escolhe o que valoriza baseado no que sabe. (De uma entrevista publicada pelo site “Páginas de filosofia”)

No dia da conferência, não passei vergonha (acho) fazendo as perguntas que eu havia preparado graças ao encontro no StudioClio. Dennett, como sempre, encantou a plateia traduzindo conceitos complexos, e muitas vezes contra intuitivos, para a compreensão dos

leigos. No final, respondeu perguntas e provocações sobre ateísmo – que, imagino, era o assunto em que boa parte da plateia estava mais interessada. Polemista calejado em debates com diferentes tipos de interlocutores, escritor talentoso e professor experiente, o filósofo que morreu no dia último dia 19 de abril sabia que ninguém abala convicções ou intuições alheias apenas com base em bons argumentos. É preciso saber contar bem uma história. E o múltiplo Daniel era bom nisso também.


Claudia Laitano é jornalista, com especialização em Economia da Cultura. É mestranda em Literatura pela UFRGS, com pesquisa sobre Carlos Reverbel. É autora de Agora eu era e Meus livros, meus filmes e tudo o mais, ambos pela L&PM.

RELACIONADAS
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHEUM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHEUM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1

Esqueceu sua senha?

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.