Nossos Mortos

O resto é história

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O resto é história Paulo José em cena do filme O mentiroso (acervo: Casa de Cinema)

Paulo José – um dos maiores atores de teatro, cinema e televisão do Brasil, que morreu em 11/8 – aprendeu desde cedo a lidar com as adversidades. Ainda criança, montado a cavalo, com um vento gelado uivando nos ouvidos, foi ensinado a laçar rês nos campos de Lavras do Sul, onde nasceu em 1937. Algum tempo depois, esse mesmo peão destemido aguentaria firme o coro de vaias, assobios e chacotas ao subir a Rua 7 de Setembro, em Bagé, com duas liras douradas presas à lapela da capa azul-marinho, em direção à aula de piano, no Instituto de Belas Artes. 

– Sabe o que era estudar piano em Bagé na década de 1940? – costumava perguntar.

Silêncio de suspense.

– Coisa de maricas – ele próprio respondia.

O quintal da Távola Redonda

Se o senso prático havia herdado do pai, o pecuarista Arlindo, a capacidade de embrenhar-se nos campos da imaginação foi legado da mãe, Maria Del Carmen, espanhola nascida nos Montes Cantábricos. 

Embalado por contos medievais que Carmencita contava ao pé da cama, antes que o filho adormecesse, Paulo José fazia do quintal de casa um território dominado por Rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda. A biblioteca tinha corredores invisíveis, que conduziam a recantos sagrados, embora algumas obras fossem censuradas. O avô raspava as ilustrações que achava indecentes, a exemplo das gravuras de A divina comédia, de Dante, cheias de gente pelada. Também não escapavam da gilete do avô as aventuras de Marco Polo, nas quais vinham à tona exóticos costumes, como de esquimós que ofereciam as esposas para visitantes, como demonstração de boas-vindas. 

O universo de fantasia que animava o guri ganhou protagonismo quando ele entrou pela primeira vez num teatro, no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, de padres salesianos, em Bagé. 

– Senti que era meu lugar no mundo.

Um dos brasileiros do século

Em 1999, os leitores da revista ISTOÉ elegeram os Brasileiros do Século – a cada mês, saía um fascículo dos vencedores em categorias como política, esporte, religião, música, arquitetura etc. Em artes cênicas, Paulo José foi um dos escolhidos pelo público, que enviava cartas indicando seus favoritos para a redação. Eu era o editor, e por isso subi até a cobertura em que o ator morava no Rio de Janeiro para entrevistá-lo. Já doente do Parkinson, chamava atenção a leveza de movimentos, apesar da limitação física. 

– Se o bicho tropeça ou enfia a pata num buraco, precisa saber rolar no chão sem lutar contra a queda, caso contrário pode se quebrar todo. Esse é o segredo – explicou, reavivando as lembranças campeiras.

O mal havia se manifestado em 1993, após ele ficar três noites sem dormir para editar o programa Você decide, da TV Globo. Não foi a primeira vez que o corpo mandou sinais frente a uma situação desconfortável. 

Em paralelo às apresentações do Teatro de Equipe – que ajudou a fundar com Paulo César Pereio, Lilian Lemmertz, Ítala Nandi e Fernando Peixoto, nos anos 1950 –, Paulo José trabalhava num escritório de arquitetura em Porto Alegre. Lá, recebeu a tarefa de desenhar plantas de apartamentos com dimensões menores do que as exigidas por lei, cumprindo ordens do patrão. Com uma semana de serviço, a mão direita paralisou. Bastou sair do emprego para ficar curada. 

– O corpo se recusou a desenhar as plantinhas sem-vergonhas – relatou, décadas depois, já na virada do milênio, durante a entrevista para ISTOÉ na cobertura do Leblon.

Gre-Nal no palco

Do início da carreira teatral em Porto Alegre, guardava na memória a montagem de A almanjarra, de Arthur Azevedo, para meia dúzia de espectadores em 1958. 

Era um domingo de Gre-Nal e havia um radinho de pilha nos bastidores. Cada ator que entrava em cena dava uma dica sobre o placar. “Oxo! Não vejo a hora de tirar essa roupa”, dizia o personagem, sugerindo que estava zero a zero. Até que um dos atores entrou no palco com o radinho colado no ouvido. “Mais alto! Também quero escutar o jogo”, gritou um espectador. 

– Era como se ninguém pudesse ficar distante de tamanho acontecimento – contou Paulo José, um colorado que era fã do Rolinho, lendário time do Internacional da década de 1950.

Antes de se transformar em ator, para agradar a família, tinha feito vestibular para Medicina, mas não compareceu à prova de Química. Ao invés disso, sentou-se na escadaria do prédio, com os olhos voltados para o chão, absorto em pensamentos. Foi quando viu dois pés à sua frente, alguns degraus abaixo. Era o pai, que havia tido um pressentimento e resolvera vir buscá-lo antes do horário combinado. 

– Se tivesse me dado uma surra doeria menos. Pior foi aquele silêncio de extrema gravidade.

Certo dia, Arlindo chamou o rapaz para uma conversa séria.

– Se o teu caminho é o teatro, então, a primeira coisa que precisas fazer é sair de casa. 

O rapaz sentiu que o momento era de despedida. Depois de mais um longo silêncio paternal, Arlindo complementou, em voz baixa:

– Eu te ajudo.

E Paulo José foi embora de casa. O resto é história.


Paulo César Teixeira, o Foguinho Escritor e jornalista em atividade desde 1980. Escreveu, entre outras obras, Nega Lu – Uma Dama de Barba Malfeita (2012) e de Rua da Margem – Histórias de Porto Alegre (2019), ambos pela Libretos.

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