Nossos Mortos

Os velhos tempos na nossa aldeia

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Os velhos tempos na nossa aldeia Os capacetes futuristas do Elton Manganelli (Foto: Carlos Gerbase)

Não conheço nem um décimo da obra de Elton Manganelli e, embora aprecie o pouco que conheço, não tenho autoridade para falar sobre seus valores estéticos. Também não era seu amigo íntimo. Éramos conhecidos, nos encontrávamos de vez em quando, lutamos algumas batalhas políticas juntos. Poderia falar de afeto e de afinidades, mas não de uma parceria constante. Escrevo, a pedido do Matinal, sobre um acontecimento remoto, lá de meados dos anos 1980, tentando colocar o Elton como peça importante de uma interconectividade cultural que, naqueles velhos tempos, incidiu fortemente sobre o fazer artístico de Porto Alegre.

O fato é singelo: em 1985, o Elton confeccionou quatro capacetes-máscaras para o show de lançamento do primeiro disco dos Replicantes, que aconteceu na Reitoria da UFGRS. Na época, eu era baterista e letrista da banda. Queríamos fazer alguma coisa diferente pra começar o espetáculo e, como muitas das nossas canções tinham uma pegada meio ficção-científica, o Elton foi convocado pela Luciana Tomasi (nossa produtora) pra criar adereços compatíveis com essa temática. Entramos no palco, nós quatro (eu, Heron Heinz, Cláudio Heinz e Wander Wildner), com os capacetes futuristas do Elton, ao som de uma vinheta especialmente composta por Carlos Alberto Miranda, ou Gordo Miranda, outro grande artista que já nos deixou. A plateia estava lotada e ficou embasbacada (pelo menos é o que contaram nossos amigos). Tiramos os capacetes, e o show começou. Há uma gravação em VHS, bastante suja, tosca e barulhenta. Ou seja: ótima.

Foto de autoria desconhecida feita no dia do show dos Replicantes, na Reitoria da UFRGS.

Creio que, naqueles tempos de muita criatividade e pouco dinheiro, o cachê do Elton para fazer as máscaras foi apenas o necessário para pagar os materiais utilizados. É que havia no ar, desde o final dos anos 1970, uma interconexão informal entre jovens artistas da cidade, de diferentes linguagens, que passava por cima de dificuldades estruturais e financeiras para, numa rede de apoio solidário, “fazer coisas”. Coisas de teatro (como os grupos Vende-se Sonhos, Faltou o João, Terreira da Tribo e Do Jeito que Dá), coisas de literatura (os primeiros livros de Caio Fernando Abreu), coisas de cinema (como os muitos filmes em super-8 e curtas em 35mm), coisas de música (como os shows e discos de Nei Lisboa, Nelson Coelho de Castro e toda a turma do Paralelo 30). Não eram pessoas e coisas independentes, separadas, aprisionadas em suas próprias circunstâncias. Eram pessoas e coisas que dialogavam naturalmente e se frequentavam como vizinhos de longa data.

Tinha um tanto de altruísmo recíproco (hoje eu te ajudo porque sei que amanhã tu vais me ajudar), mas tinha muito mais de uma sensação de pertencimento geracional. Estávamos saindo, meio combalidos, dos sombrios anos 70 e queríamos colocar as nossas coisas ao sol o mais rápido possível. Como os obstáculos eram grandes, era melhor enfrentá-los coletivamente. Não se perguntava muito “quanto custa pra fazer?”. Perguntava-se mais “quem pode fazer?”. Por isso o Elton Manganelli fez os capacetes. Simplesmente porque ele podia fazer. Tinha a tecnologia, tinha a manha, tinha a solidariedade, tinha o espírito da época. Assim como o Elton, outros artistas visuais foram se integrando à trajetória dos Replicantes: Rochelle Costi, Fernanda Chemale, Marta Almeida, Cláudia Barbisan, Alex Sernambi, Joice Giacomoni e Lisandro Santos (são os que lembrei de cabeça).

Para as gerações que já nasceram nos tempos internéticos, pode parecer estranho: não havia crowdfunding. As pessoas telefonavam para as casas das outras pessoas, ou se encontravam num bar pra discutir como fazer. Claro que em 2021 há muito mais financiamentos coletivos que em 1985. E claro que o mundo digital facilita muito o contato com pessoas distantes ou com desconhecidos. Mas há menos interconexões artísticas entre as linguagens. Vivemos em caixas mais estanques. Busca-se, sobretudo, a grana que vai permitir fazer a coisa, em vez de buscar as pessoas que vão fazer a coisa e que são capazes acrescentar sua visão criativa ao processo. Porto Alegre cresceu, há mais profissionais da arte circulando, há mais faculdades e cursos ligados à cultura, que deram uma maior seriedade ao cenário. Surgiu o termo “economia criativa”, que resume bem essa nova maneira de encarar a coisa toda, para o bem (ampliação do mercado e melhores condições financeiras para os realizadores) e para o mal (valorização demasiada dos produtos teoricamente vocacionados para o sucesso comercial).

O conceito de “aldeia global”, criado e desenvolvido por Marshall Mcluhan nos anos 1960, previa a interconexão planetária muito antes da invenção da internet. Quando esta chegou, tudo que o filósofo canadense disse adquiriu um tom profético, tanto que muitas das suas reflexões permanecem relevantes mais de sessenta anos depois. Contudo, será que esse cipoal de conexões digitais, esse emaranhado de aplicativos, redes sociais, lives e softwares de colaboração é mais eficiente para o fazer artístico que aquelas conversas na mesa do bar dos anos 1980? Tenho a impressão que Porto Alegre era mais provinciana, uma aldeia nada global, mas a arte que circulava era mais interlinguística e mais anticonvencional. Mais emocional e menos técnica. 

Ainda guardo duas das quatro máscaras confeccionadas por Elton Manganelli para Os Replicantes. A partir de agora, cada vez que olhar para elas lembrarei de um artista generoso e solidário. Aqueles velhos tempos de interconexão pessoal e afetiva não voltam mais. Ainda podemos, no entanto, tentar aprender com eles, reconstruindo as pontes derrubadas por uma avalanche de comunicação fácil e instantânea, que é muito eficiente para formar tribos que se alimentam de suas próprias mediocridades e dogmas, mas pouco capaz de criar laços amplos de colaboração artística, que dependem de encontros verdadeiramente humanos.  


Carlos Gerbase é cineasta, professor de cinema na PUCRS, escritor, mítico baterista da banda Os Replicantes. 

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