Nossos Mortos

Peter Brook, mestre de gerações

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Peter Brook, mestre de gerações

A Porta Aberta foi um dos primeiros livros que li sobre o fazer teatral e a essência da arte de representar. Eu iniciava  os meus estudos como atriz e não tinha muita ideia sobre quem era Peter Brook, mas isso não impediu que essa obra, de pouco mais de cem páginas, me tocasse profundamente. O pequeno livro é sobre a arte teatral, mas é também sobre a vida, porque Brook é pura filosofia. É nessa pequena bíblia do teatro contemporâneo que encontramos a clássica frase: “Para que alguma coisa relevante ocorra, é preciso encontrar um espaço vazio”. Daqueles livros que precisam ser revisitados,  pois carrega uma simplicidade reveladora sobre a complexidade do teatro e do humano. Para Brook, teatro e vida “são termos amplos demais para terem significado”, pois quando falamos em teatro, por exemplo, lembramos de prédios monumentais, atores, dramaturgia, figurinos, cenário, luz, mas esquecemos ou ignoramos, a sua essência: o “momento presente”.

Capa (Reprodução)

É necessária uma longa jornada como atriz ou ator para compreender na prática os ensinamentos do diretor britânico que marcou a história do teatro, da ópera e do cinema. Peter Brook, filho de imigrantes lituanos judeus,  nasceu no dia 21 de março de 1925 e começou cedo a sua carreira artística. Desconhecido do grande público, pois não se rendeu a uma arte de caráter mais comercial, é idolatrado desde o final dos anos 1960 por gerações de artistas que o consideram um revolucionário.

É difícil  apontar os seus feitos mais importantes, pois esteve à frente da Royal Opera House e da Royal Shakespeare Theatre, dirigiu o épico Mahabharata (1985) sobre a mitologia hindu, que também ganhou as telas do cinema, assim como a peça de Peter Weiss, Marat/Sade (1966). Criou o Centro Internacional de Pesquisa Teatral (1971) e o teatro Bouffes du Nord (1974), em Paris, com uma companhia formada por atores das mais diferentes nacionalidades e culturas. Escreveu vários livros, entre eles O teatro e seu espaço, leitura obrigatória para os artistas contemporâneos que perseguem a renovação da cena teatral.

È na improvisação que Brook encontra  uma alternativa para escapar do que ele chama de “teatro morto”, o teatro tradicional e conservador que começa a morrer no dia em que nasce, pois quando uma criação cênica é dada como finalizada, imediatamente começa a perder a essência de um “teatro vivo” ao tornar-se previsível. Brook propõe um teatro aberto a mudanças e atravessamentos, inesperado, excitante e desafiador. Um teatro que integra passado e futuro no momento presente, que mostra o nosso cotidiano para estimular o olhar crítico e nos aproxima do que não conhecemos com a mesma finalidade, compreender melhor a vida.

Para Brook, “quando o homem perde o sentimento do assombro, a vida perde o sentido”, e com o teatro não é diferente, por isso considera que o ator verdadeiramente criativo é um espaço vazio, que não teme abandonar as formas previamente fixadas, seja um gesto, uma fala ou marca de cena, e sempre está disposto a recomeçar, pois a repetição pode e deve ser diferente, por mais contraditório que isso possa parecer. É na real conexão consigo, com os colegas de cena e com a plateia que os atores encontram o frescor de cada apresentação, seja através da energia de uma palavra ou de um movimento: “A arte dos detalhes é que conduz ao coração do mistério”.

Se na improvisação proposta pelo mestre russo Stanislávski (1863-1938)  os atores têm referências sobre quem são os personagens, seus passados e circunstâncias do presente, na improvisação proposta por Brook os atores recebem poucas sugestões ou orientações, pois o começo pode ser qualquer coisa, sendo que o ponto de partida é o vazio. Um vazio pleno de possibilidades, porque é na relação entre os atores durante o jogo da cena que surgem a história, as emoções e tudo que constitui os personagens.

Enquanto Stanislávski propõe um conjunto de técnicas e procedimentos mais palpáveis para os atores buscarem a verdade cênica, Peter Brook  fala de modo mais metafórico sobre a verdade no trabalho de atuação, que envolve uma incessante busca interior de redescoberta e a consciência absoluta da ação teatral no tempo presente. Brook quer os atores em risco, corajosos diante das mil possibilidades de uma cena.

Nem sempre a improvisação flui de modo fácil com poucos elementos iniciais definidos, por isso o silêncio é essencial na pedagogia de Brook: é o silêncio que guia o ator ao esvaziamento. E não é apenas o silêncio das palavras, é  o silêncio do corpo, das ideias e emoções, ou seja, algo complexo, que exige um treinamento constante e rigoroso.

O silêncio permite a percepção do tempo presente, abre as portas da intuição e instiga os atores a abrir mão das soluções e recursos prévios em favor da exploração de novas possibilidades, mesmo sem qualquer garantia de sucesso.

Brook procura “[…] confrontar o ator o tempo todo com suas próprias barreiras, nos pontos em que, no lugar da verdade de uma nova descoberta, ele coloca uma mentira”, já que para construir um personagem é preciso desconstruir: “[…] remover  tijolo por tijolo os entraves dos músculos, ideias e inibições do ator que se interpõem entre ele e o papel,  até  que  um  dia,  numa  lufada  de  vento,  o  personagem  penetra  por  todos  os seus poros”.

Admirador sagaz da obra de Shakespeare, por tornar visível o mundo espiritual e invisível através de formas e ações que levam o público a uma extrema percepção da realidade, diante das diferentes camadas de significação construídas na cena, Brook afirma que são raros os artistas que conseguem unir de forma autêntica o mundo visível e o mundo invisível na arte, mas aqueles que conseguem isso sobrevivem eternamente através das suas obras.

No último sábado (02.07), Brook, do alto dos seus 97 anos, nos deixou. Quase um século de vida, boa parte dedicada ao teatro e seus mistérios, na busca incansável dos detalhes que formam o “tecido da vida” transformado em arte. Brook uniu o visível e o invisível, por isso renasce cada vez que alguém é tocado pelo seu trabalho. Um silêncio repleto de admiração pelo mestre.


Referências

BROOK, Peter. A porta aberta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

 ________. O ponto de mudança: quarenta anos de experiências teatrais 1946- 1987. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994.

________. Fios do tempo: memórias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.


Juliana Wolkmer é atriz, pesquisadora e professora. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRGS. Mestra em Artes Cênicas e Especialista em Pedagogia da Arte, possui graduações em Teatro e História (UFRGS). É idealizadora e produtora do canal História do Teatro.

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