Nossos Mortos

Peter Brook, o mensageiro dos deuses do Olimpo

Change Size Text
Peter Brook, o mensageiro dos deuses do Olimpo

Céu nublado, chuva esparsa, nuvens difusas no céu… não poderia haver cenário mais adequado para escrever sobre a partida de Peter Brook, 97 anos de uma vida exemplar. Um gigante dos palcos, um farol.

 Começar de onde? Da importância real, fundamental, que esse homem, referência obrigatória a qualquer profissional de teatro, exerceu nos palcos, nas encenações que mudaram o pensamento cênico do século XX, do escritor incansável e rigoroso que nos brindou com mais de uma dezena de livros essenciais. Brook, reconhecido como o mais importante diretor de teatro do mundo dos últimos cem anos, merece todos os elogios, todos os aplausos, todas as reverências possíveis. Nós, diretores teatrais, devemos a ele epifanias e revelações cruciais para o desenvolvimento do nosso árduo ofício.

 Tive a honra (pouquíssimas vezes na vida uso essa expressão; hiperbólica e exagerada, foi banalizada pelo uso corriqueiro e indevido; mas é o caso aqui, essa é a minha sensação em relação a ele) de conhecê-lo, trabalhar com seu grupo, conhecer seu teatro, Les Bouffes du Nord, para mim o teatro mais bonito do mundo, prédio destruído durante a Segunda Guerra que ele não permitiu que restaurassem, investindo pesado em equipamentos técnicos e equipe altamente qualificada. Ali, no meio da sala vazia, senti a reverência do seu amor absoluto pelo teatro. Ali, me emocionei às lágrimas. Ali, conheci Isabelle Huppert, esplendorosa e potente, atriz essencial. Ali, em um dos momentos mais felizes da minha vida, conversei com o Mestre. Ele mesmo, em carne e osso. Me senti um abobado completo. Falava aos trancos e barrancos, meio emocionado, meio tímido, totalmente incapacitado de dizer duas frases sem gaguejar. Ele me ouviu atento, generoso, e parecia estar gostando da conversa com aquele brasileiro que não dizia coisa com coisa. Mas deve ter percebido meu respeitoso amor por ele. Tanto que, sempre sob sua guarda e com a sua bênção, o grupo veio a Porto Alegre quatro vezes, em espetáculos de beleza radiante.

Na nossa conversa inicial, naquele encontro histórico para mim, me contou que nunca tinha apresentado uma peça no Brasil. Tinha vindo ao país uma única vez, para uma palestra, mais nada. E tivemos então o privilégio, dentro da programação do Porto Alegre Em Cena, de apresentar pela primeira vez no país uma peça assinada por ele. “Le Costume” tinha uma simplicidade que só os eleitos e os totalmente depurados conseguem. Essa encenação essencial que ele propunha em seus últimos espetáculos, se olhada sem profundidade, parece ter decepcionado boa parte dos brasileiros que o reverenciavam; na saída de uma das apresentações, eu embevecido e enlevado, ouvi um grupo de alunos do DAD comentando negativamente o trabalho, “porque no DAD a gente faz coisa muito melhor”. Para além da vontade de dar umas palmadas nos moleques, que bem as mereceriam, me dei conta do quão trabalhosa é a trajetória de quem vai encarar o teatro como profissão de vida… 

Voltando à peça: o elenco, totalmente negro, me fez conhecer de perto Sotigui Kouyate, um de seus atores mais emblemáticos, e que me lembrava um chefe de tribo africana legítima. Na sua frente, ficava sempre como se estivesse ao lado de um pajé mais sábio e mais preparado. Eu e Sotigui ficamos amigos, tive o privilégio de conhecer sua casa em Paris, seu trabalho autoral, seu universo particular. Diga-se que a montagem veio somente para nossa capital, exclusivamente. Nem São Paulo nem Rio nem outra capital nenhuma. Li um comentário de que a peça não tinha ido a São Paulo porque era uma obra menor de Brook. Mentira. Eles bem tentaram, insistiram, mas o grupo não tinha disponibilidade nem agenda. Ah, os paulistas….

Para além da alegria óbvia de receber o grupo em momento tão especial para Porto Alegre, tive também, com eles, uma das maiores vergonhas da minha vida profissional. Uma das quatro apresentações previstas teve de ser cancelada, mesmo com uma fila imensa serpenteando o Centro Municipal de Cultura. Chovia no saguão e no palco do Teatro Renascença como se fosse na rua, um caos.  Horror absoluto. Os atores e a equipe olhavam aquilo como se nunca tivessem visto nada igual em suas andanças pelo mundo. Não tinha como manter a apresentação programada. Com dor profunda, vergonha e terror, cancelamos a sessão prevista. O pessoal da fila me vaiou com sincera indignação, mas não teve jeito, todos foram reacomodados nas apresentações seguintes. Ao saber do ocorrido, Brook me mandou palavras de solidariedade e alento. Relembrou seus tempos primevos de diretor, me incentivou a não desistir. O grupo foi exemplar: sem chiliques, sem ironias, sem admoestações. Nunca esqueci esse comportamento de extrema educação. Pelo contrário. No absurdo momento vivido, foram parceiros fraternos. A maioria dos artistas brasileiros soltaria os cachorros. Mas é disso que se faz a matéria fina da vida: tentativa e erro, acertos, amadurecimento.

Não guardo nada, nenhuma matéria ou recorte de imprensa, da minha vida profissional; só tenho comigo a memória viva de tantos acontecimentos daquilo que o Teatro me trouxe. Pelos jornais, lembrei que, sim, o grupo veio quatro vezes à cidade, sempre encantadores e solícitos. Vi a reverência e a admiração do consagrado diretor a Samuel Beckett, na sua montagem de “Dias Felizes”. Impossível montar esse texto tentando “inovar” ou “desconstruir” Beckett. As rubricas são rigorosamente precisas e metódicas, até os tempos de silêncio, os segundos sem ação, estão indicados pelo dramaturgo. Brook seguiu todas as orientações do autor. Beckett não é pra qualquer um, ainda mais nesses tempos velozes e furiosos que vivemos. Ali, entendi que o bom diretor respeita o autor do texto escolhido. Se não, não faz sentido sua escolha.

“O Grande Inquisidor”, baseado em capítulo de “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski, trouxe ao Porto Alegre em Cena um dos mais longevos colaboradores do diretor: Bruce Myers, um ator excepcional. Assistimos, também, “A Flauta Mágica”. Enfim, conhecemos e nos iluminamos com as suas concepções sobre textos fundamentais. Ainda vi, e cabe destacar aqui, sua versão minimalista de “Hamlet”, com um ator negro vivendo o célebre Príncipe da Dinamarca. Essa mistura de raças e etnias, comum hoje em dia, teve em Peter Brook um desbravador destemido.

Das montagens monumentais como“Mahabharata”, Brook foi depurando sua obra em direção a direções econômicas e desprovidas de efeitos espetaculosos. “A Conferência dos Pássaros”, outra de suas direções inspiradíssimas, tinha apenas tapetes espalhados pela sala, nada mais. E era o suficiente.

Temos falado muito em Peter Brook, eu, Zé Adão Barbosa e Arlete Cunha. Estamos prestes a estrear “Gabinete de Curiosidades”, texto de Gilberto Schwartzmann que é uma verdadeira aula de amor ao Teatro, repleta de citações de dramaturgos e artistas essenciais. A peça flagra dois velhos atores abandonados em um asilo decadente, sem assistência nem acompanhamento, que se refugiam em suas memórias para sobreviver ao tempo tenebroso que lhes cabe viver. No momento “Peter Brook” de seu texto, Gilberto escolheu um trecho do “Simurg”, pássaro sagrado, história central da “Conferência dos Pássaros” citada acima. Em homenagem a ele, enchemos o espaço com muitos tapetes. Há um retrato dele, pois Neiró, o personagem do Zé Adão, o idolatra. E, antes que os ligeirinhos de plantão nos acusem de oportunismo, esclareço que tudo isso estava previsto e definido antes da morte do grande Mestre. A peça tem citações de Beckett e Brecht, entre muitos outros. Lírica, nostálgica, divertida, a peça é comovente e relevante, nesses tempos de barbárie explícita. Delicadeza precisa constar da cesta básica do homem contemporâneo. Só pra finalizar o parágrafo, depois não digam que não avisei: Zé Adão e Arlete vão arrasar. 

Voltando ao Mestre, e finalizando esse comentário, queria registrar de novo a alegria pessoal de tê-lo conhecido e ser testemunha de que sua grandeza pessoal o levou a ser o extraordinário artista que ele foi, que ele sempre será.

Peter Brook. Silêncio. Aplausos. Gratidão.

(Fotos da estreia do espetáculo Mahabharata no Festival d’Avignon, 1985. Crédito: Reinoso e Abegg)


Luciano Alabarse é cenógrafo e diretor de teatro. Alabarse já foi entrevistado pela Parêntese: leia aqui.

RELACIONADAS
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHE UM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHE UM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.