Nossos Mortos

Poner el cuerpo

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Poner el cuerpo Mônica Benício com Nora Cortiñas e integrante do movimento Ni una menos. Foto: Emergentes

A expressão do título – poner el cuerpo – é daqueles desafios que desesperam e maravilham tradutores. Se o sentido da expressão em espanhol é mais ou menos evidente – posicionar-se, mobilizar-se, tomar partido – não está disponível em língua portuguesa um equivalente que condense a mesma força e beleza – o literal pôr o corpo tem sentido quase opaco. Na Argentina, a expressão está naturalizada em contextos de militância política progressista, de mobilização de rua, e conhecemos bem o histórico dos hermanos nesse campo. As Mães e Avós da Praça de Maio ponían sus cuerpos antes da expressão existir. No dia 30 de maio, essa notável organização perdeu Nora Cortiñas, uma das fundadoras, aos 94 anos. 

Filha de imigrantes catalães do início do século, Norita nasceu em Buenos Aires em 22 de março de 1930. Os pais, ela e as quatro irmãs viviam a vida esperada a uma família de classe média baixa da época: às mulheres, o trabalho doméstico, aos homens, o sustento material. Nora se casa aos 19 anos e reproduz o modelo herdado, mas agrega às tarefas domésticas algumas aulas de alta costura que ela, costureira de mão cheia, oferecia às vizinhas. Seu primeiro filho Carlos Gustavo Cortiñas nasce em 1952; o segundo, Marcelo, em 1955. A família que Nora construiu com marido e filhos via com simpatia o estado de bem-estar social promovido pelos governos de Perón (1946-1955), mas nunca foi especialmente ativa em política. 

Carlos Gustavo vai aproximar-se de uma figura central da militância de esquerda argentina, o Padre Mugica, assassinado pela Triple A (Aliança Anticomunista Argentina) em 1974, ainda no governo democrático de Isabel Perón. Depois vai unir-se à Juventude Peronista e aos Montoneros. Com o golpe de estado de 1976, a repressão se intensifica e impõe um novo método, que se soma à tortura e ao assassinato: o desaparecimento forçado de pessoas. É o que acontece com o filho de Norita em 1977 e o que a leva ao movimento das Madres e Abuelas, fundado nesse mesmo ano. A costureira e dona de casa de rotina pacata se transformaria na madre de todas las batallas.   

Já como mulher pública, Nora vai estudar Psicologia Social e, como as demais Madres, vai incansavelmente buscar pelo filho desaparecido, que jamais foi localizado. A organização se transformou em referência mundial na defesa dos direitos humanos, e Norita, na titular da cátedra livre de Poder Econômico e Direitos Humanos da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires. 

Não faz sentido individualizar uma integrante da organização que sempre defendeu a luta coletiva, que transformou os dramas privados em assunto público, que apregoou que não são mais mães de um único filho, são dos 30 mil mortos e desaparecidos pela ditadura argentina. Mas Norita era especial. Menos pela energia admirável, o sorriso largo, a gesticulação imponente e mais por sua adesão a brigas que não eram necessariamente das Madres. Comício sobre a dívida externa, lá estava ela. Piquete a favor dos trabalhadores, dos aposentados, Norita com megafone na mão. 

Uma batalha em especial ampliou consideravelmente o fã clube de Nora – e também lhe rendeu outra série de inimigos. Ela acompanhou desde o início os movimentos feministas que se enraizaram na Argentina até o emblemático Ni una menos, de 2015. Essa articulação popular, somada à vontade política do governo de Alberto Fernández, levou à aprovação da lei do aborto legal, em 2020. Aborto é um tema espinhoso para algumas Madres de formação católica. Nunca foi para Norita, que abraçou o pañuelo verde das feministas com o mesmo entusiasmo com que atou à cabeça o pañuelo branco das Madres. Em 2018, o senado argentino concedeu à Marielle Franco, que havia sido assassinada há pouco menos de seis meses, um reconhecimento por seu compromisso com os direitos humanos. Mônica Benício, viúva de Marielle, foi à Argentina receber a honraria. Na mesa do cerimonial, junto a lideranças de direitos humanos e feministas, estava Nora Cortiñas. Não é banal que seja ela a compor essa mesa. Vai fazer muita falta essa mulher que puso el cuerpo em todas as batalhas relevantes do seu, do nosso tempo.


Karina de Castilhos Lucena é professora do Instituto de Letras da UFRGS.

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