Operação Belchior

Para eternizar sua presença

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Para eternizar sua presença Belchior (Acervo pessoal de Dulce Helfer)

A primeira carta que recebi de Belchior data de 1980, ano quando me visitou em Santa Cruz do Sul, cidade onde nasci e lugar onde Bel faleceu. Foram mais de 30 anos de amizade, registrados em fotos, bilhetes, cartas e presentes. Não passava pela minha cabeça fazer um livro com esse material, apesar da minha amiga Rosane Marchetti ter sugerido inúmeras vezes. Acontece que muitas pessoas que mal conheceram Bel, depois da sua morte passaram a lançar livros sobre ele e, nesse momento, considerei isso oportunismo.

Belchior e Dulce: início dos anos 80. (Acervo pessoal de Dulce Helfer)

Rosane estava presente em nosso último jantar, no Van Gogh, em Porto Alegre. Apesar de costumeiramente irmos ao Restaurante Copacabana, onde comíamos peixe, acompanhado de um bom vinho tinto, pois assim como ele também não como carne vermelha, naquela noite ele havia tocado no Bar Opinião, de onde saímos já de madrugada e, portanto, com poucas opções para jantarmos. Convidei minha amiga e seu marido para irem conosco e rumamos ao restaurante, um dos últimos que fecha, na Cidade Baixa, e de onde só saímos depois das 4h30 da manhã.

Nessa ocasião Bel disse, entre outras tantas coisas que pretendo revelar em meu livro, que precisava deixar tudo para trás. Achei que estava somente numa fase daquelas que todos já tivemos, o famoso “de saco cheio”. Infelizmente fui muito insensível, não levando a sério o momento de angústia que ele vivia. Retornou a SP no dia seguinte e nunca mais falamos. Só soube da famosa fuga quando um ex-colega do jornal Zero Hora ligou, perguntando se Bel estava na minha casa. Sequer sabia que estava em Porto Alegre. Como em várias ocasiões Belchior ia ao departamento fotográfico do jornal onde trabalhei por 27 anos e onde eu era a última fotógrafa a sair, já de madrugada, a pessoa da redação que tinha ciência do fato concluiu que ele estava escondido na minha casa.

No restaurante Copacabana, em 1991 (Foto: Sandra Ritzel)

Detalhe de um recado deixado para Dulce.

Como todos, acompanhei as notícias pela imprensa, sentindo uma enorme culpa. Já haviam me dito que, após sair do Uruguai, Bel havia sido acolhido na minha cidade. Claro que fiquei surpresa pela coincidência. Mas não quis saber mais detalhes, porque concluí que estava bem. Só após sua morte, meus amigos que o acolheram foram contando detalhes do quanto era difícil a convivência do casal. Concluí que Belchior faleceu tão cedo, para um homem que cuidava da alimentação e tinha tantos planos pela frente, como traduzir a Divina Comédia, de Dante, porque como um passarinho livre não poderia viver em uma gaiola e sem cantar. Lembro sempre quando me dizia que seu momento mais feliz era no palco, quando o público acompanhava suas canções. Sempre, ao acabar um show, era só sorrisos e felicidade.

Nunca imaginei Bel fazendo outra coisa na vida a não ser compor, cantar e pintar. Tinha um espírito de artista, que não gostava de lidar com as mesquinharias do cotidiano. Precisava de alguém que o ajudasse a lidar com os problemas que todos enfrentamos em algum momento. Mas parece que desistiu de sonhar e viver.

Com um vasto material fotográfico que talvez se perdesse com o tempo, recebi sugestão do amigo e advogado da família de Bel Estevão Zizzi, com quem passei a ter contato após sua morte, para que fizesse um álbum com essas imagens e recordações. Com esse incentivo passei a considerar em fazer esse livro, pois, segundo Zizzi me disse, todos estavam ansiosos em ter imagens de Bel. Reconsiderei então minha escolha, para jamais esquecer os momentos que passamos e que, como amiga de tantos anos, ficarão registrados como pedido de perdão pela minha insensibilidade em nosso último jantar. Acho reconfortante saber que as pessoas que o amavam, e seus milhares de fãs, poderão ter em suas mãos o sorriso e o brilho do olhar com imensa ternura que iluminava Belchior. Que suas imagens possam eternizar sua presença, assim como suas palavras, signos de inconformismo, e suas melodias únicas dentro da música brasileira.

Dulce guarda um vasto acervo de fotos do Belchior. (Acervo pessoal de Dulce Helfer)
Em Porto Alegre, 2004. (Acervo pessoal de Dulce Helfer)
Nos anos 1980. (Acervo pessoal de Dulce Helfer)

Dulce Helfer. Trabalhou 27 anos no jornal Zero Hora, em Porto Alegre e na Secretaria de Cultura do RS até 1990, onde participou com os escritores Tabajara Ruas e Carlos Urbim, do jornal cultural ” O Continente”. Fez dezenas de exposições individuais e coletivas e recebeu 24 prêmios, entre eles três internacionais da Sociedad Interamericana de Prensa, dois Prêmios Press, como melhor fotógrafa do RS, Prêmio Nacional de Direitos Humanos, Prêmio de Fotografia do Banco Itaú e Prêmio de Cultura Joaquim Felizardo.

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