Operação Piglia

Ricardo Piglia e o jazz (e o tango, mas isso fica pra depois)

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Ricardo Piglia e o jazz (e o tango, mas isso fica pra depois)

1. Será um texto improvisado, como convém ao tema. Uma espécie de improviso baseado em fatos reais. Uma história boa demais pra ser contada tão sucintamente, mas vamos lá.

2. Trecho do terceiro volume dos Diários de Ricardo (Emilio) Piglia (Renzi): “Quero fazer com alguns amigos um documentário sobre o jazz em Buenos Aires. O Gato [Barbieri] na origem do free jazz; em meados dos 60 ele gravou Symphony for Improvisers, pura improvisação, quase sem standards. Steve Lacy ficou perdido em Buenos Aires, sem dinheiro, em 1965 ou 1966, e tocou no Jamaica, onde também tocavam Salgán e De Lío. Lembro que fui lá com o Néstor Sánchez, que naquele tempo queria levar a improvisação à prosa: Siberia blues. Curiosamente, na literatura o jazz sempre esteve ligado ao estilo oral (Kerouac, Boris Vian, Cortázar etc.).”

3. Piglia chegou a tratar desse documentário com três amigos: Edgardo Dieleke, ex-aluno seu em Princeton e editor, Osvaldo Tcherkaski, escritor e jornalista, e Luis Nacht, músico de jazz, vizinho do escritor no bairro de Palermo, em Buenos Aires. O documentário acabou não sendo realizado, mas o roteiro avançou bastante e, no mínimo, deu origem a um belo texto de Dieleke.

4. Para Piglia, diz Dieleke, o interesse principal do documentário era o de explorar os cruzamentos entre jazz, improvisação e literatura. Era, também, “uma maneira oblíqua de viajar aos anos sessenta e cruzar essa viagem com a Buenos Aires de 2010-2012, com Piglia já de volta à cidade”, onde escutava diariamente Luis Nacht a tocar seu saxofone. A partir disso, o documentário iria explorar “os cruzamentos entre suas disciplinas, e com eles as lembranças de músicos míticos do jazz e da música argentina, como Mono Villegas, Gato Barbieri, Astor Piazzolla, Tata Cedrón e Gerardo Gandini.”

5. Piglia já havia colaborado com Luis Nacht e o artista plástico Eduardo Stupía em La incertidumbre, uma colagem de sons, imagens e palavras apresentada em 2015. Bem antes disso, com o pianista Gerardo Gandini, colaborou na transformação de seu romance La ciudad ausente em ópera, estreada em Buenos Aires em 1995. 


 Edgardo Dieleke. “¿Y vos con quién tocaste?: notas sobre un film inconcluso sobre jazz, literatura e improvisación”. Cuadernos LIRICO [En línea], Hors-série, 2019. Publicado el 09-5-2019. URL: http://journals.openedition.org/lirico/8233; DOI : https://doi.org/10.4000/lirico.8233.

6. O saxofonista Steve Lacy foi parar em Buenos Aires em 1966, justo quando acontece o golpe do general Onganía. A ideia era fazer alguns concertos com seu quarteto e voltar para a Europa, mas os músicos acabaram sendo impedidos de sair do país por longos meses. Em 6 de outubro, o quarteto faz um concerto no Instituto di Tella, gravado e lançado em disco no ano seguinte, com o título de The Forest and the Zoo. É um registro tão importante para o free jazz da época quanto Symphony for Improvisers, o disco citado por Piglia em seus Diários. Foi este quarteto que Piglia viu tocar no clube Jamaica, ao lado de seu amigo Néstor Sánchez, que chegou a hospedar Lacy por alguns meses. Se é que tudo isso não foi apenas um recuerdo inventado.

7. Continua (?).

Para se ter uma ideia visual do projeto multimídia La incertidumbre

Para ouvir inteiro o disco La incertidumbre, de Luis Nacht

Aqui uma gravação ao vivo da ópera La ciudad ausente, de Gerardo Gandini e Ricardo Piglia, no Teatro Argentino de La Plata, pela orquestra estável do teatro, em 15 de setembro de 2011, com regência de Erik Oña

PS: Agradeço ao Sergio Molina pela indicação do texto do Edgardo Dieleke.


Sérgio Karam é tradutor e doutorando em Literatura na UFRGS