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Ricardo Piglia no Brasil

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Ricardo Piglia no Brasil

São treze os livros de Ricardo Piglia traduzidos e publicados no Brasil até o momento. A editora Iluminuras, comandada pelo argentino Samuel León, foi a pioneira na divulgação da obra de Piglia por aqui, tendo lançado seis livros entre 1987 e 1997, começando por Respiração artificial, seu romance mais conhecido. Depois vieram os livros de contos Nome falso (1988) e Prisão perpétua (1989), o romance A cidade ausente (1993) e o livro de contos A invasão (1997), o primeiro do escritor, publicado originalmente em 1967. Antes deste, porém, a Iluminuras lançou um livro que só existe em edição brasileira, O laboratório do escritor (1994), que reúne o conto “O fim da viagem” a sete artigos/ensaios/entrevistas, quatro deles publicados no volume Crítica y ficción, de 1986, além das famosíssimas “Teses sobre o conto”, que iriam integrar o livro Formas breves a partir de 2000.

Em 1998, com o romance Dinheiro queimado, a Companhia das Letras passou a publicar a obra de Piglia no Brasil, tendo lançado ainda os livros de ensaios Formas breves (2004) e O último leitor (2006) e os dois últimos romances do autor, Alvo noturno (2011) e O caminho de Ida (2014), além da reedição em formato de bolso de Respiração artificial, em 2010. Por fim, a novíssima Editora Todavia lançou os dois primeiros volumes dos Diários de Piglia (ou de Emilio Renzi?), Anos de Formação (2017) e Os anos felizes (2019). Como a tradução é um ponto central das reflexões de Piglia sobre a literatura, fica aqui o registro da excelência das traduções de seus treze livros no Brasil, a cargo de seis tradutores: Heloisa Jahn, Rubia Prates Goldoni, Sergio Molina, Josely Vianna Baptista, Rosa Freire d’Aguiar e José Marcos Mariani de Macedo (lista detalhada abaixo).

Ficcionista, crítico literário, ensaísta, professor de literatura, diretor de coleções, memorialista, Ricardo Piglia fez de tudo um muito no campo da literatura. Se alguns contos de Jorge Luis Borges podem ser lidos como ensaios, os contos e romances de Piglia parecem ter sido deliberadamente pensados para confundir os gêneros literários: quanto de ensaio (e de História) há em Respiração artificial? Até que ponto os ensaios de Formas breves podem ser confundidos com peças de ficção? E os três volumes de seus diários, a cuja revisão e edição ele dedicou seus últimos anos de vida, o quanto contêm de matéria inventada?

São perguntas um pouco inúteis, quem sabe irrespondíveis, mas talvez possam dar a medida da riqueza da contribuição de Piglia à literatura argentina contemporânea. No campo específico da crítica literária, foi companheiro de geração de duas brilhantes ensaístas, Josefina Ludmer (falecida em dezembro de 2016) e Beatriz Sarlo (pimpona e polêmica como sempre), ambas com vários livros publicados no Brasil. Tomados em conjunto, pode-se dizer que os três analisaram o melhor da produção literária de seu país e da América Latina e foram responsáveis, por exemplo, pela valorização da obra de um escritor como Roberto Arlt, central para a compreensão do mundo argentino. No campo da ficção, os companheiros de geração de Ricardo Piglia são simplesmente alguns dos melhores escritores que a Argentina deu ao mundo depois de Borges e Cortázar (duas referências inescapáveis): Juan José Saer, Rodolfo Fogwill, Hebe Uhart, Alberto Laiseca, Osvaldo Lamborghini e Abelardo Castillo (falecidos, todos), além de Luis Gusmán e Liliana Heker, todos nascidos entre meados dos anos 30 e o início dos 40.

“Notas sobre literatura em um Diário”: o título de um dos textos incluídos em Formas Breves bem poderia servir de título geral para a obra de Piglia. De certa forma, como ele mesmo admitiu, toda sua obra nasceu das anotações que fazia, desde 1957, em seus diários, publicados em três volumes pela Editorial Anagrama entre 2015 e 2017. Está tudo lá, todas as obsessões do homem: Sarmiento e o nascimento do romance argentino com esse livro “anômalo e inclassificável” que é o Facundo; Macedonio Fernández, “o único grande escritor político que a literatura argentina produziu desde Sarmiento”; Roberto Arlt e sua ficção paranóica, que aborda “o crime, a loucura, o desfalque, a sexualidade, a revolução”; o polaco Witold Gombrowicz e o seu Ferdydurke, “um romance polonês traduzido para um espanhol futuro, num café de Buenos Aires, por um bando de conspiradores liderados por um conde apócrifo”; e Borges, claro, o imenso Borges, “o melhor escritor argentino do século XIX”, tal como (Ricardo) Emilio (Piglia) Renzi o descreve em Respiração artificial.

Neste momento, há pelo menos seis livros de Piglia ainda sem tradução brasileira: o volume de ensaios Crítica y ficción, Un día en la vida  (terceiro volume dos Diários, com previsão de publicação em 2020 pela Todavia) e o livro de contos Los casos del comisario Croce, os três publicados pela editora Anagrama, de Barcelona; e os três volumes de ensaios publicados pela editora argentina Eterna Cadencia, La forma inicial – conversaciones en Princeton (2015), Las tres vanguardias – Saer, Puig, Walsh (2016) e Teoría de la prosa (2019). Felizmente, a conversa de Ricardo Piglia com o público leitor brasileiro está longe de acabar.

Livro a livro:

Respiração artificial. São Paulo: Iluminuras, 1987. Trad. Heloisa Jahn. Tradução do romance Respiración artificial (Buenos Aires: Pomaire, 1980). Reeditado em 2010 pela Companhia das Letras em edição de bolso e em 2012 como o volume 12 da coleção Folha de Literatura Ibero-Americana.

Nome falso. São Paulo: Iluminuras, 1988. Trad. Heloisa Jahn. Tradução de Nombre falso (México: Siglo XXI, 1975), novela e contos.

Prisão perpétua. São Paulo: Iluminuras, 1989. Trad. Rubia Prates Goldoni. Tradução de Prisión perpétua (Buenos Aires: Sudamericana, 1988), edição que inclui versões revistas de vários contos de Nombre falso.

A cidade ausente. São Paulo: Iluminuras, 1993. Trad. Sergio Molina. Tradução do romance La ciudad ausente (Buenos Aires: Sudamericana, 1992).

O laboratório do escritor. São Paulo: Iluminuras, 1994. Trad. Josely Vianna Baptista. Tradução de ensaios e de entrevistas publicados entre 1976 e 1990. Inclui o conto “O fim da viagem”, então inédito em português. Livro existente apenas em edição brasileira.

A invasão. São Paulo: Iluminuras, 1997. Trad. Rubia Prates Goldoni e Sergio Molina. Tradução do livro de contos La invasión (Buenos Aires: Jorge Álvarez, 1967). Texto de orelha de Haroldo Conti.

Dinheiro queimado. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Trad. Rosa Freire d’Aguiar. Tradução do romance Plata quemada (Buenos Aires: Planeta, 1997).

Formas breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. Trad. José Marcos Mariani de Macedo. Tradução do livro de ensaios Formas breves (Buenos Aires: Temas Grupo Editorial, 1999).

O último leitor. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. Trad. Heloisa Jahn. Tradução do livro de ensaios El último lector (Barcelona/Buenos Aires: Anagrama, 2005).

Alvo noturno. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Trad. Heloisa Jahn. Tradução do romance Blanco Nocturno (Barcelona/Buenos Aires: Anagrama, 2010).

O caminho de Ida. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. Trad. Sergio Molina. Tradução do romance El camino de Ida (Barcelona/Buenos Aires: Anagrama, 2013).

Anos de formação. Os diários de Emilio Renzi. São Paulo: Todavia, 2017. Trad. Sergio Molina. Tradução de Los diarios de Emilio Renzi. Años de formación (Barcelona/Buenos Aires: Anagrama, 2015).

Os anos felizes. Os diários de Emilio Renzi. São Paulo: Todavia, 2019. Trad. Sergio Molina. Tradução de Los diarios de Emilio Renzi. Los años felices (Barcelona/Buenos Aires: Anagrama, 2016).


Sérgio Karam é tradutor e doutorando em Literatura na UFRGS

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