Operação Sérgio da Costa Franco

Sérgio da Costa Franco pelas ruas de Porto Alegre

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Sérgio da Costa Franco pelas ruas de Porto Alegre

Se a biografia de Porto Alegre é bem mais turbulenta do que o topônimo e o marasmo circundante permitem supor, sua bibliografia – em oposição à dita turbulência, mas em fina sintonia com o marasmo – “nunca foi copiosa”. É o que assegura um dos mais admiráveis historiadores, cronistas e, claro, amantes dessa “mui leal e valerosa” cidade lacustre. E foi justo por sentir-se incomodado com o raquitismo (não das fontes mas) das obras sobre a capital que Sérgio da Costa Franco mergulhou na poeira dos arquivos, na secura das atas, na aridez e no fastio das correspondências “ativas e passivas da velha Câmara”. E emergiu de lá com alguns dos melhores e mais instigantes livros que vieram à luz para deixar a bibliografia de Porto Alegre mais conectada com a história da cidade que leva porto no nome, mas há tempos deixou de se enxergar no espelho d´água que a banha e a explica.

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Se a biografia de Porto Alegre é bem mais turbulenta do que o topônimo e o marasmo circundante permitem supor, sua bibliografia – em oposição à dita turbulência, mas em fina sintonia com o marasmo – “nunca foi copiosa”. É o que assegura um dos mais admiráveis historiadores, cronistas e, claro, amantes dessa “mui leal e valerosa” cidade lacustre. E foi justo por sentir-se incomodado com o raquitismo (não das fontes mas) das obras sobre a capital que Sérgio da Costa Franco mergulhou na poeira dos arquivos, na secura das atas, na aridez e no fastio das correspondências “ativas e passivas da velha Câmara”. E emergiu de lá com alguns dos melhores e mais instigantes livros que vieram à luz para deixar a bibliografia de Porto Alegre mais conectada com a história da cidade que leva porto no nome, mas há tempos deixou de se enxergar no espelho d´água que a banha e a explica.

Sérgio da Costa Franco olhou o mapa da cidade como quem examinasse a anatomia de um corpo. E os mapas que, mais do que apenas olhar, ele perscrutou, foram os mais antigos e os mais reveladores: aqueles que ao mesmo tempo desnudam e vestem esse corpo, concedendo-lhe ossatura, nervos e músculos, bem como veias e vias circulatórias por meio das quais a história corre num fluxo espesso e orgânico feito sangue. Ao encarar aquele tesouro em forma de mapas, o mestre sentiu uma dor infinita das ruas pelas quais nunca passara – nem passará – e cujo passado ninguém mais recontava. E foi assim que decidiu desvendar cada esquina esquisita, cada nuança das paredes roídas pelo tempo. 

E como se essas ruas, essas ruas fossem suas, Sérgio da Costa Franco mandou ladrilhá-las com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes, lapidadas na forma de dados e fatos, cores e nomes. Revestiu assim as velhas vias com carícias e minúcias, com as glórias e misérias de uma história viva e pulsante – a história sobre a qual transeuntes e motorizados passam, cegos em seu desconhecimento, enquanto a memória das casas, dos logradouros, dos becos e dos bairros decai e se esvai. E os espigões sobem apagando as estrelas.

O mais curioso é que tudo isso foi obra não de um nativo, mas de um “amigo e filho adotivo” de Porto Alegre. Sim, pois Sérgio da Costa Franco viu a luz em Jaguarão, em junho de 1928. Mudou-se para a capital ainda piá e se formou no velho Anchieta, da rua Duque de Caxias, quase ao lado da casa-museu onde Júlio de Castilhos morou, morreu e projetou sua sombra, por anos a fio, até porque, como sussurrava o adágio-maldição proferido por seu próprio mestre, Auguste Comte, “os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos”. 

De todo modo, é revelador que do velho Anchieta restem hoje só escombros, transmutados num estacionamento esdrúxulo, entre os alicerces e pilastras carcomidas do vetusto tabernáculo jesuíta, sem que ninguém saiba, fale ou explique bem o que foi que se passou ali há mais de meio século. Bem ao contrário, aliás, do que se passou na casa ao lado, até porque o próprio Costa Franco viria a se tornar um dos biógrafos de Castilhos, lançando seu arejado e renovador estudo Júlio de Castilhos e seu tempo (seu segundo livro, publicado em 1967, pela lendária Globo da Rua da Praia), no qual ajudou a desvendar o papel do homem que já houve quem tenha chamado de “o pai de nossos ditadores”.

 Antes disso, Sérgio produzira breve biografia de José Bonifácio, seu livro de estreia, e a seguir iria cavoucar nas origens de Soledade e de Jaguarão. Mas imersão nos mapas e segredos da capital, até então, nenhuma. Ainda assim, seu caso de amor com a vida e as ruas da cidade já havia começado antes, em 1950, quando elaborou para o IBGE, do qual era chefe de comunicação, uma síntese histórica de Porto Alegre “louvando-se tão-somente em fontes de segunda mão”. E foi justo durante essa compilação que Costa Franco concluiu que, além de requentada, a bibliografia da cidade, “excluídas as crônicas de curiosidades e reminiscências feitas sem preocupação de rigor histórico”, assomava-se, quando muito, a “duas dúzias de títulos”. Era, portanto, urgente e inadiável retraçar o curso das vielas e dos vieses da cidade vesga de tanto desconhecimento, tão seca de novas fontes, enquanto as antigas jaziam murmurando no pó dos arquivos mortos, sem que seus gritos e sussurros fossem ouvidos.

O turning point se deu quando a Associação Comercial de Porto Alegre, em bendita hora, convidou Costa Franco para realizar a pesquisa que redundaria em Porto Alegre e seu comércio, que ele lançou em 1983 e sem o qual eu dificilmente seria capaz de compor, em parceira com Paula Taitelbaum, o livro Porto Alegre na vitrine: memória do comércio varejista da capital gaúcha, que, a convite do Sindilojas, escrevi em 2012 seguindo a trilha desbastada pelo mestre. 

Conforme o próprio Sérgio relata, para resgatar a história daquela Porto Alegre tão dessemelhante, com tão poucos negócios mas tantos negociantes, ele submergiu nos arquivos, o Histórico Municipal e o Público Estadual, onde leu e anotou ao longo de meses a fio “todas as atas da velha Câmara, desde 1773”. Depois dessa apneia em meio aos ácaros, ele subiu aos píncaros e voltou às ruas cheio de novos ares. Tratou então de espargir informação sobre as veias abertas da cidade, feito o xamã que cospe a poção que ingeriu em suas beberagens, quando vai buscar no passado as visões do futuro da tribo.

E o sumo que Costa Franco sorveu e borrifou foi como uma poção mágica que fez com que, além das três dimensões do espaço, os cidadãos-leitores de Porto Alegre pudessem penetrar também na quarta e mais espantosa delas: a dimensão temporal, pela qual vagamos como cegos num labirinto de desmemória e desconstrução, feito de espelhos côncavos que refletem tudo o que não deveria ser, mas que agora tão tristemente é.  

E foi então que ele apresentou aos leitores, em 1988, seu dicionário da Babel porto-alegrense: Porto Alegre: Guia Histórico, uma sumarização em ordem alfabética na qual compilou a história de quase todas as ruas da cidade, acompanhada de breves biografias dos personagens que as batizam. Depois de ler, devorar, quase decorar esse livro, nunca mais me perdi na cidade onde nasci, pois mesmo nas vezes em que me desviei, sem querer ou propositalmente, do caminho, me mantive no rumo, graças à bússola de Sérgio, que aponta os quatro cardeais sem jamais perder o prumo.

Mas Costa Franco faria ainda mais, pois em Porto Alegre Sitiada, lançado no ano 2000, ele provou e reprovou com fino humor e agridoce ironia que a capital que hoje tanto celebra e festeja os Farrapos e sua brancaleônica tentativa de sedição, na vida real, no calor da hora, no fragor dos fatos concretos sempre os tratou como invasores, usurpadores e estupradores – o que, aliás, no frigir dos ovos, eles de fato eram. E se a cidade ostenta o epíteto de “mui leal e valerosa” é justo porque, conectada ao império dos fatos, sempre refutou o delírio sectário dos farroupilhas. E assim, Sérgio, que conhece e estuda as estátuas da capital (só não sei se, como eu, fala com algumas delas) indaga de chofre: onde estão as homenagens aos que defenderam a cidade, já que aqueles que a atacaram são saudados em praça pública?  Não se ouve – até porque nunca houve – resposta.

Para tornar sua incursão temporal pela cidade ainda mais bem temperada, Sérgio compilou o olhar dos viajantes estrangeiros que estiveram em Porto Alegre, agrupando os relatos de visitantes que, se por um lado estavam tão distantes do lugar de onde vieram, por outro revelaram-se tão próximos da realidade local que foram capazes de produzir textos incisivos e com visão tantas vezes cáustica sobre as vilezas, as vilanias, as miudezas e a pequenez tanto do corpo quanto do espírito da capital que frequentemente descreveram com mais felicidade do que seus moradores – e várias vezes para a infelicidade desses.

Mas se não omite as mazelas nem esquece dos descasos que marcam os quase 250 anos de Porto Alegre, Sérgio da Costa Franco jamais deixa de compor, ao som do minuano, uma espécie de minueto, leve, gracioso e solene, pois parece saber que uma ópera seria um tanto demasiado para a cidade que sempre prezou as próprias limitações e desprezou seus autênticos heróis. A não ser, é claro, que fosse a ópera bufa da especulação, do descuido, do desconhecimento e da incompetência que soa feito buzina diariamente em nossos ouvidos.

Mas a partitura e os arranjos que o maestro Sérgio da Costa Franco urdiu no silêncio dos arquivos, empunhando a pena feito batuta, e agora ressoa na sonoridade luxuriante dos seus livros, constituem um legado que estará sempre à disposição daqueles que querem escutar a voz das ruas. Voz que algum dia haverá de soar como heroica sinfonia.


Eduardo Bueno é autor da Coleção Brasilis, além das obras “Grêmio – Nada Pode Ser Maior”, “Avenida Rio Branco”, “Passado a Limpo”, “Mamonas Assassinas – Blá, Blá, Blá: a Biografia Autorizada”, além dos livros: “Caixa – uma História Brasileira”, “À Sua Saúde – a Vigilância Sanitária na História do Brasil”. É também colunista do jornal Zero Hora.

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