Palíndromo

SóNós #2

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SóNós #2

No início, entre os primatas, eram os guinchos. Depois, ao descerem das árvores, é que veio o verbo.  Só mais tarde, quando perceberam que a linguagem utilitária não funcionava tão bem pro lazer, criaram a diversão: os jogos de palavras. Assim, entre outras brincadeiras surgiram: o trocadilho (a troca de palavras com forma ou som semelhantes com intenção humorística), o anagrama (recriação de palavra, frase ou texto sempre com as mesmas letras), a aliteração (frase ou texto com predominância de uma mesma letra), o trava-língua (frase que provoque dificuldade na pronúncia), o pangram (frase com inclusão de todo o alfabeto no menor tamanho possível), o oxímoro (expressão com a junção de dois termos contraditórios, tipo inteligência militar) o lipograma (textos onde falta uma letra, geralmente vogal) e, eba!, o palíndromo.

É um gozo universal: esses e outros jogos foram incorporados aos idiomas falados e escritos no mundo – não há povo que não tenha seu repertório lúdico com palavras. Mas só o palíndromo se destacou no tempo, na história, na cultura humana. Talvez porque, mais que qualquer outro jogo, seja a mais sintética forma literária conhecida (fora o hai-cai). Talvez porque o ir e vir com o mesmo sentido numa frase ou texto seja o desafio mais tentador que existe. Talvez porque poucas pessoas tenham essa aptidão singular ou sintam maior prazer nisso. Vá saber. O que a gente sabe é que, milhares de anos após a descida pro chão, os primatas ainda são atraídos e se divertem com palíndromos. 

Sim, sabe-se que os gregos já fizeram palíndromos. A invenção da brincadeira é atribuída ao poeta Sótades de Maroneia, que viveu no século III a.C., mas que ficou mais conhecido por seus versos satíricos e mesmo obscenos, o que acabou provocando seu assassinato, a mando do ofendido rei Ptolomeu II. De Sótades chegaram à nossa época alguns “versos sotádicos”, até hoje um dos muitos sinônimos de poesia erótica, mas infelizmente nada de palíndromos. Aliás, nenhum palíndromo produzido na Grécia antiga é conhecido hoje. O que coloca em dúvida a afirmação do escritor argentino Juan Filloy (1894-2000), de que o palíndromo seria “o passatempo dos gregos cultos”. Parece que, na época, como frases invertíveis eram mais usadas para tratar problemas pulmonares:

SE DÁ TOSSE, LOGO LÊS SÓTADES.
(Palíndromo do Giba)

Curiosamente, a palavra palíndromo não foi criada pelos gregos, embora suas raízes sejam gregas: pálin (de novo) e dromos (percurso). Mas o termo foi registrado pela primeira vez em inglês, e só no século XVII, sendo o teatrólogo Ben Jonson, contemporâneo de Shakespeare, um dos primeiros a utilizá-lo. Pois os gregos chamavam a frase palindrômica de anakyklein (anacíclica, que refaz ou inverte o ciclo) ou ainda karkíniké (relativa ao caranguejo). Em latim, manteve-se a metáfora do caranguejo, que anda de um lado pro outro como nossos olhos ao ler um palíndromo, e tais palavras e frases foram chamadas de cancrinic (caranguejeiras? cancerosas?). Pois é do mundo latino que vem o palíndromo mais antigo que conhecemos:

SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS

Disposta assim linearmente, a frase é um palíndromo, pois é igual se lida da esquerda pra direita ou vice-versa. Mas essas palavras, na mesma ordem, podem também formar um quadrado 5×5:


Quadrado mágico que não é de Pompeia, mas de uma vila medieval em Oppède, no sul da França.



Nesse caso, trata-se de um ‘quadrado palindrômico’ ou ‘palíndromo bidimensional’, que pode ser lido de 4 formas diferentes, formando sempre a mesma sequência. E essa admirável simetria fez com que o “quadrado sator” fosse considerado mágico: pintado em paredes, gravado em vasos, incrustado em amuletos, etc, ele seria capaz de espantar maus espíritos, curar doenças, quem sabe até impedir que seu portador escorregasse na borda da terra plana.


O significado latino do texto tem sido discutido há séculos. Como AREPO não tem sentido em latim, supôs-se que seria um nome próprio, embora também não se conheça nenhum registro de qualquer pessoa que tivesse esse nome no mundo latino. Para muitos, o texto seria traduzido como “o semeador Arepo guia as rodas com cuidado”, ou “o lavrador mantém cuidadosamente a carroça no sulcos”. Em algum momento o cristianismo adotou a fórmula, interpretando SATOR como Deus (o grande semeador) e inscrevendo o texto em igrejas, com a forçada tradução “Deus conduz as regras da criação para os trabalhos do homem”.

Mas o “quadrado sator” é provavelmente anterior ao cristianismo, já que, entre 1920 e 1940, duas inscrições dele foram encontradas em Pompeia, que foi destruída pelo Vesúvio em 79 d.C., quando havia raríssimos cristãos na região. Mas é também por esses achados de Pompeia que SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS é considerado o mais antigo palíndromo do mundo.

Para os palidrominstas de pouca fé como nós, AREPO não é uma palavra latina nem um nome próprio, mas muito provavelmente apenas um espelho de OPERA, colocado ali para garantir a simetria do conjunto. Quem já perdeu algum tempo tentando formular frases palindrômicas conhece a tentação de sacrificar o sentido em favor da simetria, ou de fazer com que a própria simetria invente novos sentidos.

Por exemplo. Digamos que MITER ISARE TABAT ERASI RETIM signifique “urinar parece tentar ruir direito” no dialeto da Eucrásia no século III a.C. Ou que LUNOS UDATO NAZAN OTADU SONUL seja traduzido como “as luas quando nuas estão sós” a partir de uma das muitas línguas pré-diluvianas faladas em Ratanabá. Reivindicamos para essas formulações os mesmos sentidos ocultos e poderes mágicos do quadrado SATOR. Não agora, mas quem sabe daqui a alguns séculos.

Por enquanto, ficamos com uma releitura, em português, do palíndromo mais antigo do mundo:

SACA SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS? USA TORA, RÉ, POTE, NETO, PERA, ROTA. SACAS! (Palíndromo do Fraga)

A seguir, duas seleções temáticas dos palindromistas de plantão na Parêntese:

6 Palíndromos Cinéfilos do Giba

(Homenagem a Nicholas Ray (1911-1979), a quem é atribuida a definição: “Cinema é a melodia do olhar.”)


A di Trevi deserta, a três, é divertida.
(Com Federico, Marcello e Anita, na cena clássica de “La dolce vita”.)

À troca duma necessidade bêbeda, disse: “Cena muda? Corta!”
(O diálogo como critério de montagem.)

Ator, tu é neutro, tá?
(Diretor buscando o “efeito Kuleshov”)

A ter garbo, sem o nó de foto. “Be alone? Never.” É veneno lá, e boto fé. Do nome, sobra Greta.
(A partir de Greta Garbo (1905-1990) e seu retiro precoce, aos 45 anos)

Nave de ET nem lar é, geralmente é de van.
(A partir dos muitos extraterrestres do cinema e suas máquinas voadoras.)


5 Palíndromos Cinéfilos do Fraga

(Para o sempre genial ator Paulo Cesar Pereio)

SEM A JOCOSA CASACA (FÃ AMA), 007 ACATA A FÁ FAMA, ATACA 700, AMA A FACA, SACA SOCO – JAMES!
(Inspirado no ator Sean Connery, o inesquecível agente com licença para matar)

AR: ATREVIDA, LARGA, MALEÁVEL, EIS TOOTSIE. LEVA ELA, MAGRA, LADI. VER TARA.
(Inspirado no papel do ator Dustin Hoffman no memorável filme de 1982)

É SÓ DNA, O DOM. SEM ELE, REVIVO: ÁGIL É ZELIG AO VIVER ELE MESMO DOANDO-SE.
(Inspirado no camaleônico personagem de Woody Allen, no seu antológico filme de 1983)

ATA-ME! ME BATA! RODA E ME DESATA PATAS! E DÊ-ME A DOR! ATA BEM E MATA!

(Inspirado no estilo cinematográfico de Pedro Almodóvar, cineasta espanhol)


(Não perca na edição #3 da dessa série palindrômica, no próximo sábado, novo assunto: os diferentes tipos de palíndromos. E mais uma seleção de palíndromos temáticos da dupla Fraga e Giba.)

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