Pensata

Quando a gente põe arte na rua, é isto o que acontece

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Quando a gente põe arte na rua, é isto o que acontece

Eles chegam como quem acabou de descer em Marte. Cautelosos. Reservados. Quando se dão conta de que tudo aquilo é seu, novinho em folha, aproximam-se devagar, olhando com os olhos. Mas já o dedo – esse incurável São Tomé – ganha vida própria e também quer. Então, eles espicham o corpo para frente e olham, de novo, mais perto. Agora com o dedo. Delicadamente. Num braile-baile. O corpo todo dança pelo avesso, na melodia do seu encantamento. Depois, as duas mãos enganchadas na cintura. Pernas abertas feito árvores. Braços comodamente cruzados. Adonados. Urbanos ETs se conectando com sua home. E descobrem que aquilo é de verdade, tem tinta, tela, intenção. E foi colocado ali para eles, tá na cara que é presente, mimo, oferenda. Ao ar livre, na rua, sem bilhete? Dão-se conta da sua cidadania: – Tá na minha cidade, é meu. E relaxam, se apropriam, fruem, se jogam inteiros em cada quadro, escolhem seus favoritos, se vestem de Quintana, Martha, Verissimo, e o milagre se consubstancia. O humano vira divino. E a arte, pão da alma. 

Daí para a selfie é um upa. Daí para o self, pá: – Meus escritores, meus artistas, minha Feira do Livro, minha Porto Alegre.

Quando você coloca arte de verdade na rua, no olho do povo, é isso o que acontece. Epifanias. Nós, um grupo de 18 artistas visuais gaúchos, antevimos na exposição “Autorias” uma oportunidade de amenizar a dor da pandemia e do desgoverno, elevando a autoestima da nossa gente, comemorando a vida nesses tempos de 600.000 mortes, lembrando às pessoas da sua história, do caminho já percorrido, historiado por seus melhores narradores. – Não te esqueças de quem tu és! –  sussurra amorosamente cada um dos 26 escritores retratados nas telas de um metro por um metro.

O projeto “Autorias”, homenagem à literatura gaúcha, surgiu impávido e gentil em conversa com Marcos Monteiro, criador e gestor da galeria Escadaria, na Borges: – Tem vaga em outubro! – ofereceu. Outubro, Feira do Livro, escritores! – atinei. Apaixonada pelo projeto, saí a convidar colegas. O desafio: pintar telas para ficar ao ar livre por um mês, debaixo de chuva e sol, sujeitas a depredação, tudo pago do nosso próprio bolso, de presente para a cidade. 

17 bravos parceiros se apaixonaram pela ideia: Bea Balen, Erico Santos, Berna Conte, Manu Quadros, Gilmar Fraga, Gustavo Burkhart, Gustavo Schossler, Gustavot Diaz, Ise Feijó, Helena Stainer, Liana d’Abreu, Liana Timm, Mariza Carpes, Nara Fogaça, Pena Cabreira, Thiago Quadros e Bira Fernandes. 

E assim foi: de 1º de outubro a 3 de novembro de 2021, ocupamos a galeria Escadaria com retratos personalíssimos de 26 escritores gaúchos. Seus nomes, escolhas de sofia. Salvos pelos conselhos dos professores Sergius Gonzaga e Luís Augusto Fischer, que mais que nomes, sugeriram critérios. O primeiro foi atender à justa reivindicação de igualdade entre homens e mulheres: 13 escritoras, 13 escritores. Os outros: homenagear os falecidos, os mais velhos, os mais premiados, os jovens promissores e os comprometidos com o coletivo.

Assim surgiu a lista de ouro dos 26 escolhidos cujos nomes sorteamos entre nós, os ditos 18-da-Borges. E foi um sucesso, um deslumbre, um nunca visto.  As pessoas atenderam ao convite da arte democratizada com genuíno encantamento. A Feira do Livro nos acolheu generosamente como prévia da sua programação. Em média, segundo estimativa de Marcos Monteiro, 600 visitantes por dia desceram a Escadaria Verão do Viaduto Otávio Rocha, em Porto Alegre, e se boquiabertaram. E contaram para mais 600. Que contaram para mais 600. Aproximadamente 20 mil pessoas no mês se embebedaram de arte ao ar livre. A maioria – bem provável! –  nunca havia pisado em um museu. Saímos no jornal, nos blogs, na Rede Globo. 

Houve vandalismo. Fascistas inconformados feriram a tela do Verissimo três vezes, com faca e tinta. Mas a arte resistiu. Em vez de armas, mais arte: dezenas de novos retratos do Verissimo foram criados por artistas e simpatizantes, no evento Desenhando Verissimo, festa da democracia. 

O que ficou? Uma contundente certeza: precisamos de mais exposições como Autorias. Em cada bairro de Porto Alegre. Para revitalizar o espaço público, para resgatar concretamente a esperança de dias melhores e – talvez o mais importante – para curar os doloridos corações. 


Graça Craidy (1951, Ijuí/RS, Brasil) é artista visual, mestre em comunicação, arteativista pelo fim da violência contra a mulher e parceira em qualquer projeto que democratize a arte e o conhecimento

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