Pequenas ficções

Sonhos de gris

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Sonhos de gris Mal marcava cinco e meia e eu já estava de pé. Meu quarto é o último do corredor de um pequeno apartamento na cidade de Canoas. Começa o meu ritual: tomar banho, escovar os dentes, me vestir, comer algo. Depois de um tempo, tudo já sai no automático. Enquanto cumpro meu ritual, escuto, vindo dos outros apartamentos, os sons do começar do dia, cada qual com a sua rotina. As manhãs são sempre quietas, um silêncio respeitoso, como se todos estivessem se preparando para ir a um velório. Depois de terminar meus ritos, desço quatro lances de escada, caminho até o portão do prédio e sigo pela longa Barbosa Lima Sobrinho. A essa altura o relógio marcava seis horas. Enquanto espero o ônibus, vejo o nascer do sol.  Chego no distrito industrial de Cachoeirinha às sete e vinte. Há um trecho que tenho que seguir a pé. Ao chegar na empresa, mais um ritual: me despir e colocar o uniforme da firma. Calça branca, com um bolso na parte de trás, camisa branca com detalhes em azul nas mangas e na gola, feita de algodão. Pinicava e era muito quente para uma camisa. Ao sair do vestiário, avisto o primeiro companheiro de labuta do dia. Seu Gilberto. Gilberto, 45 anos não aparentados, estatura média, cerca de um metro e sessenta, pele negra. Sempre gentil e educado, me dava o primeiro bom dia da manhã. Era um homem paciente e pacífico. Teve 3 filhos; o mais velho havia morrido afogado anos antes e ele nunca falava sobre o incidente. Em seguida, vinha a menina, 14 anos, sua ajudante, como referia-se. O mais novo era o neguinho, tinha 4 anos e era o xodó de Gilberto, dele falava todos os dias.  Como de costume, antes do trabalho, nos reuníamos em um canto da empresa, canto sagrado, que ninguém ousava tomar. Naquela manhã eu estava contando ao Seu Gilberto como tinha sido a aula no curso pré-vestibular e ele das suas lições no curso de manutenção de celulares: “Falta só mais um mês, depois, vou embora daqui”, dizia feliz por estar com um pé fora da empresa. Enquanto conversávamos, o resto da turma chegava. Ernzo, o Enzo, como o chamávamos por causa da pronúncia complicada do seu nome, juntava-se a nós.  Ele era um haitiano de pele marrom clara, o que gerava nas pessoas a dúvida se ele realmente veio do Haiti. Tinha 35 anos, com cara de 20, um pouco mais alto que Gilberto, com 1m75cm. Igualmente gentil, sempre chegava de mansinho. Culto como era, falava um português tão bom que chega a ser irritante. Ele tem um filho e outro está a caminho. Nas conversas matutinas, sempre dizia que os EUA era para onde iria. Todos os dias contava um pouco do plano que fez para tentar entrar no país dos seus sonhos.  Contava-nos por parcela, pois sempre tinha algo a polir e adicionar. Naquele dia, por coincidência ou não, veio com a ideia completa: “Vou preparar as coisas primeiro no Brasil […]

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Mal marcava cinco e meia e eu já estava de pé. Meu quarto é o último do corredor de um pequeno apartamento na cidade de Canoas. Começa o meu ritual: tomar banho, escovar os dentes, me vestir, comer algo. Depois de um tempo, tudo já sai no automático. Enquanto cumpro meu ritual, escuto, vindo dos outros apartamentos, os sons do começar do dia, cada qual com a sua rotina. As manhãs são sempre quietas, um silêncio respeitoso, como se todos estivessem se preparando para ir a um velório. Depois de terminar meus ritos, desço quatro lances de escada, caminho até o portão do prédio e sigo pela longa Barbosa Lima Sobrinho. A essa altura o relógio marcava seis horas. Enquanto espero o ônibus, vejo o nascer do sol.  Chego no distrito industrial de Cachoeirinha às sete e vinte. Há um trecho que tenho que seguir a pé. Ao chegar na empresa, mais um ritual: me despir e colocar o uniforme da firma. Calça branca, com um bolso na parte de trás, camisa branca com detalhes em azul nas mangas e na gola, feita de algodão. Pinicava e era muito quente para uma camisa. Ao sair do vestiário, avisto o primeiro companheiro de labuta do dia. Seu Gilberto. Gilberto, 45 anos não aparentados, estatura média, cerca de um metro e sessenta, pele negra. Sempre gentil e educado, me dava o primeiro bom dia da manhã. Era um homem paciente e pacífico. Teve 3 filhos; o mais velho havia morrido afogado anos antes e ele nunca falava sobre o incidente. Em seguida, vinha a menina, 14 anos, sua ajudante, como referia-se. O mais novo era o neguinho, tinha 4 anos e era o xodó de Gilberto, dele falava todos os dias.  Como de costume, antes do trabalho, nos reuníamos em um canto da empresa, canto sagrado, que ninguém ousava tomar. Naquela manhã eu estava contando ao Seu Gilberto como tinha sido a aula no curso pré-vestibular e ele das suas lições no curso de manutenção de celulares: “Falta só mais um mês, depois, vou embora daqui”, dizia feliz por estar com um pé fora da empresa. Enquanto conversávamos, o resto da turma chegava. Ernzo, o Enzo, como o chamávamos por causa da pronúncia complicada do seu nome, juntava-se a nós.  Ele era um haitiano de pele marrom clara, o que gerava nas pessoas a dúvida se ele realmente veio do Haiti. Tinha 35 anos, com cara de 20, um pouco mais alto que Gilberto, com 1m75cm. Igualmente gentil, sempre chegava de mansinho. Culto como era, falava um português tão bom que chega a ser irritante. Ele tem um filho e outro está a caminho. Nas conversas matutinas, sempre dizia que os EUA era para onde iria. Todos os dias contava um pouco do plano que fez para tentar entrar no país dos seus sonhos.  Contava-nos por parcela, pois sempre tinha algo a polir e adicionar. Naquele dia, por coincidência ou não, veio com a ideia completa: “Vou preparar as coisas primeiro no Brasil […]

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