Pequenas ficções

tempo de João

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tempo de João João Simões Lopes Neto (Divulgação)
o tempo e seus ângulos, o tempo e suas dobras, o tempo e suas peripécias, o tempo não existe, Rosa, o tempo não existe, o tempo e seus buracos negros, quem tem buraco negro não é o universo, ele diz, o tempo sim, é o verdadeiro detentor de buracos negros – engolidores de vidas, nossas reles vidas, continua… me delicio com suas filosofices. ele é um homem de outro tempo, não deste em que vivemos – e eu sou uma mulher do futuro. Ele pisa suave em minha sala com os dois pés – às vezes encharcados de lama – e o tempo se modifica: o calendário se torna outro, outros tempos vivemos. as histórias tomam conta do lugar-tempo – o chá esfria na mesinha, ele desfia dramas para mim e fala dos editores – dificuldades com as editoras, publicações, direitos, tostões – pede meu conselho, quer ouvir minha voz e sentir meu olhar. O cavanhaque e o bigode, pontas levemente arqueadas para cima, ah, João, a sociedade pelotense não está preparada para ti, não te merece, talvez. Os longínquos pampas sulinos que tanta inspiração te trazem, que disparam dentro de ti fogaréus, revoadas, tremeliques, são inóspitos e estranhos às próprias gentes daqui. Canções e histórias do sul. Lendas tuas. nasceste em meio a uma guerra, em peixes, frágil, em gaúchos pampas. Predestinado a deixar a prosa ficar rica e suja de materiais gauchescos rútilo úmido de carbono nada ácido és uma sombra, úlcera à base de leite de vasta alma amplidão do mundo Pelotas uma aldeia      é acabrunhante ouvir-te discorrer sobre os escritos, parados, volumosos nas gavetas da escrivaninha, datilografados, os poucos publicados. Dizes, conformado, a notoriedade é mais comum após a morte; assim o é o ser humano: mais fácil dar o ouvido às desgraças do que compartilhar vitórias e talentos. Falavas dos amigos do Rio. E dos fracassos e adversidades.  tua mente criadora, João, disciplinada e generosa, pensas no futuro que não viverás – em teu poço criador mergulhas em busca de teu tempo interno – tua obsessão – o tempo, tão líquido, mais do que a água, mais do que a chuva, mais do que os humores – falas no mistério do momento exato em que uma linha imaginária cruzaria o tempo subjetivo de cada um e o tempo social, cronológico – nesta fatia de tempo, neste pingo de universo,  este é o momento mágico, entre estes dois caminhos, a verticalidade e a horizontalidade se confrontariam – a pessoa teria a lucidez perfeita de seu lugar ao sol. nem meu decote te ouriça tanto. Tua correção é muita. Somente uma vez sucumbimos à arte do amor: foi memorável. Porém as normas e preceitos arraigados em ambos nos proíbem de repeti-lo. Repressão impera. Ficou como um segredo entre nós, selado com tua frase predileta de despedida, após nossos saraus solitários: “Boa noite, Rosa, dona Velha me aguarda, mas o Bemol volta.”   Como um filho tranquiliza um pai, dizendo que tudo vai dar certo, tudo vai ficar bem. […]

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