Arthur de Faria, Porto Alegre: uma biografia musical

A Era do Rádio 2 – Capítulo XXXVIII

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A Era do Rádio 2 – Capítulo XXXVIII

Quem entra arrebentando, dia 24 de julho do ano do centenário da Revolução que lhe dá nome, é a Rádio Farroupilha. 

Estamos em 1935 e, provando mais uma vez a importância dada na Era Vargas ao rádio, o dono da nova emissora é ninguém menos que o governador e ex-interventor (nomeado pela Revolução de 30) José Antônio Flores da Cunha. 

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Quem entra arrebentando, dia 24 de julho do ano do centenário da Revolução que lhe dá nome, é a Rádio Farroupilha. 

Estamos em 1935 e, provando mais uma vez a importância dada na Era Vargas ao rádio, o dono da nova emissora é ninguém menos que o governador e ex-interventor (nomeado pela Revolução de 30) José Antônio Flores da Cunha. 

A Farroupilha chega poderosa e querendo tudo do bom e do melhor. Vai ser a quarta emissora de Porto Alegre – mas, você lembra, só duas seguiam funcionando: a Gaúcha (desde 1927) e a Difusora (de 1934). Pois a estreante entra em cena honrando seu slogan “A Mais Potente”. São 25 kW, capacidade de transmissão inédita no Brasil, que só seria superada, dois anos depois, pelos 26 kW da Tupi de São Paulo. (Em 1943 a Farroupilha se tornaria uma das Emissoras Associadas, ao ser comprada pelo mesmo dono da Tupi, o magnata paraibano das comunicações Assis Chateaubriand.) 

A inauguração da rádio foi espetacular e espetaculosa. Direto da capital federal vieram as presenças ilustríssimas de Carmen Miranda e Mário Reis, no auge das suas popularidades. E as contratações locais também não deixaram por menos: roubados da Gaúcha vieram o maestro italiano Salvador Campanella – figura central da Farroupilha nas décadas seguintes – e o Jazz de Paulo Coelho, com estrelas como a lady-crooner Horacina Corrêa, o crooner Alcides Gonçalves e o saxofonista Marino dos Santos.

Falando em Marino, Paulo e Alcides, nessa época eles faziam parte de uma turma inseparável, que se completava com o violonista Boquinha e o cantor Sadi Nolasco. Quando saíam de seus empregos nos cafés ou nas rádios invariavelmente entravam juntos noite a dentro em serenatas que podiam terminar às oito da manhã.

O cartaz completamente art déco – como aliás, toda a exposição

Mas não foi só a inauguração da Farroupilha, em julho, que marcou o ano do centenário da Guerra dos Farrapos. Houve também a hollywoodiana Exposição do Centenário da Revolução Farroupilha, que urbanizou o semi-pântano chamado Parque da Redenção, mudando seu nome para Parque Farroupilha (nome que, diga-se, até hoje não emplacou totalmente). 

A exposição em si foi do vinteeeee de seteeembro ao 20 de dezembro de 1935. Um milhão de pessoas passou por ali. Só olhando as fotos para ter noção da grandeza da coisa: mais de três mil expositores vindos de oito estados, do Uruguai e de várias cidades do Rio Grande do Sul, numa ação conjunta entre o governador Flores da Cunha e o prefeito Alberto Bins. Tinha até cassino, sem falar nos grandiosos pavilhões (dos quais ainda há lembranças em vários recantos do Parque), iluminados por SEIS VEZES mais lâmpadas do que o total existente então em todo o resto da cidade.

O grandioso cassino
A Av. João Pessoa à esquerda, o resto quem conhece deduz fácil

Nesse mesmo 1935, dois escritores dividiam os comentários dos círculos literários de Porto Alegre. Erico Verissimo, que lançara seu segundo romance, Caminhos Cruzados, e ganhara com ele um prêmio nacional de Romance do Ano, dado pela Fundação Graça Aranha. E seu então amigo Dyonélio Machado, que causara muito impacto com o revolucionário Os Ratos. O livro de Dyonélio seria um clássico; o de Érico – cujo sucesso posterior como escritor seria imensamente maior que o do amigo – ficaria como um detalhe em sua obra.

Erico em 1937, um lorde
Dyonelio em 1935, comunista, preso político

É um momento em que a cidade explode de música, com opções que variam do samba feito nos botecos da Ilhota e do Areal da Baronesa até a Rádio Gaúcha tocando discos com Stravinsky regendo a sua Petrouchka. Novos tempos, onde o rádio, a crescente indústria do disco e a novidade do microfone (que se populariza nestes anos 1930) vão causando uma revolução estética na música popular.

Coluna Rádio, da Folha da Tarde, 12 de junho de 1936:

Em microphone não adeanta botar voz. Já se foi o tempo em que o cantor p’ra ser bom necessitava rebentar suas cordas vocaes e os tympanos da gente ao mesmo tempo. A questão hoje está toda ella na melodia. Quanto melhor a voz se justapor ao microphone, melhor será o cantor. Pode-se dizer, por ahi, que Fulano tem boa voz. Mas não adeanta. O principal é saber si elle fez intimidade com a rodellinha metallica, si sua voz passa por dentro della como si fosse um desdobramento de sua própria garganta. Tomemos como exemplo o sr. Edgar Lafourcade (…), tem uma voz de respeito, optima para o palco. O microphone, porém, faz questão de blandícia, serenidade, smorzamento, sussuro, beijos de melodia na bôcca do apparelho. Do contrário elle estrilla.

Cinemas trocavam a programação a cada três dias. E estamos chegando ao ápice da Pequena Broadway: o trecho da rua da Praia entre a General Câmara e a Payssandu (futura Caldas Junior). Em 1935, se um décimo dos porto-alegrenses decidisse ao mesmo tempo ir assistir um filme, ninguém ficaria de pé: numa população de 250 mil habitantes, as 22 salas de cinema ofereciam 26.218 lugares.

Olha o furdunço na frente do Cinema Central, em 1932.

O Clube de Cinema de Porto Alegre só seria fundado – por uma turma liderada pelo jornalista P. F. Gastal – em 1948. Mas tudo começara ali, naquele momento: uma grande agitação em torno da sétima arte, que só crescera desde que em 1913 fora inaugurado o primeiro cinema propriamente dito da cidade, o Guarany – mais um belíssimo prédio assinado por Theo Wiederspahn (e que hoje é o Banco Safra). 

Na sequência, vão chegando o Cinema Central (1921), o “cinema das elites”, onde homem só entrava de terno e gravata e Radamés Gnattali era uma das figuras da então considerada melhor orquestra de cinema da cidade; o Imperial (1931); o Cine Rex (1936) – que antes fora o Petit Casino e a Sala Beethoven – e o Roxy (1938). Além disso, havia os prédios que já existiam para outras finalidades e viraram cinemas: Variedades (1908), o Recreio Ideal (1908, destruído para a construção do prédio do Imperial), o SmartSalão (1909), o Odeon (1910) e o Íris (1913). Todos ali: rua da Praia, no entorno da praça da Alfândega.

Já perguntei antes: não era um gênio esse Theo Wiedersphahn?

(Sala Beethoven: tinha como sócios o maestro Tasso Corrêa, diretor do Conservatório de Música, e o empresário Arthur Pizzoli. Inaugurada em 1931, queria combinar loja de instrumentos e partituras com sala de concertos destinada à música de câmara. Teve concertos de, entre outros, Radamés Gnattali e fechou as portas, poucos meses depois, com o último concerto do ídolo maior de Radamés, Ernesto Nazareth. Os porto-alegrenses não estavam lá muito interessados em música de câmara. A Beethoven virou loja apenas, e mudou várias vezes de endereço. Segue em atividade, numa galeria da rua Senhor dos Passos.)

Mas foi a inauguração do Imperial Cine Theatro, com suas 1.632 poltronas, seu prédio de 11 andares (o primeiro arranha-céu da cidade) e a exclusividade de projeção de Romance, primeiro filme falado de Greta Garbo, que mais ficou na história. Nilo Ruschel descreve o evento no seu livro Rua da Praia:

A massa humana jogava-se com violência contra os gradis de separação e os que vieram atrás levavam tudo por diante. Ferros e bronzes retorcidos, vitrines espatifadas, espelhos partidos. E lá dentro, finalmente, a estraçalhada satisfação dos sobreviventes.

Um concerto do Club Haydn – de música erudita – no Cine Imperial.

O Imperial vai ser por décadas o principal cinema da cidade. Na condição de Cine Theatro, vai receber, por exemplo, a excursão dos Ases do Samba (Mário Reis, Francisco Alves, Noel Rosa, Nonô e Pery Cunha) que, em 1932, promoveu o lendário encontro entre Lupicínio e Noel. Além de ter sido o último dos grandes cinemas do centro a fechar as portas (em 2005), foi o pioneiro no Cinemascope (em 1954), no projetor de 70 mm e no som quadrifônico. Desde 2009 o prédio se prepara para ser a sede da Caixa Cultural em Porto Alegre.

O primeiro arranha-céu da cidade

Se em 1935 juntou um povo em volta da Farroupilha pra ver Carmen Miranda e Mário Reis inaugurando a emissora, em maio de 1937 nada menos que 30 mil pessoas vão ver o jazz de Clóvis Mamede tocando numa festa promovida pela Folha da Tarde – então com um ano de vida – em parceria com a Rádio Difusora.

Chegamos a 1937. Depois de ir adiando as eleições previstas inicialmente pela Revolução de 1930, 1937 Getúlio dá um auto-golpe e institui a ditadura do Estado Novo, ultranacionalista, que incentivará imensamente o rádio como fator de unificação nacional ao mesmo tempo em que proíbe o funcionamento dos partidos políticos. 

A medida, evidentemente, inclui o PPR, Partido Republicano Rio-grandense, onde nasceu, cresceu e criou-se politicamente o agora ditador. Um dos resultados imediatos é o fechamento de A Federação, jornal que desde 1883 era a voz oficial da cidade e do Estado. Fundado por Júlio de Castilhos, sempre combativo, e alinhadíssimo ao governo do partido que Getúlio extinguia.Com isso, quem cresce na parada é o Correio do Povo. Que, coerente com a postura que terá em muitos momentos a partir dali, não disfarçou sua simpatia pelo novo governo autoritário. Ainda que no editorial de seu número de estreia, em 1º de outubro de 1895, seu fundador Caldas Junior afirmasse, do alto dos seus 27 anos de idade, que Independente, nobre e forte – procurará sempre sê-lo o Correio do Povo, que não é órgão de nenhuma facção partidária, que não se escraviza a cogitações de ordem subalterna.

Caldas começara sua carreira como redator de A Reforma, principal inimigo d’A Federação, ligado ao Partido Liberal de Silveira Martins, a principal oposição aos positivistas que mandavam na área. Tinha a ideia de fazer um jornal novo, efetivamente desligado do eterno maniqueísmo gaúcho, na época representado por positivistas e anti-positivistas. Só que morre em 1913, de overdose de um remédio experimental para “limpar o sangue” (!). E aí quem vai marcar o século XX como O Homem do Correio é seu filho, Breno Caldas, que assume a empresa em 1933 tornando-se o Poderoso Chefão da Caldas Junior – que, no seu auge, reunia Rádio Guaíba, TV Guaíba, Folha da Manhã, Folha da Tarde e Correio do Povo. Só sairia do posto em 1984, quando seu império veio abaixo.


Mas ainda estamos em 1937, ano em que morre uma lenda da fotografia da cidade: Virgílio Calegari, que desde 1893 foi o principal responsável pelos registros clássicos que hoje se tem da Porto Alegre da BelleÉpoque. Seu Atelier Calegari forneceu material para as principais revistas da cidade – Máscara, Kodak e a gloriosa RevistadoGlobo. Sem falar nas medalhas: ouro e prata na Exposição de Saint Louis (EUA), em 1904; Paris, 1906; Londres, 1907; Rio de Janeiro, 1908; Roma, 1911… E ainda tinha na parede o título de Cavalieredel Imperio Italiano ganho do próprio rei Vitor Emanuel III. Que tal?

Uma pequeníssima palinha da genialidade do cavaliere Calegari:

A Praça da Matriz em 1890
Os últimos acendedores de postes de gás da cidade, em 1901
Olha o que é essa foto reunindo o pessoal da associação dos ciclistas, em 1900
E essa aqui, cujo título é “retrato de moças”?
Virgílio, o próprio

Na prefeitura, nomeado pelo Estado Novo e seguindo até 1943, José Loureiro da Silva remodela Porto Alegre na primeira de suas duas administrações. Loureiro ganhou o apelido de “O Poeta da Cidade”: abriu a Farrapos – ligando o Centro à Zona Norte -, plantou jardins, ergueu monumentos, redesenhou ruas e avenidas. Tocou o redirecionamento e a canalização do Arroio Dilúvio, o Hospital de Pronto-Socorro, o Centro de Saúde Modelo e a Prefeitura Nova. Estreou as sinaleiras (que é como os gaúchos chamam o semáforo) e quebrou o monopólio da luz e dos bondes, que era todo da Cia Brasileira de Força Elétrica, subsidiária da americana Electric Bond & Share.

Isso, pelo lado bom.

Pelo mau, aproveitou-se da regime ditatorial e usou as leis de exceção do momento para desapropriar sem dó mais de 900 casas de gente pobre. Quando um coitado era visitado por “João Macaco” – o funcionário público João Pereira Duarte – já sabia que em instantes chegariam as pás e picaretas pondo tudo abaixo, mesmo quando os moradores se recusavam a sair.

Resultado: cinco quilômetros de Farrapos custaram míseros 12 mil contos, incluindo obras, iluminação e desapropriações. Para se ter uma ideia de quão bem se indenizavam os antigos moradores, o Viaduto da Borges, inaugurado apenas dois anos antes, tinha custado 35 mil contos para os intendentes Otávio Rocha e Alberto Bins. 

Não era jeito, era força.

Avenida Borges, 1938


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

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