Arthur de Faria, Porto Alegre: uma biografia musical

A Era do Rádio 5 – Capítulo XLI

Change Size Text
A Era do Rádio 5 – Capítulo XLI

Lembra de como terminamos o texto anterior?

Alcides Gonçalves inicia a temporada argentina com a orquestra de Paulo Coelho. Só que a tournée lhe exige tanto que ele termina se submetendo a uma operação nas cordas vocais. 

Anos mais tarde, como pianista, Alcides seria o titular do instrumento em casas importantes da noite da cidade. É quando se dá conta do óbvio time à disposição e resolve montar…

Os Irmãos Gonçalves!

Alcides, Antoninho, Oscar, Juvenal e Walter (depois, Osmar) apresentam-se por todo o estado, Argentina e Uruguai por quase dois anos.

Sente a chinfra dos bacanas.

Aí estamos em 1939, quando a orquestra argentina Santa Paula Serenaders, que o havia conhecido em São Paulo, o chama para ser o pianista de uma excursão por toda a América do Sul. Finda a turnê, estaciona no Rio de Janeiro, novamente como crooner. Desta feita, da reputada orquestra de Simon Bountman, nada menos que uma das atrações do Copacabana Palace. Chama Walter Gonçalves para a bateria e é aí que rola aquela estória toda de Eddie Duchin, bailarina e Estados Unidos. 

Enquanto isso, segue tentando uma chance na Rádio Nacional.

Quando finalmente a oportunidade aparece é em forma de viagem para Buenos Aires. A mesma dupla que pouco antes havia tido excelente repercussão com o Jazz de Paulo Coelho – Horacina Corrêa e ele – desta vez serão crooner e lady crooner da orquestra montada pelo conterrâneo Radamés Gnattali, estrela da Rádio Nacional, para transmitir o programa Hora do Brasil num convênio entre a mais potente emissora brasileira e a Rádio Municipal de Buenos Aires. Sucesso total e convites para apresentações até no palco mais nobre da Argentina, o do Teatro Colón – com direito a 5 estrelas na crítica da revista Synthonia e acompanhamento do próprio Radamés, então o maestro mais badalado do Brasil.

Volta a Porto Alegre, volta a Paulo Coelho. Só que em pouco tempo Paulo morre, no auge da sua popularidade. 

Sem seu porto seguro na cidade, Alcides mete o pé na estrada outra vez: primeiro contratado pela Rádio Educadora de São Paulo e, dali, para o Rio, onde finalmente realiza seu sonho: três participações fixas semanais, em horário nobre, na Rádio Nacional, direto da sua sede – a maior vitrine existente no país. Grava alguns discos e estamos em 1942. Aos 34 anos, Alcides está no auge.

Se não chegou ao primeiro time dos cantores cariocas, conseguiu uma razoável projeção, num estilo que misturava os jeitos de cantar da mais improvável dupla dos anos 1920 e 30: a malandragem de Mário Reis com o vozeirão de Francisco Alves. Chega a compor em parceria com alguns ban-ban-bans como Ataulfo Alves mas acaba voltando para Porto Alegre pela enésima vez.

Assina então um de seus últimos contratos radiofônicos, desta vez com a Rádio Difusora – a partir de 1945, não teria mais compromisso com nenhuma emissora. Ganha a vida como cantor e/ou pianista em casas noturnas e retoma os Irmãos Gonçalves, agora com um plano de invasão dos Estados Unidos – que, como se viu, seria abortado às vésperas do embarque da turma.

É o momento de olhar em volta e concluir que retomar a parceria com Lupicínio pode ser uma boa ideia. Estamos em 1948 quando emplacam Quem Há de Dizer na voz de Francisco Alves, o artista mais popular do país. Gravadas no ano seguinte e lançadas em 1950, vêm em seguida Maria Rosa e Cadeira Vazia.

Francisco Alves, já coroa. Ele morreria no auge, como o maior cantor do País, dois anos depois dessas gravações

Essa última foi a semente da discórdia.

Quando saiu o disco, estava lá no selo: “Cadeira Vazia” (Lupicínio Rodrigues). Nada de Alcides Gonçalves. A partir dali, Alcides carregaria uma crescente mágoa por não lhe darem o devido valor nas parcerias com Lupi. O fato da sua carreira entrar em lenta decadência na mesma proporção em que a do parceiro ascendia só piorou o clima. Lupicínio chegou a protocolar um ofício à editora da música pedindo mais cuidado nos créditos de autoria e sugerindo que Alcides recebesse metade dos direitos de autor da versão de Chico Alves.

Tentando melhorar o clima, chega até a lhe dar de presente mais uma parceria fictícia como forma de reparar o engano: Castigo. Voltam a se relacionar, mas a partir daí seriam, mais por vontade de Alcides, quase que inimigos íntimos.

Nunca mais compuseram juntos.

Pior para ambos. Como nas também poucas e magníficas parcerias de Noel e Vadico ou Tom Jobim e Chico Buarque, a obra construída com as letras de Lupicínio e o refinamento melódico e harmônico de Alcides – apenas oito canções – estão com destaque entre o melhor da obra de ambos. Pérolas como Cadeira Vazia ou Quem Há de Dizer. Muito do melhor entre as 75 composições de Alcides. 

Na década de 1950 casa-se, tem um filho e vai embora de novo, agora para o Paraná. Lá, dirige uma rádio, canta em boates, planta café e beneficia soja. Tem a sua Minhas Valsas Serão Sempre Iguais – parceria com Pedro Caetano – gravada por Orlando Silva em 1961, retorna a Porto Alegre… 

….mas a fama nunca mais lhe abre os braços. 

Chega a vencer o 1º Festival Sul-Brasileiro da Canção, em 1967, com o samba-canção Minhas Serestas, mas só vai lançar seu primeiro LP em 1977 – coincidentemente ou não, logo depois de ser admitido na maçonaria. Por ironia do destino, começa a ser redescoberto graças a repopularização de Lupicínio.

 O ex-galã, ainda peleando

O disco, bastante elogiado em seu lançamento e hoje esquecido, chama-se Cadeira Vazia e saiu pela série Destaque da gravadora Continental – ao lado de LPs de bambas da velha guarda como o velho parceiro Radamés, Elizeth Cardoso, João de Barro e Vicente Celestino. No acompanhamento, estão alguns dos melhores músicos de samba e choro da Porto Alegre dos anos 1970/80: Plauto Cruz na flauta, Lúcio do Cavaquinho, Jessé Silva no violão e Valtinho do Pandeiro (mais um organista não identificado). Das 12 músicas, cinco são parcerias com Lupicínio: Pergunta aos Meus Tamancos, Cadeira Vazia, Quem Há de Dizer, Castigo e Maria Rosa.

Ainda há um segundo e derradeiro LP, em 1981, Pra Ela, disco independente bancado por Flávio Pinto Soares, parceiro em quase todas as músicas. Produção aparentemente simplória – se você for julgar pela capa… – mas sonoramente luxuosa, com direito até a orquestra de cordas e sopros arranjada e regida por Alfred Hülsberg.

Os dois LPs

Segue cantando quase anonimamente na noite, em bailes e eventos saudosistas, retirando-se lentamente de cena, dedicando-se (de verdade) aos empregos públicos que o mantinham desde o final dos anos 60 e cada vez mais moderado na boemia. Nem os impecáveis ternos de linho branco que fizeram sua fama na noite da cidade usava mais. Em compensação, seu gênio, de instável, foi se tornando cada vez mais irritadiço, rancoroso e sujeito a surpreendentes surtos de violência – como quando quase pôs abaixo, a pedradas, a casa de um amigo, simplesmente por ter caído numa vala do pátio e sujado a roupa (pior: fez isso mais de uma vez).

Em versão coroa galante

Morreu em nove de janeiro de 1987, depois de nove anos de luta contra um câncer no intestino.

Em 2011, o jornalista Marcello Campos lançou a fundamental biografia Minha Seresta – Vida e Obra de Alcides Gonçalves, pela série Porto Alegre Revisitada, da Editora da Cidade.

Biografia de Alcides Gonçalves escrita pela jornalista Marcello Campos


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

Escolhe um dos combos

Pagamento exclusivo via cartão de crédito