Porto Alegre: uma biografia musical

Capítulo CVIII: Kleiton & Kledir – 4

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Capítulo CVIII: Kleiton & Kledir – 4

Em julho de 1981 a dupla estreia no Rio seu primeiro show, batizado de Maria Fumaça. A banda é quase que a última formação dos Almôndegas: Kleiton, Kledir, Zé Flávio e João Baptista, com um baterista e um tecladista. Como convidado, Vitor, que – aos 18 anos – havia recém lançado seu disco de estreia, Estrela, Estrela.

Dali saem numa turnê que seria de divulgação do LP. Passam por Porto Alegre em agosto, com imenso sucesso. 

Ué. Como assim “seria”? 

É que a censura tretou com a erva “beladona” misturada ao chimarrão na letra de Deu pra Ti, e também com o termo “bunda-mole” em Trova, o que atrasou longos meses a chegada do álbum nas lojas. Não tinha como remarcar a tour. Fizeram o lançamento do disco sem o disco.

Ainda esse ano vão a Cuba, pra tocar no Festival de Varadero. Como acabamos de lembrar, ainda vivíamos numa ditadura civil-militar. Ir a Cuba não era qualquer coisa. Não havia nem ao menos relações diplomáticas entre Brasil e Cuba. Mas sente o time brasileiro do festival: além deles, João do Vale, MPB-4, Olívia Byington, Carlinhos Vergueiro, Nara Leão, João Bosco e o chefe da patota: Chico Buarque. Todos tocando no Teatro Karl Marx, junto com uma escalação internacional também de respeito, com Jimmy Cliff, os cubanos do Irakere e Mercedes Sosa à frente.

Entram 1982 sendo eleitos pelo respeitado júri da revista Playboy como “Melhor Conjunto Vocal” de 1981. Em abril são uma das atrações do gigantesco show Canta Brasil II, no estádio do Beira-Rio, para 60 mil pessoas. Eram os únicos gaúchos de um time que ia de Chico, Nara, Gil, Paulinho da Viola e MPB-4 até Baby e Pepeu, Simone, Gonzaguinha, João Bosco, Ivan Lins, Djavan… Fazem temporadas em São Paulo e Porto Alegre.

Uma grande alegria: seis das oito canções do disco de estreia da portuguesa Eugénia Mello & Castro são de Kleiton. Começa pela que ele havia feito para ela, anos antes: Vira Virou. Mais Beco do Tiso (só dele), Diferença Horária, Terra de Mel, Em Milímetros e É Assim (basicamente Navega Coração com outra letra), todas parcerias dos dois. No disco, arranjado por Wagner Tiso, os irmãos também tocam em quase todas as faixas.

Maravilha Curativa, parceria de Kledir e Miltinho do MPB-4, chega à final do festival MPB 82, interpretada por Nara Leão (que na época era empresariada pela irmã produtora dos Ramil, Branca, e namorava Kleiton).

 Tô Que Tô (aquela do: vem cá, minha compoteira…) é uma das músicas mais tocadas em todo o Brasil. A canção, na voz arrebatadoramente sensual de Simone, é tema de abertura da principal novela da Globo, Sol de Verão. Os efeitos serão sentidos imediatamente.

Fizeram nada menos que 137 shows em 1982.

* * *

No ano seguinte, vem o terceiro Kleiton & Kledir (Polygram, 1983). Mais uma direção artística de Mazzola, produzido pela dupla e Wellington Luiz, com um orçamento excelente. Capa de Naum Alves de Souza, gravação de metais e mixagem em Los Angeles, com o engenheiro de som Humberto Gatica – o cara que tinha estreado em Elis & Tom e acabara de assinar nada menos que Thriller.

O detalhe é que a gravadora Ariola, com aquela liberdade toda para seus artistas, não tinha dado certo, e fora comprada pela multinacional holandesa Polygram. Que, como parte da negociação, manteria por um curto tempo o nome Ariola e o seu cast de artistas brasileiros.

Seja por essa mudança ou não, o fato é que terceiro LP tem um conceito diferente dos dois anteriores, e busca o padrão radiofônico da MPB daquele momento em que a MPB não estava em um bom momento, começando a ser ameaçada pela ascensão do rock brasileiro dos anos 1980. Hoje, soa bem mais datado que os anteriores (o que não é necessariamente nem bom, nem ruim).

Mantém basicamente a mesma banda – Zé Flávio arrasando nas guitarras e violões de 12 cordas e João Baptista num grande momento como baixista. Arranjos vocais de Kleiton e um grupo de backings que inclui Vitor e Pery Souza. Kleiton e Luiz Avelar assinam vários arranjos. O violino elétrico do primeiro está mais presente do que nunca. Os dois irmãos tocam os violões do disco. Mas Lincoln Olivetti é convocado, pra não deixar dúvidas quanto ao resultado buscado. Ele assina Tão Bonito, Tô Que Tô, Viva e Louco de Luz.

Aí você pode argumentar que Lincoln foi um injustiçado, que felizmente vem sendo resgatado como um grande arranjador, o que de fato era. Mas estamos falando de padronização, e aí eu rebato com o fato de que em 1982 Lincoln tinha feito nada menos que 360 arranjos para discos da MPB e afins.

O disco, naturalmente, tem a versão deles para Tô Que Tô (Kleiton/Kledir). A descrição minuciosa de uma trepada épica não fez o mesmo sucesso que com Simone, mas foi muito mais elogiada, por críticos como Zuza Homem de Mello e Okky de Souza.

(…)

Não grita, não dá bandeira
Periga marcar bobeira
Quebrei o pé da cadeira
Cuidado com a cristaleira

Segura, me deu gagueira
Eu juro que é verdadeira
Disfarça e chama a enfermeira
Tá dando uma tremedeira

Mamãe, viva o Zé Pereira!
Cadê meu advogado?

Eu tô que tô!

Mas quem puxa as vendas é a balada romântica Nem Pensar (Kleiton/Kledir), uma das canções mais tocadas de 1983 – junto com Menina Veneno de Ritchie e Let’s Dance, de David Bowie. Entrou na trilha da novela Sabor de Mel, da Bandeirantes.

Logo depois dela, também foi um sucesso nas rádios Viva (Kledir), uma homenagem a Caetano Veloso – cuja melodia era relativamente próxima da caetânica Lua de São Jorge, o que rendeu até reportagem de TV. 

O elemento regional aparece numa única canção: a paródica O Analista de Bagé (Kleiton/Kledir), trova calcada no incorretíssimo personagem de Luís Fernando Veríssimo, que era então sucesso nacional em livros que estavam em todas as listas dos mais vendidos. Empacou na censura, claro, mas desta vez não atrasou o lançamento: o disco saiu lacrado e com um adesivo de advertência.

Além da canção dedicada a Caetano, há também homenagens a Cuba e Tom Jobim – Águas de Dezembro (Kleiton/Kledir) e Tão Bonito (Kledir), que conta a história da ida ao festival de Varadero com um coro de 21 vozes, entre as quais uma boa parte da delegação brasileira que havia ido ao festival.

Peguei la Guagua e fui cantar em Varadero
Pra ser feliz não se precisa de dinheiro

Caí na salsa requebrando maravilha
O Paraíso deve ser como essa ilha

No Tropicana namorei com a corista
Ai, que loucura esse veneno comunista

Voltei pra casa e fiquei meio esquisito
Agora eu vivo enchendo a cara de mojito

Lá é tão bonito, mulher, tão bonito!

Além dessas, três faixas honram os melhores momentos Lados B da dupla.

Louco de Luz (Kleiton/Kledir), dedicada aos aquarianos:

As coisas mais simples guardam os mistérios e eu vou fundo e sério até o fim
Nos detalhes
Nos porões
Em mim
Pelas minhas contas eu sou muito louco
Louco de luz

(…)

O pop-reggae-rock 433, de Bebeto Alves, que tem o próprio fazendo um vertiginoso vocal. 

E a singela Saiçu (Kleiton), com direito ao bandolim de Afonso Machado e solo de sanfona de Egberto Gismonti.

Fechando o LP, uma bela versão de Bridge Over Trouble Water, de Simon & Garfunkel, que virou Corpo e Alma numa letra-surpresa de Kledir para Kleiton.

Quando eu era assim, bem menor, não tive a fim – sei lá – de pensar em nós.
Agora eu sei, e entendo melhor, vidente eu li no céu: 
Vai por mim, somos corpo e alma
Meu irmão, meu par

Quando a solidão se enredar em ti e o coração dançar, conta comigo.
Eu quero estar, viu?, a teu lado, e haja o que houver.
Junto a mim, feito corpo e alma
Meu irmão, meu par

Sei que a vida vai aprontar, e o que vier, azar, a dois é fácil segurar
Se Deus deixar – viu, meu amigo? – vou sempre estar aqui
Junto a ti, feito corpo e alma
Meu irmão, meu par 

Foi o LP que mais vendeu da dupla: 120 mil cópias. 

Finalmente o Disco de Ouro que quase tinha vindo no álbum anterior.

Nesse momento, eles estão indiscutivelmente inseridos no primeiro time da MPB. Ana Maria Bahiana escreve que uma das novas manias do carioca são as gírias gaúchas de Kleiton & Kledir e do Analista de Bagé. Não há quem não os conheça, nem que não os reconheça como representantes da música feita em seu Estado – até então muitíssimo desconhecida para ouvidos nacionais (a grande exceção é Teixeirinha). 

Boa parte da crítica também os ama.

Zuza Homem de Mello, no Estado de São Paulo, conclui assim uma elogiosíssima crítica do show que havia lotado o Anhembi (em 1983):

Num dos anos de produção mais desanimadora da MPB, há, com a música dos gaúchos Kleiton & Kledir, uma verdadeira injeção de adrenalina: seu novo LP deverá proporcionar um disco de ouro e o espetáculo do Anhembi é ovacionado com a plateia de pé, feliz e pedindo bis. Não deixe de ver.

E aí, como aconteceu com Lupicínio Rodrigues e Elis Regina, o público e a crítica gaúchos começa a se dividir. 

De um lado, os que se orgulhavam dos conterrâneos que “chegaram lá”. 

De outro, os que se põem a falar mal, porque eles teriam “se acariocado”.


Arthur de Faria é pianista, compositor e arranjador. Doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, na área de canção popular. Produziu 28 discos, dirigiu 12 espetáculos. Escreveu 52 trilhas para cinema e teatro em Porto Alegre, São Paulo e Buenos Aires. Lidera a Tum Toin Foin Banda de Câmara e teve peças interpretadas por orquestras e solistas de várias cidades brasileiras. Tocou em meia dúzia de Países e 19 estados brasileiros. Lançou 20 álbuns e EPs e três livros sobre a música de Porto Alegre, dois deles você leu primeiro aqui na Parêntese, em capítulos.

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