Porto Alegre: uma biografia musical

Capítulo XLIV

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Capítulo XLIV Caco Velho feliz da vida tocando contrabaixo

Antes de ver esse mundo cair, falemos um pouco sobre alguns artistas gaúchos que tiveram passagens significativas ou nasceram em Porto Alegre, mas estabeleceram-se no centro do País. 

Caco Velho, por exemplo.

Começando sua carreira como pandeirista do Regional do Piratini, na Rádio Gaúcha, Caco, raro negro de classe média na Porto Alegre do começo do século, era filho de médico veterinário que acumulava as funções de tenente e músico amador: Liberato Nunes. 

Caco nasceu Mateus Nunes, dia 12 de março de 1909, em Porto Alegre. E estreou como músico nesse regional, em 1932, aos 23 anos. Ganhara um pandeiro da avó e usara as horas vagas do emprego de auxiliar de mecânico da Gráfica Globo para se aperfeiçoar no instrumento. Cheio de suingue, logo acumularia o posto de crooner do grupo liderado por Piratini. 

Foi, nestes anos porto-alegrenses, membro ativo da confraria boêmia que reunia os jovens Lupicínio Rodrigues, os irmãos Gonçalves – cuja estrela era Alcides –, Johnson e outros tantos. Ainda na Gaúcha, se transformaria num curinga de primeira, se virando como pianista, contrabaixista, percussionista, cantor e baterista. O então chamado Mateus Alves foi uma das principais causas do sucesso da excursão do Regional do Piratini por terras argentinas. E seu momento alto era quando cantava o samba Caco Velho, de Ary Barroso. Daí o apelido. Em 1937, como já vimos, era pandeirista e cantor do jazz do pianista Paulo Coelho, que tocava então no Bar Florida. 

E daí, em 1940, aos 31 anos de idade, vai tentar a vida em São Paulo. Se dá muito bem. Começa na orquestra de um cassino, três anos depois é contratado pela Rádio Tupi PRG 2 e começa a fazer fama graças às vocalizações que lhe rendem os epítetos de O Sambista Infernal e O Homem Com Uma Cuíca na Garganta. Já era uma das maiores estrelas da emissora quando estreou em disco, em 1944, cantando um samba do amigo Lupicínio Rodrigues — Briga de Gato, a que se sucede, no ano seguinte, Que Baixo!, parceria de ambos.

O que se ouve ali é um cantor de um suingue bastante diferente de qualquer outro surgido antes – Cyro Monteiro incluído. Num momento, ele improvisa polirrítmicas imitações de uma cuíca de forma tão musical que nunca parece um número de circo. Logo em seguida, explode em improvisos vocais que serpenteiam nos intervalos da melodia como um ensandecido jazzista. E tudo isso sem perder nunca a perspectiva do samba.

Caco já coroa, e ainda cheio de chinfra

Caco hoje é um nome quase esquecido, a não ser por alguns fanáticos cultores que o guardam como uma seita. E vale procurar.

Emplaca mais um sucesso com o samba Meu Fraco é Mulher. Como tudo que ele gravou, é nada menos que espantoso. Não é à toa que tanto Túlio Piva quanto Wilson Simonal diziam que o cara era o cara. E considerado moderníssimo, a verdadeira vanguarda paulista da virada dos 40 pros 50 – sempre acompanhado dos melhores grupos, como o lendário regional do violonista Rago. Também fez sucesso como vocalista da orquestra do maestro Georges Henri, que tocava na Boate Oásis, ao lado de feras como o saxofonista Bolão e o trombonista e futuro chefe de orquestras paulistas Osmar Milani.

Ao longo da década de 1950, é o primeiro sambista a se apresentar na nascente televisão, tenta o cinema – em filmes como Carnaval Atlântida – e se torna habitué das jam sessions de jazz no clube L´Amiral (tocando, e bem, contrabaixo). Como cantor e compositor faz mais um sucesso: Porto Rico, um samba-rumba. 

Sediado em São Paulo, faz eventuais apresentações no Rio de Janeiro, onde é menos conhecido, mas amigo de gente como Dorival Caymmi e Ângela Maria – os três chegam a dividir um show na boate carioca Casablanca em 1951, onde Caymmi lançava Ângela.

Aí pinta uma oportunidade em Paris, e lá vai ele. Fica dois anos morando na Cidade-Luz. Só que, quando volta, surpreende-se com o fato de que as portas pareciam todas fechadas.

Grava alguma coisa, como um disco A Voz do Sangue, só com músicas de Túlio Piva, pela Copacabana, em 56; a sua Carreteiro (parceria com o velho amigo Piratini) é um dos sucessos do álbum Gaúchos em Hi-Fi, que torna o Conjunto Farroupilha um fenômeno nacional de popularidade em 57. E chega a gravar um LP de Bossa Nova – Caco Velho, o Comendador da Bossa Nova, pela Continental, em 1961. 

Mas não consegue retomar a carreira como imaginava, e passa a se dedicar a administrar casas noturnas paulistas. Desiludido, tenta novamente o exterior. Mora uns tempos em Los Angeles, outros em Lisboa, e nunca lhe faltou trabalho em nenhuma das cidades, até que, em 1970, volta definitivamente para São Paulo. Bate novamente em antigas portas, em busca de shows ou oportunidade de gravar, mas o cenário havia mudado definitivamente. Mais uma vez, ninguém se interessou.

Morre em 14 de setembro de 1971, novamente dono de casa noturna. Como compositor, deixa pelo menos um clássico: Mãe Preta, parceria com nosso conhecido Piratini, Antônio Amábile, gravada até pela portuguesa Amália Rodrigues (que mudou a letra para Barco Negro, e, graças a essa canção, interpretada no filme Os Amantes do Tejo, se tornou um nome internacional).


Originalmente a banda da casa do luxuosíssimo Hotel-Cassino Quitandinha (em Petrópolis, no Rio), o Quitandinha Serenadersfoi um dos melhores conjuntos vocais de uma época onde os piores conjuntos vocais já eram muito bons. Os Serenaders competiam taco a taco com Os Cariocas, Os Titulares do RitmoQuatro Ases e Um CoringaAnjos do Inferno e mesmo o já pleistocênico Bando da Lua. Podiam não ser os mais populares, mas arrasavam na música, no glamour, no charme e na elegância. Com todos esses atributos somados aos olhos e ouvidos das moçoilas, chegaram ao posto de campeões de cartas da Revista das Moças, o que não era pouca balaca.

Alberto, galã

Pois o grupo – criado sob encomenda pelo gaúcho Carlos Machado, diretor artístico do Quitandinha – tinha nada menos que três gaúchos: Luiz Telles, Francisco ‘Chico’ Pacheco e o futuro galã de cinema Alberto Manuel Miranda Ruschel (Estrela, 21/02/1918 – Rio, 18/01/96), futuro astro de O Cangaceiro e outros 32 filmes. O quarto elemento, por sua vez, era um carioca de peso: o violonista e compositor Luiz Bonfá, futuro craque da Bossa Nova.

Nem com a proibição do jogo e o fechamento dos cassinos, em 1946, eles desistiram. Desceram de Petrópolis para o Rio e seguiram cantando e vestindo de tudo, mas sempre com ênfase nas canções gaúchas – folclóricas ou não – interpretadas de bombacha e lenço! Eram uma espécie de Conjunto Farroupilha, mas com um repertório ainda mais aberto que o do grupo de Tasso Bangel. Em 1947, por exemplo, causaram grande frisson nos cinemas porto-alegrenses ao aparecerem num filme da Atlântida (Este Mundo é um Pandeiro) lançando para o sucesso um xote de Lupicínio Rodrigues. Sim! E que xote: Felicidade, o futuro clássico.

Quando, em 1953, Bonfá decidiu partir para carreira solo, o grupo acabou. Mas, antes, Telles ainda tentou encaixar um desconhecido e talentoso protegido seu, chamado João Gilberto. Tentou… mas o baiano reclamava de tudo, achava tudo careta. Quem acabou assumindo, ainda que durante um curto período, foi Paulo Ruschel, irmão de Alberto e autor do clássico Os Homens de Preto, deixando assim o quarteto 100% gaúcho.

E nada mais natural. Afinal, Alberto, Luiz e Paulo haviam começado juntos na música, em 1942, em Porto Alegre, no Conjunto Universitário. Foi justamente esse trio que chegou ao Rio em 1943 junto com a Caravana Universitária do RS para a VI Olimpíada Universitária de Jogos e Esportes. E lá decidem ficar, para tentar a vida como músicos.

Paulo, aliás, merece mais que um parêntese: nascido em Passo Fundo (280 km a noroeste de Porto Alegre), dia 11 de maio de 1919, além de cantor e compositor, foi ator e escultor premiado. Cruzando suas artes, criou o troféu do festival Califórnia da Canção, a Calhandra. Além de Os Homens de Preto compôs pelo menos dois outros clássicos regionais: Roda Carreta e Iemanjá. Quando o Quitandinha se desmancha definitivamente, lhe bate aquela inexorável saudade do pago e ele se manda de volta para o interior do Rio Grande do Sul, estabelecendo-se numa fazenda em Cruz Alta. 

Ali, trabalha como escultor e compõe canções regionalistas. Ainda na década de 1950, mora uns tempos em São Paulo, trabalhando em rádio e TV. Mas volta definitivamente, agora para Porto Alegre, e morre de ataque cardíaco em 1974, dia seis de junho – ou cinco de julho, os registros variam. Tinha apenas 55 anos e decidira há pouco retomar a carreira musical. Estava no meio de uma turnê pelo interior do estado junto com a cantora lírica Déa Mancuso.

A Calhandra de Ouro

Já Luiz Telles, do qual pouco se sabe além de sua amizade com João Gilberto, que fez com que o baiano morasse uns meses em Porto Alegre, morreu em 1984, com 69 anos.


Os anos 1950 também foram os do sucesso de Alcides Gerardi e Osmar Safety. Originalmente especialista em Dorival Caymmi, Alcides (Rio Grande, 15/05/1918 – Rio de Janeiro, 01/03/1978) emplacou em 1958 a melosa Cabecinha no Ombro (aquela mesmo…) e virou cantor de guarânias e boleros.

Já Osmar Lima dos Santos “Safety” era trompetista e compositor. Nasceu em Pelotas em 1917 e foi o maior especialista local em música cubana, num dos períodos mais populares dos sons caribenhos por estas terras subtropicais.

E Ary Valdez, o Tatuzinho. Nascido em 1906, mudou-se para terras cariocas não se sabe exatamente quando. Era tão convicto no seu analfabetismo que, no lugar da assinatura, desenhava um tatu. Mesmo assim, conseguiu algum sucesso – tocava bem e chegou a ser reserva de Noel Rosa no Bando dos Tangarás, em 1930. Gravou discos, fez parte do regional de Dante Santoro, e tornou célebre um número de humor no Cassino da Urca: entrava com um enorme estojo de violoncelo e, dali, tirava seu minúsculo cavaquinho. 

Hoje parece bobo. 

Na época também parecia, mas o pessoal já tava bêbado mesmo…

Para inveja geral, em 1939 casou-se com a belíssima Elizeth Cardoso. Tiveram um filho, mas o tatu fugiu da toca já na lua-de-mel, e nunca chegou a conviver com a criança. Ao longo dos anos passou a alternar estados de depressão e insanidade, até voltar pro sul nos anos 1950. Empregou-se tocando violão elétrico em algumas casas noturnas, o que fazia com tanta dedicação quanto a que usava para sustentar usinas e mais usinas de álcool, geralmente em parceria com o amigo Lupicínio Rodrigues. Morreu no comecinho da década de 1960, cada vez mais biruta (foi internado algumas vezes, e volta e meia saía pelado pelas ruas da cidade).


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

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