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Prefeitura mantém coleta seletiva e não paga catadores, que trabalham sem proteção contra o coronavírus

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Prefeitura mantém coleta seletiva e não paga catadores, que trabalham sem proteção contra o coronavírus
Bruna Suptitz Os catadores de lixo reciclável de Porto Alegre prestam um serviço essencial à capital de 1,4 milhão de habitantes. Todo o mês, separam das 30 mil toneladas de lixo domiciliar da cidade, garrafas plásticas, papelão, vidros e latinhas que não irão parar no mar ou em bueiros, mas virarão novos materiais, num ciclo de renovação que previne desde enchentes ao aquecimento global. Mas desde que o primeiro caso de coronavírus chegou ao Brasil, em 26 de fevereiro, essa população virou alvo direto da pandemia que paralisa o mundo. Cada ato de separar vidro do papelão e o plástico das latas, repetido centenas de vezes ao longo de um dia de trabalho, se torna um risco de se infectar com a Covid-19, que já contaminou quase 3 mil pessoas no Brasil, deixando, até o fechamento desta reportagem, 77 mortos, segundo dados do Ministério da Saúde. Um estudo da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes) aponta que o novo coronavírus pode permanecer por cinco dias em superfícies plásticas ou de papel e quatro sobre o vidro e a madeira. “Uma pessoa em quarentena, testando positivo ou não, vai tomar um refri e jogar a garrafa no lixo”, observa Daniel Mesquita, da Associação de Catadores da Padre Cacique. Se isso acontecer com uma pessoa infectada, com ou sem sintomas, o vírus seguirá grudado ao recipiente até chegar às esteiras dos galpões de reciclagem e às mãos dos 500 catadores de Porto Alegre, que separam manualmente o que pode ser reciclado.  O alto nível de contágio do coronavírus fez a Abes recomendar a paralisação dos serviços de coleta seletiva, transporte e manejo dos resíduos durante a quarentena. Com base nisso, a prefeitura de Canoas determinou, nesta semana, a suspensão da coleta de lixo reciclável durante os meses críticos da pandemia.  Já os catadores de Porto Alegre estão entregues à própria sorte. Desde agosto do ano passado, suas 16 associações não recebem os pagamentos mensais da prefeitura – que variam de R$ 4,9 mil a R$ 31 mil, dependendo do caso. O acordo firmado com o governo municipal lhes daria condições de comprar equipamentos de segurança individual, os EPIs, para trabalhar com risco minimizado durante a pandemia: luvas emborrachadas por fora e acolchoadas por dentro, além de máscaras e aventais. “Nem isso deu para comprar”, lamenta Marinês dos Santos, representante da Associação Comunitária de Mulheres na Luta Anitas. Registro atual mostra catadores sem proteção contra o coronavírus e outras doenças por falta de recursos. Foto: Daniel Mesquisa Sem o recurso, os catadores estão “improvisando luvas, tentando lavar a mão com mais frequência”, conta Mesquita. Na semana passada, uma articulação de associações com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis conseguiu arrecadar álcool em gel, que foi distribuído entre os galpões. Apesar do avanço da doença na Capital, o serviço não parou. “A gente não tem nem como fazer um pé de meia para poder sobreviver. Se não trabalha, não recebe”, alerta Alex Cardoso, da Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis […]

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