Quadrinhos em revista

Com quadrinhos, com jornalismo, com tudo!

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Com quadrinhos, com jornalismo, com tudo! Notas de um tempo silenciado, de Robson Vilalba (detalhe)

Acabou de sair: Um grande acordo nacional, de Robson Vilalba, livro que se debruça sobre o processo que levou Dilma Rousseff a ser deposta da Presidência do Brasil, em 2016. Não é apenas “mais uma obra” sobre o tema: trata-se de uma história em quadrinhos. E uma história em quadrinhos que também é uma obra de caráter jornalístico. Para quem não está acostumado, trata-se de um exemplo do que se convencionou chamar de jornalismo em quadrinhos – segmento que tem em Robson um de seus principais nomes no Brasil. 

Os dois livros de Robson Vilalba: Notas de um tempo silenciado, publicado em 2015 pela Besouro Box, e Um grande acordo nacional, lançado em maio de 2021 pela Editora Elefante.

Curiosamente, Um grande acordo nacional é um livro que está sendo lançado quase que de forma simultânea ao documentário Alvorada, de Lô Politi e Anna Muylaert, que retrata a intimidade de Dilma durante esse mesmo período. Depois de outros dois documentários que também investigaram o caso – Democracia em Vertigem, de Petra Costa, e O Processo, de Maria Ramos –, o que a nova narrativa visual de Robson Vilalba propõe é apresentar essa mesma história alternando objetividade jornalística e a própria subjetividade. O autor é personagem da obra, o que permite um olhar crítico e pessoal acerca de diferentes fatos que culminariam no impeachment de 2016. Por outro lado, sua figura é também um tanto tangencial. Diferente de outras incursões sobre o tema, a narrativa aqui é mais fragmentada, composta não só por diferentes fatos, mas também por diferentes personagens, cada um com sua própria trajetória, construindo caminhos que ora se encontram, ora se desencontram, sempre tendo como efeito catalizador a destituição da primeira mulher eleita Presidenta do país. 

Confesso que fiquei muito empolgado quando soube que Robson preparava essa reportagem em quadrinhos. Isso porque sou grande fã de seu trabalho anterior, o belíssimo Notas de um tempo silenciado, editado em 2015. Foi a partir dele que Robson se tornou um expoente do jornalismo em quadrinhos produzido no Brasil. 

O primeiro livro de Robson surgiu a partir de uma série de reportagens sobre o período da Ditadura Militar brasileira publicada no jornal Gazeta do Povo, do Paraná, ao longo do primeiro semestre de 2014; a série, intitulada “Pátria Armada, Brasil”, ganhou o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, um dos principais prêmios do jornalismo brasileiro, e depois foi ampliada para compor o que virou o livro Notas de um tempo silenciado. Entre sua primeira obra e a mais recente, muitas mudanças no traço e na composição visual: se em seu primeiro livro Robson se esmerava por um estilo que transitava entre o realismo e o expressionismo e que lembrava obras de grandes quadrinistas argentinos, como Alberto Breccia, em Um grande acordo nacional há uma certa instabilidade na linguagem gráfica, que fica entre o detalhismo e alguma aproximação com o abstrato. Ao conversarmos sobre isso, Vilalba comentou: “Eu tentei fazer uma coisa entre o gesto e o figurativo, por isso tem umas coisas que são meio borrão mesmo e umas coisas que são bem figurativas. Isso me ajudaria a ganhar tempo na produção”. O quadrinista confessou que essa diferença também se deu em razão da própria insegurança que teve diante de sua primeira incursão no jornalismo em quadrinhos: “Eu estava experimentando, aprendendo, por isso eu ‘rebusquei’ mais na arte, vamos dizer assim”.

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A “performance” de Janaína Paschoal em encontro na Faculdade de Direito da USP, em Abril de 2016 – recuperada no traço de Robson Vilalba.

As obras de Robson Vilalba têm um indiscutível valor artístico: são histórias com uma riqueza própria, que contam com o apelo de uma visualidade que jamais assume caráter apenas acessório; mas são, antes de tudo, obras jornalísticas e, portanto, não perdem de vista suas características documentais. Em ambas, há o apreço pelo aspecto polifônico da narrativa – o que também se mostra necessário pela força das circunstâncias e das pautas trabalhadas. Fica claro, porém, que Um grande acordo nacional tem pretensões muito mais romanescas do que Notas de um tempo silenciado. “Uma questão que eu tinha, do primeiro livro para o segundo, era manter o leitor o máximo de tempo dentro do livro. No primeiro há muitos fragmentos, a narrativa eu acho que escapa muitas vezes”, disse o autor.

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Páginas (acima e abaixo) de diferentes capítulos de Notas de um tempo silenciado, de Robson Vilalba
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 Em Um grande acordo nacional também se notam, em relação ao trabalho anterior, claras diferenças na forma de apresentar e desenvolver personagens, uma vez que agora eles têm muito mais voz. O primeiro livro era povoado de recordatórios (aquelas caixinhas de texto que flutuam sobre as imagens, geralmente postas nas linhas superior e inferior dos recuadros – as linhas que fecham os enquadramentos), porém agora temos mais balões; o discurso direto dá mais vida às personagens e humaniza a narrativa, o que é reforçado, em grande parte, pela presença do próprio autor na obra, marcando a subjetividade que costuma ser característica das reportagens de maior fôlego. 

Há um certo paradoxo diante dessa diferença. As histórias sobre a Ditadura Militar que compõem Notas de um tempo silenciado encontram-se muitas vezes nas sombras – “silenciadas”, como diz o título –, cabendo ao jornalista-quadrinista fazê-las emergirem; são histórias que focam em representações muitas vezes marginalizadas na grande narrativa de opressão e resistência ligada à Ditadura, como as representações negra e indígena; ainda que ricamente ilustradas, impactantes e reveladoras, essas histórias exploram visões panorâmicas, em que não temos a chance, muitas vezes, de ver/ouvir as vozes dos envolvidos. Por outro lado, em Um grande acordo nacional as figuras envolvidas falam mais (muito mais), mesmo em situações que, aparentemente, já conhecemos, em cenários já vistos. Ou seja: mesmo diante de um fato tão explorado pela grande mídia, tão documentado, registrado e ainda vivo na memória política brasileira, é caro ao autor reintroduzir as personagens dessa história a partir de suas próprias vozes, isso porque elas são, de fato, tratadas como personagens, que precisam, portanto, ser (re)construídas e não apenas trazidas como testemunhas objetivas ou com a frieza do didatismo. Isso também acontece porque, apesar da sinopse dessa narrativa ser basicamente a mesma que já conhecemos, a nova forma apresenta a história a partir de outros parâmetros. O pesquisador, tradutor e jornalista Augusto Paim analisa que, nesse caso, também há a intenção de “captar uma atmosfera”: “Temos imagens saturadas sobre tudo o que aconteceu na crise do Governo Dilma; ao desenhar isso, começam a se criar novas imagens, e isso permite ter um novo olhar sobre esse tema; é um retrato impressionista – ou até expressionista, dependendo de como se vê –, que não foca apenas na memória ou na aparência das coisas”.

No cerne dessa análise está, talvez, a própria essência do que é o jornalismo em quadrinhos. Como não sou especialista no assunto, resolvi chamar o amigo Augusto Paim para a conversa. Ele – que também é autor de reportagens em forma de HQs e fez seu doutorado sobre jornalismo em quadrinhos na Bauhaus-Universität, na Alemanha – aponta um aspecto quanto ao tema que precisa ser considerado antes de tudo: “Uma coisa que é fundamental é encarar o jornalismo em quadrinhos não como um gênero, mas como uma área, assim como há a área do telejornalismo, do radiojornalismo, do webjornalismo… E dentro dessa área temos os respectivos gêneros – as entrevistas, as reportagens, os livros-reportagem…”. 

A problemática parece estar, portanto, na forma que o gênero jornalístico em questão assume (não na pauta), uma vez que é preciso ter no horizonte como será a publicação. Nesse sentido, é importante observar que algumas escolhas editoriais do jornalismo em quadrinhos são pragmáticas e acompanham o jornalismo, digamos, “tradicional”. Uma reportagem, por exemplo, exige fôlego, preparação, equipe – não é como uma nota ou uma notícia centrada em dados mais diretos e objetivos; é possível que uma notícia seja ilustrada por quadrinhos que consigam propor soluções visuais rápidas, uma vez que muitas redações de jornais têm a presença de ilustradores acostumados com a velocidade do jornalismo diário. Entretanto, no caso de uma reportagem em quadrinhos, o que naturalmente se exige são condições semelhantes às de uma reportagem em prosa, onde a pesquisa, a linguagem, a narratividade e o processamento de informações se dão numa dinâmica muito própria, em que muitas vezes se busca a autoria e a originalidade ao se lidar com os fatos.

Augusto Paim observa que um livro-reportagem em quadrinhos pode dar aos fatos uma dinâmica nova e interessante, desde que sejam observados alguns pontos: “O problema é a limitação de tempo e espaço. Para fazer uma história em quadrinhos aprofundada, é preciso de cenas, e cenas em quadrinhos demoram páginas e páginas para serem desenvolvidas – e às vezes não se tem esse espaço. Para que não seja um trabalho carregado de texto, tu precisas de cenas! É por isso que acho que a linguagem dos quadrinhos pode ser vantajosa em inúmeros aspectos, mas também pode ser compensada em suas desvantagens quando combinamos ela com outras linguagens. Por exemplo: uma reportagem em quadrinhos que traga um prefácio ou um posfácio ou uma documentação que se apresenta como fonte para garantir a questão da transparência, um making-of… É uma coisa que complementa o foco na narrativa visual”. 

É o que vemos nas obras de Robson Vilalba, por exemplo: em Um grande acordo nacional: cinco páginas de fontes, bem como notas que acompanham a leitura da HQ; em Notas de um tempo silenciado, nada menos que 19 páginas de comentários, fotos, bibliografia, rascunhos do processo de criação e textos de apoio de jornalistas e pesquisadores ajudam a contextualizar o esforço de apuração mobilizado pelo autor. Percebendo isso, é importante que, ao refletirmos sobre o jornalismo em quadrinhos, consideremos tanto as limitações quanto a potência da linguagem quadrinística, ao mesmo tempo em que vemos as necessidades e as obrigações éticas do próprio jornalismo.

E como o autor é visto dentro desse processo: como artista ou jornalista? Como um contador de histórias ou tão somente um sujeito que reporta aquilo que investiga? Augusto Paim lembra que há uma discussão muito parecida no campo do chamado jornalismo literário. Esse segmento – também conhecido como new journalism –, que está ligado à origem do próprio jornalismo em quadrinhos, historicamente teve como intuito mesclar as técnicas do jornalismo e da literatura, sendo capaz de, ao mesmo tempo, dar um novo fôlego ao formato romance e, principalmente, tornar o status do jornalismo escrito mais imaginativo e subjetivo, especialmente quanto à linguagem e à narratividade. “Penso que é uma linguagem artística que é adaptada para fins documentais, tanto que muitos têm preferido usar o termo ‘quadrinho documental’ pra não dizer que aquilo é jornalismo, já que falar em jornalismo implica em apuração jornalística” – o que nem sempre se aplica e, nesses casos, até “ofende a ‘a arte da reportagem’”, segundo Augusto; ainda, segundo ele, “a reportagem é uma forma de ver o mundo que artistas podem usar”, ainda que, pessoalmente, seu interesse maior como pesquisador seja compreender “qual seria a contribuição dos quadrinhos para o jornalismo, não do jornalismo para os quadrinhos”, afinal, seu ponto de vista é o do jornalista, não o do artista – e talvez neste último caso a recíproca tivesse, digamos, outro valor. Em suma: pode-se dizer que o interesse sobre como tratar a pergunta acima vem do lugar de fala de quem responde, e o entre-lugar do jornalismo em quadrinhos (que também é o entre-lugar do jornalismo literário, de certa forma) permite um diálogo que funciona como uma via de mão dupla.

Definitivamente, como já disse, não sou um especialista em jornalismo em quadrinhos. Sequer sou jornalista. Entretanto, sou apaixonado por jornalismo bem feito (ou o que eu considero jornalismo bem feito). Tanto jornalismo quanto quadrinhos são duas coisas que me emocionam genuinamente e que admiro muito. A combinação desses dois elementos traz, portanto, razões suficientes para conhecer um pouco mais sobre esse mundo que os une. Pensando nisso, deixo aqui uma listinha pessoal para mergulhar nesse universo de jornalistas que também são quadrinistas e também de quadrinistas que eventualmente tentam atacar de jornalistas…


– Palestina, Notas sobre Gaza, Uma história de Sarajevo e Reportagens, de Joe Sacco.

Não há como fugir: qualquer comentário sobre jornalismo em quadrinhos esbarrará, necessariamente, na principal referência sobre o assunto – Joe Sacco! Seja nas histórias sobre a Faixa de Gaza ou naquelas relacionadas à região dos Bálcãs, o cartunista nascido em Malta gosta mesmo é de trabalhar com temas fortes e questões geopolíticas complexas, além de mergulhar em espaços de conflito onde a tensão é palpável – algo que é especialmente ampliado pelo seu característico traço caricato, povoado por exageros de expressividade que lembram os quadrinhos de Robert Crumb e de outros autores do movimento dos Comix Underground, dos anos 1960. Sacco não se furta a mostrar-se nas suas reportagens, o que traz certo intimismo em meio a grandes questões do mundo contemporâneo. Seus trabalhos não são, assim, apenas “aulas” de quadrinhos ou de jornalismo, mas também exercícios de humanidade e de sensibilidade.


– Notas de um tempo silenciado e Um grande acordo nacional, de Robson Vilalba.

O mote desta edição da seção “Quadrinhos em revista” serve, principalmente, para conhecer o trabalho de Robson Vilalba. Sua primeira obra, Notas de um tempo silenciado, é um ponto fora da curva em relação às narrativas mais conhecidas sobre o Regime Militar, principalmente pelo enfoque dado à questão indígena. Com o lançamento de seu novo livro, Um grande acordo nacional, temas como esse ganham uma trágica atualidade, uma vez que o efeito mais brutal do impeachment de Dilma Roussef é termos no poder figuras que não só defendem abertamente a Ditadura, como também são coniventes com as inúmeras violências ainda cometidas contra as populações indígenas no Brasil.


– Alvorada em Quadrinhos e Fala que eu desenho, de Pablito Aguiar.

Colaborador da Parêntese, Pablito Aguiar é referência no trabalho com um gênero muito particular: a entrevista em quadrinhos. Sua abordagem, que dá voz e protagonismo ao “outro”, rendeu não só o livro Alvorada em Quadrinhos, que mergulha no cotidiano de personagens de sua cidade-natal (Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre), como também as inúmeras entrevistas da seção Fala que eu desenho, publicadas regularmente por esta revista Parêntese, do Grupo Matinal Jornalismo. 


– La entrevista dibujada, de Liniers.

Liniers, grande gênio contemporâneo do cartum e mestre das tiras, também fez sua incursão no jornalismo em quadrinhos com suas entrevistas desenhadas para o jornal argentino La Nación, por onde passaram figuras como Andrés Calamaro e Ricardo Darín. Nessas entrevistas, Liniers se coloca em diálogo com seus personagens, representando a si mesmo como um coelho – uma marca registrada sua. 


– So close, faraway! Homeless in Brazil, de Augusto Paim e Bruno Ortiz.

A reportagem de Augusto Paim ilustrada por Bruno Ortiz opta por uma narrativa silenciosa – sem palavras, portanto. O cotidiano de um morador de rua de Porto Alegre torna-se naturalmente expressivo por aquilo que ele carrega: seus objetos o tornam um andarilho peculiar, fazendo com que sua personalidade acabe se destacando por meio deles, mesmo diante de uma condição de típica invisibilidade social. O material foi veiculado originalmente no site estrangeiro Cartoon Movement, onde Augusto Paim também publicou, em parceria com o quadrinista MauMau, a reportagem Inside the favelas, sobre a entrada das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) em comunidades do Rio de Janeiro no início dos anos 2010.


– Mulheres da Craco, de Carol Ito.

Um exemplo bem recente de reportagem em quadrinhos, produzida já em meio à pandemia de covid-19, Mulheres da Craco traz um tema muito importante e urgente: o cotidiano de pessoas, especialmente de mulheres cis e trans, na cracolândia, em São Paulo – que reverbera um problema visível em outras grandes cidades brasileiras, escancarado pela crise sanitária atual. A matéria, contudo, é também uma ótima oportunidade para conhecer o trabalho de Carol Ito, jornalista e quadrinista brasileira. O interessante em trabalhos como os de Carol é a adequação de sua proposta também à dinâmica de leitura em redes sociais – espaço que tem sido fundamental para a divulgação de novos artistas. Por isso, vale não só ver essa reportagem feita para a Agência Pública como igualmente acompanhar as outras publicações jornalísticas e humorísticas da autora no Instagram (@carolito.hq).


– Quatro Marias, de Helô D’Angelo e Joyce Gomes.

Helô D’Angelo, hoje um fenômeno entre quadrinistas nas redes sociais, fez deste projeto de 2016 o seu trabalho de conclusão de curso em Jornalismo – produzido em coautoria com Joyce Gomes e sob a orientação da professora Bianca Santana. Trata-se de uma reportagem que investiga perfis de diferentes mulheres que passaram pela experiência do aborto – “quatro Marias, pois são todas anônimas”, como menciona a sua apresentação. É um trabalho belíssimo e que pode ser conhecido por meio de site dedicado a ele, em que também é possível ler sobre todo o processo de criação em detalhes. 


– Cannabis: a ilegalização da maconha nos Estados Unidos, de Box Brown.

O livro de Box Brown é uma espécie de “documentário em quadrinhos”, mobilizando um rigoroso levantamento de dados, ao mesmo tempo em que flerta com o humor. O traço de Brown preza pela objetividade e o texto é enxuto e preciso, condensando uma massa enorme de informações históricas e conduzindo a narrativa de forma dinâmica e fluida. É, igualmente, um exercício curioso: ao mesmo tempo em que há um aparente recuo na subjetividade, os dados apresentados convergem para uma argumentação em torno de seu tema central – o consumo de maconha ao longo dos tempos e sua consequente perseguição.


– O Lixo da História, de Angeli, e Retroscópio, de Santiago.

O humor gráfico ocupa um lugar ambíguo nas discussões sobre quadrinhos. E a discussão conceitual, nesse caso, pode se tornar complexa, chata e ir longe. O mais importante, aqui, é que há quem defenda que é no humor gráfico que podemos encontrar gêneros do jornalismo opinativo em quadrinhos, especialmente no caso das charges. Eu concordo – e vou além: a charge também é o gênero dos quadrinhos que mais se aproxima da crônica – texto que, por sua vez, flutua entre o jornalístico e o literário e que é, de fato, um dos gêneros disponíveis no suporte do jornal. O Brasil é fértil em produzir grandes chargistas, que fizeram e fazem do gênero um espaço de exercício criativo singular. Nesta lista, ficam as sugestões de dois autores geniais e fundamentais na história do quadrinho nacional: o paulista Angeli e o gaúcho Santiago; na obra do primeiro, um panorama do noticiário político das últimas duas décadas – principalmente, do noticiário político internacional; na obra do segundo, 40 anos de história observados pela charge. Se o traço também pode ser visto como um discurso, é interessante analisar comparativamente Angeli e Santiago e ver como seus diferentes estilos (de humor, inclusive) influenciam o caráter opinativo de seus trabalhos e mantêm, assim, um diálogo frequente com a imprensa diária.


Vinícius Rodrigues é professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela UFRGS, sempre estudando quadrinhos e humor gráfico. Sua tese de doutorado venceu, em 2020, o Troféu HQMIX, o prêmio mais importante do segmento dos quadrinhos no Brasil. É autor de diversos artigos e contribuições em livros, em revistas acadêmicas e na imprensa. [email protected]

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