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Esse estranho mundo de Fabiane Langona – o nosso!

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Esse estranho mundo de Fabiane Langona – o nosso!

Fato conhecido na história da arte brasileira: em 1917, a propósito da exposição da artista modernista Anita Malfatti, Monteiro Lobato cometeu uma famigerada crítica no jornal O Estado de São Paulo em que, num de seus arroubos, resolveu chamar aquilo tudo de “arte caricatural”, acrescentando: “caricatura que não visa, como a verdadeira, ressaltar uma ideia, mas sim desnortear, aparvalhar, atordoar a ingenuidade do espectador”. A ideia era usar o termo “caricatura” para diminuir a arte moderna, associando-a a uma concepção artística popular e, portanto, menor. A intenção dos comentários era, naturalmente, desqualificar. Contudo, é curioso pensar nesse comentário e observar que, ao dizer isso, Lobato involuntariamente ressaltou algumas das qualidades que certos artistas mais perseguem – especialmente aqueles que buscam romper padrões não só estéticos, mas que também querem causar outros tipos de desconforto (morais, inclusive). Nos quadrinhos, o sentido de “caricatural” ou “caricato”, por exemplo, não necessariamente tem a ver com algo limitado e também não está reduzido à caricatura pessoal; trata-se, também, de uma atitude estética que projeta uma visão de mundo – uma poética, pode-se dizer. Essa amplitude de definição reverbera no mundo dos quadrinhos de modo particular e pode ser usada para pensar em muitos artistas, contudo, ela sempre me faz pensar nas imagens produzidas por Fabiane Langona, uma das quadrinistas brasileiras mais importantes deste século, com um trabalho que encanta tanto pelo humor debochado quanto por uma eventual tensão entre agressividade e ternura, quase sempre superada por um mundo grotesco que grita em seus quadrinhos – o nosso próprio Mundo, diga-se de passagem.

Antes de falar sobre essa cartunista gaúcha, porém, ainda quero insistir no diálogo com a recepção à obra de Anita Malfatti. O texto de Monteiro Lobato sobre a exposição da artista hoje faz parte do anedotário da arte nacional: como lembra Marcos Augusto Gonçalves no livro 1922 – A semana que não terminou, o nome do autor do Sítio do Pica-pau Amarelo sequer consta no livro de assinaturas da exposição e há quem diga que ele nem esteve presente lá; o artigo em questão – que ficaria conhecido sob o título “Paranoia ou mistificação” – não se propõe a analisar as obras da pintora, mas sim elencar uma série de impropérios contra a arte moderna do modo mais genérico e superficial possível. Há no texto, ainda – e é nesse ponto que gostaria de me ater um pouco mais –, um certo ar de condescendência sobre o trabalho da jovem precursora do Expressionismo no Brasil, uma impressão até infantil e ingênua acerca de seu trabalho; é como se Lobato fizesse o “esforço” e tivesse a “boa vontade” (nota de ironia) de compreender por que, afinal, uma moça tão bem educada e tão bem intencionada tinha sido tragada pelas forças monstruosas dessa arte degenerada; uma jovem mocinha fora enganada, iludida pelas “teorias efêmeras” de uma arte que brilhava com “a luz do escândalo” e que sumiria logo adiante, caindo “nas trevas do esquecimento”. Nas palavras do escritor paulista, os artistas que seduziam Anita despoticamente viam a natureza de modo “anormal” e faziam-no questionar: ou a harmonia do universo sofria “completa alteração” em suas obras, ou os cérebros desses artistas estavam “em desarranjo por virtude de algum grave destempero”.

Pois então: a artista sobre quem quero falar de fato nasce quase um século depois de Malfatti e produz tiras, charges, cartuns, histórias em quadrinhos e ilustrações há pouco mais de 15 anos. Fabiane Langona também gosta de explorar a deformação dos corpos, com um traço grotesco e um humor que ela mesma já definiu (em entrevista para o site da revista AzMina) como algo entre “fofura e escrotidão”. Fatalmente, no início de sua carreira, Fabiane foi muitas vezes vista como “um corpo estranho” dentro do humor gráfico, justamente por ser uma jovem mulher produzindo quadrinhos que rompem com padrões estéticos, fazendo uma arte que se utiliza de elementos caricaturais da realidade para expor o absurdo e o ridículo de nossas próprias vidas. Fabiane não era e nem é um caso único nesse sentido, mas a constância, a regularidade e, principalmente, a projeção de seu trabalho seguindo esse estilo têm muita relevância dentro do universo de grandes quadrinistas nacionais.

Chiqsland Corporation. Fabiane Langona, Chiquinha. Facebook, 29-10 ...
Tira de Outubro de 2017 de autoria de Fabiane Langona.

Por mais que sua trajetória pareça curta se comparada a outras figuras históricas e que ainda estão na ativa, a importância  de Fabiane Langona é fundamental. Nascida em Porto Alegre em 1984, ela é, portanto, um nome a se destacar também entre quadrinistas gaúchas ou que já tiveram atuação no Rio Grande do Sul e que seguem os mais variados estilos e formatos dos quadrinhos (não só o humor gráfico), como Ana Luíza Koehler, Samantha Flôor Paula Mastroberti, Aline Daka, Grazi Fonseca, Bruna Maia, entre outras. Fabiane já assinou como Chiquinha, nome com o qual se projetou no cenário nacional ainda nos anos 2000. Inicialmente, um pseudônimo curtinho foi uma maneira tanto de se esconder de uma eventual timidez acerca de seu trabalho quanto de remeter a uma certa tradição do cartunismo, cheia de assinaturas icônicas e de poucas letras, como “Jaguar”, “Laerte”, “Sempé”, “Fortuna” etc. Porém, isso mudou nos últimos anos: desde 2017, lá estão, no cabeçalho de suas tiras, charges e cartuns, o nome e o sobrenome que lhe cabem. 

Fabiane Langona transita muito bem por diferentes ramos das artes gráficas, indo da ilustração às histórias em quadrinhos propriamente ditas. A artista iniciou sua carreira na clássica revista Mad que, mesmo na versão brasileira, sempre foi um veículo de referência para o humor gráfico; de lá, trabalhando na redação e com arte-final, saltou para o Jornal do Brasil em 2005; ainda na mesma década, começou a fazer suas primeiras colaborações na Folha de São Paulo e, logo depois, passou a fazer parte do time de cartunistas do portal Uol. A partir desse momento, foi se tornando, aos poucos, uma referência importante da crônica humorística brasileira. 

Desde então, a lista de colaborações da autora passou a ser vasta, passando por publicações como Le Monde Diplomatique Brasil, as revistas Piauí, Bravo, Caros Amigos e Vip e os jornais Zero Hora e O Estado de São Paulo. Ainda como Chiquinha, a quadrinista lançou dois livros: Uma patada com carinho, de 2011, e Algumas mulheres do Mundo, de 2014 – ambos em formato de antologia. Em 2016, publicou a HQ breve A mediocrização dos afetos, que integra a coleção Ugrito, da editora Ugra Press. Atualmente, Langona produz tiras diárias para a Folha de São Paulo, além de colaborar em outras seções do jornal.


Inevitavelmente, a importância de Fabiane para os quadrinhos também passa pelo fato de ser uma mulher dentro de um campo muitas vezes controverso, machista e preenchido amplamente pelo sexo masculino. A artista chegou a comentar certa vez, em depoimento à Folha de São Paulo de Outubro de 2017, que gostaria que essa presença fosse simplesmente normalizada. Fato é que Fabiane compreende muito bem essa responsabilidade e a necessidade de ainda ter que falar sobre o assunto, uma vez que tal presença também leva a um importante debate sobre o repertório e o reposicionamento das piadas dentro do humor gráfico. Em suas palavras, no mesmo depoimento à Folha, ela diz: “É recente que os homens não sejam os autores da piada, mas os alvos dela”. Em outra entrevista, dada ao blog da Mórula Editorial, Fabiane formula uma espécie de síntese acerca de sua identidade e o encontro disso com sua arte: “Não faço questão de me encaixar em expectativas sociais ou papéis que enquadrem as mulheres em deveres. Seja no sentido padrão de realização doméstico-afetivo, seja no sentido obrigatório de se produzir arte discursivamente engajada, retilínea”

Nesse ponto, o terreno é espinhoso – talvez para a própria Fabiane. Seus cartuns e tiras têm um traço bastante agressivo, violento, por vezes grotesco, que combina muito com o seu tipo de humor, que evoca quase sempre aspectos ridículos e absurdos do nosso dia a dia. Naturalmente, dessas questões do dia a dia também emergem situações que envolvem mais diretamente o universo feminino e suas representações imagéticas, ou seja: as ilustrações que mostram as mulheres e seus corpos.

Maria da Conceição Pires, historiadora e professora da UniRio, debruça-se sobre essa temática da representação do corpo e, em artigo, aponta para a estética de Langona como uma estratégia de expressão que “visa a ocupar um espaço no campo das artes, transcendendo e despedaçando os estereótipos de feminilidade, uma vez que traz à luz o considerado banal, feio, imperfeito e inadequado às mulheres”. No mesmo artigo (intitulado “Mulheres desregradas: autorretratos e o corpo grotesco nos cartuns de Chiquinha”, de 2019), a professora sinaliza: “os corpos que Chiquinha torna visíveis fogem dos modelos demarcados por uma lógica cultural de poder que se dedica a produzir, serializar e materializar corpos-consumo, e que promove a exclusão daqueles que não se inscrevem nas formas previstas de regulação social”.

Nesse sentido, o livro Algumas mulheres do Mundo é um bom ponto de partida, uma vez que nele está reunido um vasto repertório de situações cômicas que transitam justamente pelas questões de gênero. Todavia, o trabalho de Langona vai além e, na medida em que dialoga especialmente com diferentes segmentos editoriais ligados ao jornalismo, mostra-se versátil quanto aos temas, com um apelo visual e um discurso humorístico que constroem um estilo muito particular. 

Trata-se de um estilo que tenta equilibrar antíteses: por mais que haja estrenheza e um estilo caricatural, há uma vocação da artista para revelar o absurdo cotidiano – às vezes, muito íntimo, particular e até banal; a agressividade do traço da artista (que eventualmente parece esculpir suas figuras a machadadas, como se fizesse constantes releituras do quadro Les demoiselles d’Avignon, de Pablo Picasso) não deixa de transparecer, contudo, uma certa ternura, mesmo que latente, muitas vezes sufocada pelas dificuldades e pelos dramas pessoais das personagens. Em verdade, seus desenhos provocam também porque questionam nosso próprio moralismo e, nesse sentido, quebram expectativas de representação. Lidar com isso é parte do jogo discursivo de Langona. Em entrevista de Agosto de 2017 ao site da revista Bravo!, a artista já dizia: “me encontrei como cartunista justamente por isso, pra quebrar expectativas de todos os lados que viessem. Pra bater nesses padrões, mostrá-los ridículos. Imprimir clichês que de tão arraigados e persecutórios só vemos quando não estão refletidos diretamente no espelho. E não estamos falando aqui apenas de mulheres, e sim do humano”.

Fabiane Langona reitera que gosta de “causar um desconforto” com o seu trabalho, e é preciso analisar isso de modo articulado com seu texto, com o conceito das piadas e as motivações humorísticas associadas a elas que possam estar presentes nos fatos públicos. Cada vez mais, por exemplo, tem sido possível notar em suas tiras da série Viver dói, publicada diariamente na Folha de São Paulo, um formato irregular: às vezes, uma poeticidade que tem muito de inquietante, de surreal, de experimental, em que nem sempre fazer rir é o que está em primeiro plano, aparentemente; em outras ocasiões, os episódios de costumes, ressaltando situações bizarras do comportamento humano e evocando o humor a partir de um certo cinismo; em outros casos, está também presente o humor político mais direto

Muitas vezes, tais propostas são compostas de forças antagônicas entre discurso e estética no trabalho de Langona. No campo das personagens, por exemplo, há dois exemplos marcantes: um é Abortinho – literalmente, um feto fruto da interrupção da gravidez que comenta questões associadas ao tema de modo ora educativo, ora agressivo, sempre se contrapondo a um discurso conservador que tenta se apoderar do direito sobre o corpo feminino (o nome no diminutivo, meio afetuoso, é parte da ironia); o segundo exemplo é Elefoa, figura que ajudou a projetar o nome de Chiquinha no mercado editorial com o livro Uma patada com carinho – As histórias pesadas da Elefoa cor-de-rosa; trata-se de uma personagem que segue uma antiga tradição amplamente utilizada em todos os tipos de histórias em quadrinhos (das sérias às humorísticas), em que um universo de animais falantes é utilizado como grande alegoria para explorar questões humanas cotidianas –muitas delas, questões de gênero, nesse caso; são pequenas histórias que fazem saltar aos olhos os valores ambíguos que caracterizam o trabalho da autora, brincando com a estética dos funny animals para tratar de assuntos muitas vezes despudorados; o mundo da Elefoa não é tão “cor-de-rosa” quanto parece, portanto.

Outra proposta que aparece com frequência no trabalho de Langona são as séries sem personagens fixos. Como é típico entre os cartunistas que publicam tiras regularmente, as ideias de Fabiane levam a repetições de um mesmo conceito, aplicando algumas variações. Essa dinâmica pode se dar a partir de elementos variados: uma mesma figura que protagoniza as tiras, uma mesma ideia visual ou um mesmo mote, redirecionando temáticas que justifiquem novos episódios.

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A Elefoa em dois momentos distintos – a personagem de Fabiane Langona costuma ter como interlocutoras as amigas Janete, uma ursa, e Gisbelle, uma girafa. 


Em geral, as tiras de Fabiane Langona alternam a narrativa dos costumes com a repercussão do noticiário. Em tese, seria no último caso que as piadas adquiririam um tom mais objetivamente politizado. É natural, no entanto, que o espaço da tira na imprensa brasileira produza um duplo efeito e as propostas artísticas se misturem. Ou seja: por aqui, frequentemente, política não é só assunto para a charge, mas também está nesse formato narrativo curto das HQs que chamamos comumente de tirinha. A separação do que é efetivamente político dentro de uma tira ou cartum é, por si só, um pensamento arbitrário, e uma das maiores qualidades do trabalho de Fabiane Langona é apontar para o fato de que a discussão política vai além da própria institucionalidade ou daquilo que está ligado às esferas de poder e ao Estado. Entender isso é básico para compreender também o próprio alcance da arte enquanto instrumento de representação da sociedade. Em debate sobre arte & política na Quanta – Academia de Artes, em São Paulo, no ano de 2019 (disponível no YouTube), a própria artista defendeu: “a crítica de comportamento também é uma forma de fazer política”. O ponto crucial para ler o trabalho de Langona nesse sentido, parece-me, é entender por quais meios ela o faz.

O aspecto óbvio é que Fabiane Langona parece vocacionada a ser uma artista ligada ao humor, mas seu estilo, eventualmente, traz o que ela própria já caracterizou como “humor triste”, uma definição paradoxal que combina muito com o seu trabalho – que ela também já definiu como dotado de “muito ódio carinhoso”. O teórico Vladimir Propp, em seu célebre estudo intitulado Comicidade e Riso, dizia que “o trágico e o cômico não se dividem mecanicamente”, o que poderia levar a um “riso pseudotrágico, às vezes tragicômico”, um riso que não suscitaria, necessariamente, simpatia. Fabiane Langona costuma afirmar que o papel do cartunista (especialmente considerando o trabalho na imprensa e seu caráter cronístico) realmente é o de provocar, cutucar, incomodar e, em algumas situações mais agudas e urgentes, chocar. O que não quer dizer que, em meio a isso, não seja possível atravessar o discurso, produzindo, junto a ele, uma mensagem humorística por meio da ironia, do deboche ou da lógica da inversão (este, aliás, um dos princípios básicos do humor elencados pelo filósofo Henri Bergson). Acredito que é aí que está um dos grandes talentos de Fabiane: querer encontrar o humor, mesmo quando tudo parece puro desespero e angústia ou, ainda, mesmo quando a situação parece por demais prosaica e íntima.

Vladimir Propp também afirmava que “toda particularidade ou estranheza que distingue uma pessoa do meio que a circunda pode torná-la ridícula”. Eis aí a grande qualidade do trabalho de Fabiane Langona, que faz questão de ressaltar isso o tempo todo como se escancarasse um segredo que, se não é hilário, é no mínimo divertido de ser compartilhado. O absurdo está diante dos nossos olhos, ele só não está sendo visto com a lente correta. E sim, todos somos um pouco ridículos, especialmente quando nos esforçamos para parecer que está tudo normal.

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Tira publicada no dia 16 de Junho de 2020 no jornal Folha de São Paulo.


Vinícius Rodrigues é professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela UFRGS, sempre estudando quadrinhos e humor gráfico. É autor de diversos artigos e contribuições em livros, em revistas acadêmicas e na imprensa. [email protected]

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