Quadrinhos em revista

O Fraga

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O Fraga

Conhece o Micuim? Já ouviu falar? Não é, no caso, o bichinho invisível que dá coceira quando a gente se deita na grama. Não. Esse tem perfil nas redes sociais e tudo. É uma publicação online totalmente gratuita e cheia de gênios – sem exagero: só craques! É uma compilação que resume o melhor do humor gráfico que tem sido feito no Brasil, dos novatos aos veteranos. É um “suprimento de humor”, como os próprios envolvidos definem, uma iniciativa ligada ao site jornalístico Brasil de Fato. Está na sua 3ª edição – rumo à 4ª, em Dezembro – e, repito: é grátis! Tem entrevistas, charges, cartuns, tiras, crônicas, textos variados… Enfim: são 20 páginas (!) de “humor em tempos mal-humorados” – definição do principal responsável pela empreitada: o Fraga.

Conhece o Fraga? 

Há dois “Fragas” importantes que flertam com o humor gráfico no Rio Grande do Sul: o Gilmar, caricaturista e chargista, e o José Guaraci. Confesso minha profunda admiração por ambos, mas, aqui, interessa-me falar sobre o segundo: o Fraga do texto, ótimo frasista, sempre com humor afiado e opinião contundente. A relação com a palavra é a essência do trabalho desse grande jornalista ao longo de décadas, mas ele também carrega uma inestimável contribuição para o humor gráfico e para os quadrinhos gaúchos. Tive a honra de entrevistá-lo para este texto da coluna “Quadrinhos em revista” e o que escrevo a seguir tem a intervenção constante das próprias palavras dele.


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Conhece o Micuim? Já ouviu falar? Não é, no caso, o bichinho invisível que dá coceira quando a gente se deita na grama. Não. Esse tem perfil nas redes sociais e tudo. É uma publicação online totalmente gratuita e cheia de gênios – sem exagero: só craques! É uma compilação que resume o melhor do humor gráfico que tem sido feito no Brasil, dos novatos aos veteranos. É um “suprimento de humor”, como os próprios envolvidos definem, uma iniciativa ligada ao site jornalístico Brasil de Fato. Está na sua 3ª edição – rumo à 4ª, em Dezembro – e, repito: é grátis! Tem entrevistas, charges, cartuns, tiras, crônicas, textos variados… Enfim: são 20 páginas (!) de “humor em tempos mal-humorados” – definição do principal responsável pela empreitada: o Fraga.

Conhece o Fraga? 

Há dois “Fragas” importantes que flertam com o humor gráfico no Rio Grande do Sul: o Gilmar, caricaturista e chargista, e o José Guaraci. Confesso minha profunda admiração por ambos, mas, aqui, interessa-me falar sobre o segundo: o Fraga do texto, ótimo frasista, sempre com humor afiado e opinião contundente. A relação com a palavra é a essência do trabalho desse grande jornalista ao longo de décadas, mas ele também carrega uma inestimável contribuição para o humor gráfico e para os quadrinhos gaúchos. Tive a honra de entrevistá-lo para este texto da coluna “Quadrinhos em revista” e o que escrevo a seguir tem a intervenção constante das próprias palavras dele.


José Guaraci Fraga tem carreira como jornalista, humorista, publicitário e editor. Trata-se de um nome que ganhou relevo nos anos 1970. Sua conexão com os artistas do traço naquela época se dava de maneira inicialmente casual: Fraga convivia com grandes talentos que publicavam charges, tiras, cartuns e caricaturas nos jornais da antiga Companhia Jornalística Caldas Júnior, à época proprietária do Correio do Povo, da Folha da Manhã e da Folha da Tarde. Entre esses talentos, estavam, por exemplo, o já consagrado Sampaulo e o jovem Edgar Vasques. A produção gráfica intensa que tinha bom espaço no jornalismo porto-alegrense fomentava a circulação de tais periódicos e tinha interlocução constante com o humorismo e com o espaço opinativo para além do desenho. Era nesse último segmento que aparecia o trabalho de Fraga.Como autor, nos anos 1970, Fraga se destacou na Folha da Manhã, onde apresentava a coluna “Bugigangas do Fraga”, que carregava o estilo de humor promovido por grandes mestres nacionais, como Millôr Fernandes, uma vez que, ali, palavra e imagem (numa perspectiva um tanto experimental) se misturavam constantemente e, às vezes, um dava lugar ao outro sem aviso prévio. Contudo, Fraga sempre foi, essencialmente, um homem do texto: “embora meus cartuns tenham ideias, o resultado nunca me satisfaz. Virou um tipo de criação secundária, só pra preencher espaço nas colunas que assino. No fundo, me defino como frasista, a síntese é como melhor me expresso”. Suas colunas tinham o espírito da crônica, mas esse estilo, em certos momentos, era subvertido para tratar de variadas situações humorísticas. O escritor Fraga passou, assim, a adotar um perfil de texto quase que aforístico, pode-se dizer, resumindo grandes temas que dialogavam, em maior ou menor grau, com o cotidiano e com questões universais.

Fraga, em 2015, em exposição no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo que fez uma retrospectiva de sua carreira.
(Foto de Tânia Meinerz para o jornal Extra Classe.)

Ainda nos anos 1970, em algumas situações, os textos de Fraga provocaram indignação em figuras “poderosas”. Edgar Vasques conta (em entrevista concedida para a minha pesquisa de doutorado sobre os quadrinhos gaúchos) que Fraga teria sido demitido no ano de 1975 da Folha da Manhã após pressões de políticos incomodados com o “humor ferino” da sua coluna:“Dizem, mas é boato (embora plausível), que o ‘incomodado’ seria o próprio governador. Na verdade, a postura da Folha da Manhã como um todo ia na contramão da tendência da grande mídia na época; procurava fazer o verdadeiro jornalismo, investigando os fatos em respeito ao leitor, brigando sempre contra qualquer censura. Quer dizer, o jornal todo ‘incomodava’, e talvez o Fraga fosse, naquele momento, apenas o elo mais fraco.”

De fato, o próprio José Guaraci Fraga ressalta que a Folha da Manhã tinha, à época, uma “editoria aberta”: era, segundo ele, um “enclave de esquerda num feudo de direita”. Esse ambiente que propiciava uma relativa liberdade de opinião guiaria o trabalho de Fraga a partir de então, algo notável até hoje. Ao ser questionado sobre os pontos postivos e negativos que vêm como consequência desse tipo de postura, o jornalista assim define: “A vantagem óbvia é poder dizer o que penso. A desvantagem é que, no meu caso, opinar não garante o pão sem adição de açúcares de cada dia. O benefício: depois de décadas fazendo o que não se pode deixar de fazer, isso passa a se chamar ‘trajetória’. Prejuízo, se algum houve, não foi desmotivador”.

Coluna “Bugigangas do Fraga”: Folha da Manhã, 23 de Setembro de 1974.

Na Folha da Manhã, nesse contexto de grande inspiração no meio jornalístico e humorístico local, Fraga e Vasques sentiram-se motivados a tocar adiante um projeto ousado: um suplemento semanal voltado aos quadrinhos. Essa iniciativa, motivada pelo entusiasmo e parceria da dupla, passou a se chamar Quadrão e é simplesmente um dos capítulos mais incríveis e fascinantes da história dos quadrinhos gaúchos – ainda a ser resgatado e amplificado para fins de registro e reconhecimento do grande público.

O Quadrão foi uma iniciativa efêmera, mas de suma importância para impulsionar a criatividade da geração de quadrinistas gaúchos dos anos 1970 como também seu ímpeto em se impor no cenário cultural. Para o próprio José Guaraci Fraga, “o Quadrão é pedra fundamental no ‘boom’ do humor gaúcho. E ele surge num contexto maior: a explosão do humor nacional. É filhote do Pasquim, irmão das publicações paulistas, primo de incontáveis nanicos da época”.

De maneira semelhante como acontecera com a profusão de suplementos e periódicos ilustrados surgidos entre o final do século XIX e o início do século XX, assistiu-se no Brasil, entre os anos 1960 e 1970, o surgimento de uma vasta geração de artistas dispostos ao enfrentamento político por meio do humor gráfico, utilizando tanto os meios ligados aos grandes veículos quanto a imprensa alternativa. Uma parcela significativa dessa geração de autores encontrava-se, à época, no Estado do Rio Grande do Sul. Essa cena local, ainda que irregular e inconstante, já guardava certo histórico até o momento: a produção humorística da Revista do Globo, o incentivo promovido tanto pela revista quanto pela sua editora em torno da ilustração e a curta história da Cooperativa Editora de Trabalho de Porto Alegre (CETPA) foram situações decisivas para estabelecer um certo nível de produção e um ritmo relativamente contínuo relacionado aos quadrinhos na imprensa gaúcha. O surgimento cada vez mais frequente de personagens, a variedade de publicações e a produção cada vez mais autoral e regular sugerem que o cenário dos quadrinhos estabelecido na segunda metade dos anos 1960 era receptivo como talvez jamais fora até então. É colado nesse contexto que se dá o “boom do humor gaúcho” do qual fala Fraga – em que o Quadrão, portanto, tem papel muito relevante.

O Quadrão foi publicado ininterruptamente como um suplemento da Folha da Manhã entre 17 de Agosto de 1974 e 18 de Outubro de 1975 – sempre aos Sábados. Ao todo, nesse intervalo de tempo, o espaço teve 63 edições, partindo de apenas uma página e chegando a três. Fraga relembra: “Eu e o Edgar Vasques tivemos a vantagem do convívio amigo, trampolim pra parceria na criação do suplemento. O Quadrão foi fruto de uma inquietação nossa, a busca de espaço para a expressão de mais artistas gráficos. A maior recompensa foi ver surgir e evoluir uma geração de talentosos cartunistas e chargistas, atuantes até hoje”.

O suplemento contou com diversas seções; uma delas era o espaço para iniciantes intitulado “Santo de casa”. Entre os jovens cartunistas que por lá passaram, esteve Neltair Rebés Abreu, vulgo Santiago (que logo viria a se tornar colega de Vasques e Fraga, entrando na Folha da Tarde), além de outros nomes como Juska (Francisco Juska Filho) e Rekern (Renato Kern). Efetivamente, era para essa seção que eram mobilizados os maiores esforços do Quadrão, mas o suplemento ainda se ocupava de outras funções interessantes que destacavam suas pretensões didáticas e formativas para a “cena”. Frequentemente, por exemplo, o caderno anunciava eventos ligados a quadrinhos, como cursos, lançamentos de livros, eventos acadêmicos e novas iniciativas no campo do grafismo; além disso, eventualmente apresentava outros segmentos que tratavam de explicar aspectos conceituais e históricos dos quadrinhos; Vasques e Fraga ainda demonstravam uma postura agregadora ao acolher, sempre, humoristas ligados não somente ao trabalho gráfico na coluna “Os homens do texto”, destinada a crônicas e outros escritos; somava-se, ainda, a divulgação de trabalhos internacionais no espaço “Do bom e do melhor”. 

Os primeiros dois números do Quadrão encartados, respectivamente, na Folha da Manhã de 17 e 24 de Agosto de 1974.

A consciência acerca de uma movimentação da cena do humorismo local, porém, não parou por aí. Fraga organizou coletâneas de humor naquela mesma década que reuniram vários talentos da charge, da tira e do cartum nacionais, como QI 14 (1975), 14 Bis (1976) e a célebre Antologia Brasileira de Humor (1976), obra de pretensões inconcebíveis para a época, contendo quinhentas páginas e uma vasta compilação da produção nacional do período. O próprio idealizador e curador ressalta a relevância desses projetos, lembrando que a coletânea QI 14 chegou a ser o livro mais vendido na Feira do Livro de Porto Alegre de 1975 e que a Antologia Brasileira de Humor foi, literalmente, uma obra de enormes proporções: dois volumes, contendo 82 autores. A antologia promovia uma proposta de valorização dos artistas locais numa dimensão equivalente à produção gráfica dos grandes centros, trazendo desde os nomes mais consagrados (como Millôr Fernandes, Ziraldo, Sampaulo e Henfil) até os talentos recentes da época (como Edgar Vasques, Laerte, Angeli e Santiago). A proposta da obra talvez seria impensável para os parâmetros atuais, dada a multiplicidade da produção nacional e sua difusão de suportes. Sobre iniciativas como essa, diz o organizador:“Gosto de pensar que aconteceram porque tive ímpeto de fazer e consegui mobilizar cúmplices geniais”.

Em relação ao contexto local, coletâneas editadas e organizadas por Fraga como QI 14, 14 Bis e a Antologia Brasileira de Humor também tinham o intuito de promover a divulgação, fazendo a produção circular para além dos periódicos. As listas dos integrantes de tais livros revelam que, ali, se materializava um projeto de aproximação cada vez mais evidente entre gerações que, aos poucos, ia dificultando propositalmente a separação entre profissionais já conhecidos e estabelecidos de um passado recente e outros artistas a surgirem exatamente ali, em meados dos anos 1970. Novos talentos revelados no Quadrão misturavam-se a figuras já célebres, como Sampaulo, Canini e Sampaio. Edgar Vasques assim resume (em entrevista para o Jornal do MARGS, em 2005): “Nos anos 70, começa a minha geração. Começo a trabalhar em 73, na Folha da Manhã. Aí chega o Fraga, com uma visão extrovertida, o contrário de mim, e inventa o Quadrão (…). Juntamos gerações e, com isso, geramos circulação de informação, uma corrente de transmissão que estava interrompida. E aí não parou mais. (…). Não sabíamos mais quem eram os velhos, eles não sabiam quem eram os novos. Juntou tudo”.

A ideia das obras coletivas no âmbito sul-rio-grandense foi se tornando, a partir dessas primeiras coletâneas, uma proposta recorrente. O fomento à produção, com isso, ia se amplificando. “Era, basicamente, mostrar trabalho. Era se exibir mesmo”, afirma Santiago (em entrevista para a minha pesquisa de doutorado). Surgiram, assim, propostas de circulação restrita como O Ano pelo Avesso (1976) – parceria entre os cartunistas Sampaulo, Santiago e Ronaldo (Ronaldo Westermann) – e outras de alcance um pouco maior, como E o bento levou… (1985), contendo vários artistas.

No âmbito dos livros, José Guaraci Fraga também teve trabalhos publicados somente com a sua autoria, tais como como Punidos venceremos (1980) e o “ensaio crítico” A falta de humor e outras proezas de estilo na obra de Luis Fernando Verissimo (1984), uma sensacional brincadeira publicada em forma de livro sobre a qual é melhor saber pouco antes de ler. Aliás, uma curiosidade sobre a relação com a obra de LFV: Fraga é a “cara” do Analista de Bagé. Literalmente: ele incorpora o personagem na capa de uma das coletâneas de suas histórias e é a real inspiração para a versão em quadrinhos do personagem, desenhada por Edgar Vasques.

Capa da edição de 1981 das histórias do Analista de Bagé; ao lado, o personagem no traço de Vasques: José Guaraci Fraga é o
verdadeiro rosto que inspirou tais versões da figura criada por Luis Fernando Verissimo.

Na trajetória de Fraga, sempre houve um processo dinâmico (por assim dizer) em relação à imprensa – seus formatos e suportes. Em seu caso,  isso significou, muitas vezes, o distanciamento da grande mídia a fim de, primeiramente, buscar espaço e, em outras circunstâncias, adquirir independência e autonomia. Fraga, ao longo da vida, esteve vinculado, assim, tanto à grande imprensa quanto aos veículos mais alternativos.

O tema da imprensa alternativa no Rio Grande do Sul, quando associado aos impressos humorísticos dos anos 1970, tem casos emblemáticos como a revista Pato Macho, publicação editada por Luis Fernando Verissimo e Sérgio Rosa que, aos moldes do carioca Pasquim, tentava produzir um discurso humorístico levemente anárquico que balançasse as estruturas do Regime Militar. A publicação não durou muito – 15 edições (de Abril a Julho de 1971) –, mas marcou época. O periódico abrigaria jornalistas, cartunistas, humoristas e ilustradores que, em grande parte, conviviam em círculos próximos, como os jornais da Companhia Caldas Júnior, onde Fraga viria a trabalhar. Antes de entrar na empresa, porém, ele já tentara publicar no Pato Macho, mas sem sucesso, dadas as circunstâncias efêmeras da revista; no ano seguinte, porém, conseguiu emplacar uma publicação justamente no Pasquim. Posteriormente, em 1974, Fraga inaugurou seu espaço na Folha da Manhã.

Ícones da imprensa alternativa, O Pasquim e o Pato Macho claramente inspiraram outros projetos, como foi o caso do Coojornal, mais uma iniciativa marcante do jornalismo gaúcho da qual José Guaraci Fraga participou. O Coojornal foi concebido na esteira de outra iniciativa, a Cooperativa de Jornalistas de Porto Alegre, que fundaria o periódico mensal em 1976 (houve também uma circulação restrita de um informativo independente lançado em 1975, também batizado como Coojornal; o boletim foi organizado pelos mesmos representantes da Cooperativa de Jornalistas que lançariam a versão definitiva do mensário no ano seguinte). A publicação é lembrada até hoje com vivacidade pelos seus participantes. Santiago, por exemplo, comenta (na mesma entrevista referida anteriormente) que “o Coojornal era totalmente livre, o que a gente pensava, saía”. Tal empreitada jornalística foi marcada pela luta e pelo enfrentamento contra a Ditadura Militar instaurada no Brasil daquele tempo. Estava claro, também, que as ousadias do Coojornal, principalmente no campo do humor gráfico, ainda eram reflexo, de certa forma, da experiência da Folha da Manhã e do Quadrão editado por Fraga, como assinala a introdução do livro Coojornal: um jornal de jornalistas sob o regime militar (organizado por Rafael Guimaraens, Ayrton Centeno e Elmar Bones): “O humor propriamente dito era uma das características que o Coojornal herdou da Folha da Manhã. O Quadrão abriu espaço para uma nova geração de humoristas e ilustradores comandados por José Guaraci Fraga e Edgar Vasques. (…) Além de um amplo espaço em cada edição, em cartuns, charges e caricaturas, foram produzidas duas edições especiais voltadas ao humor”.

A ampliação do espaços de atuação para além da grande imprensa é uma razão objetva para que o trabalho de figuras como Guaraci Fraga se mantenha como algo permanente. Hoje, por exemplo, entre outros espaços, Fraga publica colunas (lindamente ilustradas por outro grande talento do quadrinho nacional, o gaúcho Rafael Sica) no jornal Extra Classe, mensário ligado a uma entidade de classe, o Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro-RS). A imprensa sindical, da qual fazem parte publicações como o Extra Classe, paga tributo, justamente, à imprensa alternativa que se fortaleceu no final dos anos 1970 da qual José Guaraci Fraga fez parte. 

É a partir do acúmulo dessas experiências que surge o projeto mais recente do humorista, o Micuim. Para o editor, o trabalho surge quase como uma forma de militância, um foco de resistência humorística: “um jornal de graça – com trocadilho – para o brasileiro privado de motivos pra rir. Uma publicação viável, sem custo de impressão, acessível a qualquer leitor: sem sair de casa nem gastar, é uma delivery humorística”

É curioso pensar que, mesmo diante disso, José Guaraci Fraga também reconhece que “o humor perdeu impacto, não faz nem cosquinha nos poderosos” – observando, todavia, que isso está igualmente atrelado a uma grande ausência dessa linguagem nos grandes espaços de mídia. Há muitos interesses em jogo; há muitos potenciais incômodos e desconfortos; e há, igualmente, a desautorização das diretorias e editorias em torno de trabalhos que se propõem a um real enfretamento crítico.

Paradoxalmente, se os grandes jornais, em sua maioria, não dão mais grande espaço à sátira e ao humor (gráfico, inclusive), a internet e as redes sociais estão recheadas de artistas produzindo e compartilhando seus trabalhos. Resta saber se isso tem alcance e impacto real, como já houve em outros tempos: “Talentos e senso crítico não faltam, o que falta é vergonha na cara dos alvos de sempre. Por conta da corrupção dominante e da canalhice massacrante, o humor provoca, denuncia, mas sem influir. Já nas redes sociais, esse turbilhão opinativo, o humor contribui, brilha e mobiliza. E só a mobilização coletiva pode alterar a mesmice, vulgo idiotice”, diz Guaraci Fraga.

A admiração que esse grande frasita da imprensa gaúcha carrega de seus pares talvez venha, em grande parte, disso: seu trabalho parece sempre intuir a necessidade de uma mobilização coletiva. Como colunista, naturalmente, ele transparece sempre sua própria visão, sua individualidade; seus textos e seu humor têm a marca da subjetividade. Entretanto, há também essa capacidade de agregar – de promover, como poucos, trabalhos coletivos que buscam algum tipo de transformação, seja em livros, exposições ou outras iniciativas. Sempre com humor. Nesse sentido, fiz uma pergunta meio óbvia e tosca para o Fraga poder destilar toda a sua verve: por que se lançar numa empreitada como o Micuim? Ele responde: “E por que não? O desconsolo nacional (com Bozonaro e afins) e a inércia com a pandemia criaram um baita azedume social. O humor não chega a ser um antídoto a nada disso, mas reagir com galhofa e crítica é – sempre foi, sempre será – atitude das mais saudáveis. E no rol das empreitadas, é apenas mais uma, a mais trabalhosa dela”.

Os 3 números já lançados do Micuim podem ser acessados pelo site do Brasil de Fato (www.brasildefato.com.br).


Vinícius Rodrigues é professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela UFRGS, sempre estudando quadrinhos e humor gráfico. É autor de diversos artigos e contribuições em livros, em revistas acadêmicas e na imprensa. [email protected]

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