Relampo

mas pode me chamar de raio #2

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mas pode me chamar de raio #2

Um pouco de rio linguagem

Na Livraria

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Ao folhear livros numa livraria, me dou conta de tudo o que nunca lerei, ainda que o pudesse ou quisesse. Recoloco-os então piedosamente na estante, com esta ideia em mente: que a renúncia à minha curiosidade seja o reconhecimento do que permanece virtual nos livros – esse poder que eles têm de influir sobre nós, mesmo estando fechados.

Diários de Verão 19/02

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Ao ler o jornal de manhã, sinto o peso do mundo e penso no meu futuro neto. O mundo impõe sua lei a quem nasce? Mas quem nasce é que devia impor sua lei ao mundo – lei de sua presença, de sua simples esperança.

Diários de Verão 25/02

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Nasceu Guilherme. Através do vidro do berçário eu o vi nos braços do João. Os olhos um pouco mareados talvez pelo excesso de luz. Espasmos nos dedos longos como sinais de uma língua aquática.

Trechos do livro de Paulo Neves, nosso entrevistado da semana


Podcast para leitores


Já recomendei o podcast History of Literature para quase todos os meus amigos. A resposta em geral não foi muito animadora, mas vou tentar de novo, só porque os leitores da Parêntese são inteligentes e merecem. O lance é que o apresentador Jacke Wilson tem o hábito de derivar um pouco enquanto vai falando sobre livros e autores de sua preferência (só papa fina, claro). Nem todo mundo tem paciência para tanta conversa – o que, obviamente, não é o meu caso. Adoro as viagens mais ou menos idiossincráticas do apresentador, que nunca soa como um erudito formado em Oxford, mas como um sujeito comum genuinamente interessado em dividir com os ouvintes a sua paixão por literatura – sem aquele tédio (argh!) de quem acha que já leu tudo o que precisava para entender o mundo. Navegue pelos episódios e encontre seus autores preferidos. Proust foi o que me pegou, mas o cardápio de opções é farto (já são quase 300 episódios). Agora o carteiraço final: History of Literature foi escolhido o melhor podcast sobre literatura dos EUA em 2020. É mole? (Cláudia Laitano)


Operação COCOVID

Senador, de onde o senhor tirou esse dinheiro? Tirei do cu.

“Dinheiro na cueca é coisa do passado”, um publicitário dirá.

Seguindo a filosofia de Papillon, encheu o cu de dinheiro.

O senador inventou uma nova moeda: o buttcoin.

Aplicou na poupança, investiu nos fundos, botou no cofrinho e recolheu a rachadinha.

(Um grupo qualquer no zap zap)


Devagar, devagarinho

Depois de slow food, slow movement, slow journalism, chegou o slow content. To aqui pensando qual será a próxima onda cujo rebote vai ser um movimento para desacelerá-la… Não é o caso de, já de saída, surfá-la devagarinho? (Marcela Donini, humana querendo ser tartaruga)


Coisa de índio – Homenagem ao 12 de outubro

De acordo com o mito, o homem branco chegou na América (à que também inventou), para trocar espelhos por ouro. Com o poder que lhe dava o cavalo, a armadura e a espingarda, acreditou que aportara num tempo arcaico que precisava da espada e da cruz para sair da ignorância e das trevas.

 Em “O Eclipse” (1959), Augusto Monterroso, autor do célebre conto “O dinossauro”, relata a anedota de frei Bartolomé Arrazola, que se perdera na densa floresta da Guatemala.

Capturado pelos maias, imaginou uma treta para escapar da morte segura: tendo lido minuciosamente Aristóteles, lembrou que coincidentemente naquele dia estava previsto um eclipse total de sol.

 Com essa informação, ameaçou os índios com o escurecimento do mundo para sempre, caso ele fosse sacrificado.

 Duas horas depois, a pedra do Chac Mool brilhava ensanguentada, enquanto um dos indígenas recitava calmamente “as infinitas datas em que se produziriam eclipses solares e lunares, que os astrônomos da comunidade maia tinham previsto e anotado em seus códices sem a valiosa ajuda de Aristóteles”.

(Víctor Lemus)


 

“Tu te tornas eternamente responsável pelas tuas frases”.

São Zé-Perry e Grupo Matinal Jornalismo
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