Reportagem

A doença do norte

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A doença do norte Fotos: Márcio James/Amazônia Real

A espessa e dura margem de um pulmão vitimado por alguma doença tem força para ser imagem correlata à geografia de uma Amazônia mutilada pelos ciclos de exploração vigentes neste e noutros tempos.

Com o espírito da modernização do final do século XIX, os modelos de exploração e povoamento amazônicos tentaram acompanhar o ritmo industrial das demandas nacionais e estrangeiras pela matéria-prima produzida na região. Após ser o quintal das ditaduras brasileiras e área de acirrados conflitos rurais e desmatamento, a Amazônia no início dos anos 90 foi alçada ao título de “pulmão do mundo”, um estratagema político das autoridades globais e entidades de proteção à natureza para sublinhar a importância do ecossistema e bioma amazônicos. Não parece absurdo notar que, em face da pandemia do coronavírus no país, a primeira região a agonizar em sufocamento seja o norte. 

Por falta de estruturas contínuas de assistência médica e sanitária para o cotidiano da população e pelos impactos específicos da pandemia, os estados da região padecem pela velocidade de contaminação do vírus e seus altos graus de letalidade. Manaus, capital do Amazonas, muito conhecida em virtude do projeto desenvolvimentista da Zona Franca, agora é tristemente citada em diversos meios de comunicação do mundo inteiro como o ambiente de mutação e surgimento de uma cepa ainda mais perigosa do coronavírus. 

Desde o início da pandemia, o norte tem passado por graves crises sociais. Em novembro de 2020, um incêndio destruiu o transformador responsável por garantir o fornecimento de energia para quase 90% da população do estado do Amapá. A situação durou cerca de 25 dias e resultou em danos sociais e econômicos irreparáveis. 

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A pergunta feita por muitos habitantes da região estimulou uma vez mais a reflexão sobre as desigualdades geopolíticas do país: fosse o apagão no Rio de Janeiro ou em São Paulo, o processo teria se dado da mesma maneira vagarosa, desorganizada e sem imediatas resoluções? 

A população nortista tem intimidade com o descaso das autoridades e conhece sua posição no mapa das importâncias: dentro dos porões do país somos como um animal de procriação, reproduzindo compulsoriamente recursos para benefício de outros corpos e de outras territorialidades.        

Nas últimas semanas, o estado do Amazonas ficou novamente no centro dos debates sobre a pandemia, correram o país notícias de poderosos furando a fila de vacinação, confusão de nomes e repetição de números de CPF na lista de vacinados, esgotamento das unidades públicas de saúde e falta de cilindros de oxigênio.

Manoel João Castro Miranda, industriário, habitante de Manaus, nos conta sobre as informações distorcidas dos meios de comunicação e da falta de alinhamento entre o governo municipal e o estadual, que não conseguiram falar a mesma linguagem. “Por isso tornou-se impossível saber quem diz a verdade e qual é o quadro real sobre o que está acontecendo. A ausência da consolidação de uma rede de informações sérias e de fontes centralizadas contribuiu fundamentalmente para a demora na tomada de decisões proativas”.

De acordo com Manoel, as fake news tiveram muita adesão na cidade. “Disseram que o vírus não resistiria ao calor da região norte. Isso pode ter provocado certa demora para as autoridades locais tomarem as medidas cabíveis”.

A questão da logística complexa da região também dificultou o planejamento de ações mais eficazes para a problemática dos cilindros de oxigênio e para a campanha de vacinação: por causa da extensão territorial da região norte, torna-se mais trabalhoso produzir uma linha eficaz de atendimento e conexão entre as capitais e os interiores.       

Manoel ainda nos conta que a população não respeitou o toque de recolher imposto pelas autoridades. Grandes aglomerações podem ser vistas nas ruas e no porto de Manaus. “A pressão empresarial é imensa, os empresários alegam que vão quebrar e vão ter prejuízos, isso impede o toque de recolher e a realização de outras políticas voltadas para combater a circulação do coronavírus”.

Para a editora e redatora Tammy Rosas Ramos, também habitante de Manaus, a cidade passa desde 2020 por uma situação desesperadora e caótica. A normalização da pandemia, somada ao descuido do poder público, faz com que as pessoas vejam as outras morrerem sem dar a mínima importância: “Não faz a mínima diferença, as pessoas viraram números”.

Tammy lembra que desde o ano passado a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FSV/AM) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) alertaram para o risco das festas de final de ano. “Já havia a noção de que os casos iriam aumentar. No começo de janeiro a ocupação dos leitos já estava em 95%, e já havia sobrecarga de equipes médicas”. A escassez de cilindros de oxigênio começou a ser divulgada nas redes sociais no dia 15 de janeiro; enquanto as pessoas começaram a morrer em maior número e cada vez mais rápido, faltava organização de gestão e transparência do poder público. 

A crescente de mortes em Manaus e nas demais cidades do norte segue em ritmo acelerado. A cepa variante surgida na região se espalha também rapidamente pelo restante do Brasil. As fronteiras já estão ameaçadas. Segundo pesquisa levantada na última semana de janeiro pelo Tribunal de Contas dos Municípios do Pará (TCMPA), 67% das cidades paraenses não têm estoques suficientes de oxigênio para atender a demandas urgentes. A doença histórica do norte brasileiro se manifesta em toda cova aberta, em todo caixão lacrado. O grande pulmão amazônico entra em colapso diante dos olhos de um mundo estarrecido, e as autoridades públicas nacionais, embora ofegantes, insistem em ignorar a tragédia anunciada.  


Paloma Franca Amorim nasceu no ano de 1987 em Belém do Pará. Publicou crônicas ao longo de dez anos no jornal paraense “O Liberal”. Em 2017 reuniu e lançou essa produção em um livro chamado Eu preferia ter perdido um olho, publicado pela Alameda Editorial. Prepara o lançamento do romance O Oito no primeiro semestre de 2021, pela mesma editora. Além de escritora, é artista visual e professora. Filha de Antonio e de Darcy.

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