Reportagem

Acervo Hardy Vedana decompõe-se no esquecimento

Change Size Text
Acervo Hardy Vedana decompõe-se no esquecimento Foto: Poti Silveira Campos

Hardy Vedana sonhou com a criação do Museu da Imagem e do Som de Porto Alegre. Além de movimentar-se para tornar o projeto uma realidade – chegou a fundar uma associação de amigos da futura entidade –, organizou um notável acervo da história musical e fonográfica regional. O museu, que nunca saiu do papel, seria instalado no imóvel da Casa A Eléctrica, a segunda fábrica de discos planos fundada no Brasil, inaugurada em Porto Alegre em 1914. Hoje, enquanto o prédio da Eléctrica desaba no bairro Glória, o acervo, acumulado por Vedana ao longo de mais de seis décadas de trabalho, se perde na decomposição do esquecimento.

Decomposição é palavra que ajuda a explicar o triste destino do material reunido pelo músico, compositor, escritor, pesquisador, desenhista e ativista cultural – entre outras atividades –, nascido em Erechim, no norte do Rio Grande do Sul, em 1928. Desde a morte de Vedana, em 2009, em Porto Alegre, o acervo passou das mãos da família para a prefeitura da Capital gaúcha e, posteriormente, para o Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, administrado pela Secretaria de Estado da Cultura. A cada transferência uma parte do material desaparece.

De acordo com o neto Mateus Vedana, 32, o acervo foi entregue à prefeitura logo depois da morte do avô. “Não tínhamos espaço para guardar tanta coisa”, diz. Nem tudo foi entregue à administração municipal. Projetos de cerca de duas dezenas de livros teriam permanecido com a família, incluindo títulos como “Cabarés do meu tempo”, “Cem anos de música popular em Porto Alegre”, “História das litografias em Porto Alegre (1872 – 1923)”, “A grande obra de Marcelino Corrêa” e “Pequenos álbuns de música dos compositores porto-alegrenses”. Publicados, Vedana deixou três títulos: “Jazz em Porto Alegre” (1987), “Octávio Dutra na história da música de Porto Alegre” (2000) e “A Eléctrica e os discos Gaúcho” (2006).


Acervo de Hardy Vedana no Museu de Comunicação Hipólito José da Costa (Foto: Poti Silveira Campos)

Biografias e sindicatos

O jornalista Gilmar Eitelwein, 61, colaborou decisivamente na produção e edição da biografia de Octávio Dutra e do trabalho sobre a Eléctrica, certamente a obra de maior fôlego de Vedana. Coordenador de Música na Secretaria Municipal da Cultura em 1997 e 1998, Eitelwein contribuiu para a organização do acervo, inclusive cedendo uma sala no Auditório Araújo Viana para Vedana trabalhar com o material. Possivelmente, entre os projetos editoriais que estariam com a família está o que jornalista descreve como “umas duas dezenas de biografias de músicos que Vedana tinha a ideia de lançar como fascículos”.

Eitelwein, que também é músico, destaca que Vedana produziu um volume considerável de pesquisas sobre artistas ligados à formação musical de Porto Alegre, recolhendo informações, partituras e gravações. Ele destaca ainda a atuação do parceiro em defesa da categoria, tendo presidido o sindicato estadual e fundado seu equivalente no município. “Pesquisador e historiador, igualmente trabalhou muito por isso. Tornou-se nosso presidente honorário”, afirma.

Hardy Vedana acumulou um número impressionante de discos, partituras, gravações (Foto: Tânia Meinerz)

O museu que não existiu

O conjunto que passou ao controle da prefeitura, formado principalmente por discos, partituras, gravações, equipamentos de reprodução, manuscritos, publicações e recortes de jornais e revistas, constituiria o patrimônio inicial do Museu da Imagem e do Som no imóvel da Casa A Eléctrica, tombado desde 1996. O museu, como se sabe, não aconteceu. O material ficou depositado na Casa Godoy, na avenida Independência, até ser entregue ao Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, em dezembro de 2010. A Casa Godoy é outro patrimônio histórico e arquitetônico da cidade no aguardo de alguma verba milionária que estimule o Executivo a tomar alguma iniciativa.

A transferência para o Estado parece ter sido bem organizada, com listagem de materiais (veja abaixo a relação geral), catalogação e armazenamento em armários de metal. O diretor do Hipólito da Costa, Welington Machado da Silva, 27, elogia a entrega: “O acervo veio da maneira correta”. Silva salienta que esse não é o procedimento usual, com os museus como o Hipólito funcionando como um local de “desova” de materiais vindos de “algum lugar que não os comportam mais”.

Mesmo com a entrega de “maneira correta”, no repasse de um poder para outro houve nova decomposição da coleção Vedana. As partituras, por exemplo, não foram encontradas por Silva, ainda que informações divulgadas na época do repasse as incluíssem entre o que havia sido entregue ao Museu de Comunicação. Também desapareceram equipamentos de reprodução adequados para rodar discos de 78 rotações, como aqueles gravados pela Eléctrica – esses equipamentos sequer constam da lista de materiais transferidos.

O museu que perdeu a memória

Há a possibilidade de as partituras estarem extraviadas dentro do prédio do Hipólito. No comando do museu desde 2019, Silva, museólogo formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, admite que uma das dificuldades da instituição seja a perda da própria memória, dos registros de entrada e destino de itens para lá encaminhados. Um problema que o Hipólito enfrenta de longa data e que se revela significativo para uma casa que tem o compromisso justamente de preservar a memória.

“Na casa do Vedana, essas partituras ocupavam um armário de dois metros por dois metros”, afirma o engenheiro de áudio Marcos Abreu, 59, colaborador de trabalhos desenvolvidos pelo pesquisador, como o livro sobre a Eléctrica. Na obra de 252 páginas, em que Vedana esmiúça a experiência da Eléctrica, Abreu foi o responsável pela remasterização de fonogramas e pela edição dos três CDs que acompanham o livro, contendo 52 canções lançadas pela gravadora. Abreu igualmente recorda de equipamentos como duas eletrolas e de um toca-discos profissional da marca Garrard, modelo 301, que integravam o acervo Vedana.

Um projeto desenvolvido pelo Museu de Comunicação aproximou Abreu novamente do acervo do pesquisador. O engenheiro foi contratado para digitalizar 120 discos da Casa A Eléctrica, pertencentes ao Museu e que estão entre os itens mais procurados para pesquisa na instituição. Desses 120 discos, de acordo com Abreu, 12 seriam oriundos da coleção Vedana; nas contas de Silva, seriam 44 ou 46. A tarefa, de qualquer maneira, já foi realizada. No Hipólito, além dos discos gravados pela Eléctrica, estão mais de 11 mil vinis reunidos por Vedana à espera de catalogação e avaliação geral. Para essa tarefa, Silva diz ainda não dispor de recursos financeiros. No projeto do Museu da Imagem e do Som, Vedana previa reunir todos os registros de áudio e som depositados no Hipólito.

Em 2012, mais de um ano depois de o acervo Vedana ter sido entregue pela prefeitura ao Museu de Comunicação, visitei e fotografei o interior da Casa Godoy, por interesse pessoal. As imagens que obtive registram cenas de abandono tanto do imóvel quanto de objetos largados em várias peças da construção. Agora, passados nove anos, enquanto trabalhava nessa reportagem, conversando com o neto Mateus e com engenheiro Marcos Abreu, lembrei de uma das fotos que fiz na cozinha da casa, onde aparecem caixas de discos, eletrolas, um televisor e outras coisas mais. Mostrei a imagem para ambos. A eles pareceram que, sim, que ali estavam itens decompostos da história fonográfica de Porto Alegre que um dia Hardy Vedana sonhou preservar.

O acervo entregue

Relação de materiais entregues pela prefeitura ao Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, conforme divulgado pelo Gabinete de Comunicação da administração municipal em dezembro de 2010:

a) 64 (sessenta e quatro) discos integrando uma coleção especial, composta por unidades da Casa “A Electrica”, selos Artigas, Gaúcho e Phoenix. 

b) 11.673 (onze mil seiscentos e setenta e três) discos, sendo 10.862 (dez mil oitocentos e sessenta e dois) avulsos e 811 (oitocentos e onze) inseridos em 174 (cento e setenta e quatro) álbuns, todos devidamente numerados e catalogados;

c) Em torno de 800 discos em processo de catalogação;

d) 1 (um) conjunto de 249 fitas cassete, 20 fitas de rolo, 5 fitas VHS, 64 CD’s e 11 troféus;

e) 6 caixas de material em papel, contendo manuscritos, documentos, partituras, recortes de jornal e catálogos.

f) 1 (um) livro “A Electrica e os Discos Gaúcho” de Hardy Vedana.

g) 5 (cinco) cópias da base de dados em CD (sistema Microsoft Access), com a indexação de todo o acervo, trabalho desenvolvido pela Coordenação de Memória Cultural/Secretaria Municipal de Cultura.

Os discos estão acondicionados em oito armários de aço adquiridos especialmente pela Secretaria Municipal de Cultura. As demais peças estão acondicionadas em caixas. LPs em processo de catalogação deverão ser entregues ao Museu de Comunicação Social, acondicionados em dois armários de aço, no primeiro semestre de 2011.

Saiba mais sobre Hardy Vedana

Batizado Ardy Antonio Vedana, ele tornou-se músico com experiência em vários instrumentos. Em Porto Alegre, descobriu o jazz e se destacou como clarinetista. Adotou o nome artístico Hardy inspirado em filmes americanos. Integrou a Banda Municipal de Porto Alegre e outros grupos locais. Atuou na área de publicidade como desenhista e diretor de arte. Nos anos 1960, ganhou popularidade na Capital gaúcha ao liderar uma banda de dez músicos que tocava na carroceria de um caminhão, para divulgar uma loja de confecções. 

Em 1997, funda a Associação Museu da Imagem e do Som de Porto Alegre, liderando uma campanha pelo tombamento do edifício onde funcionou a fábrica de discos A Elétrica. Teve uma coleção de carteiras de cigarro, incluindo pedras de litogravura para impressão das embalagens – acervo que terminou por vender. Morreu aos 81 anos, vítima de uma isquemia, deixando uma viúva, uma filha, quatro netos e, então, um bisneto.

O pesquisador Hardy Vedana sonhou com a criação do Museu da Imagem e do Som de Porto Alegre (Foto: Tânia Meinerz)


Poti Silveira Campos – Jornalista e escritor

Gostou desta reportagem? Garanta que outros assuntos importantes para a sociedade gaúcha sejam abordados: seja nosso assinante.

Reportagens investigativas e de grande importância para a democracia como esta só são possíveis graças ao investimento dos nossos assinantes premium. Além disso, os nossos assinantes premium têm acesso a todo o conteúdo do Roger Lerina, à revista Parêntese, à versão completa da NewsMatinal, a descontos nos nossos cursos e a muito mais. Com o preço de dois cafezinhos por dia você tem mais informação, cultura e ainda ajuda o jornalismo local independente. Assine!
Se você já é assinante, obrigada por estar conosco no Grupo Matinal Jornalismo! Faça login e tenha acesso a todos os nossos conteúdos.

Compartilhe esta reportagem em suas redes sociais!
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on facebook
Share on email
Se você já é assinante, obrigada por estar conosco no Grupo Matinal Jornalismo! e tenha acesso a todos os nossos conteúdos.

Compartilhe esta reportagem em suas redes sociais!
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on facebook
Share on email

Gostou desta reportagem? Ela é possível graças a sua assinatura.

O dinheiro investido por nossos assinantes premium é o que garante que possamos fazer um jornalismo independente de qualidade e relevância para a sociedade e para a democracia. Você pode contribuir ainda mais com um apoio extra ou compartilhando este conteúdo nas suas redes sociais.
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on facebook
Share on email
Se você já é assinante, obrigada por estar conosco no Grupo Matinal Jornalismo! e tenha acesso a todos os nossos conteúdos.

Compartilhe esta reportagem em suas redes sociais!
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on facebook
Share on email
RELACIONADAS
marca-parentese

Abra um parêntese no seu fim de semana com jornalismo e boas histórias. Deixe seu email e receba toda semana as newsletters da revista Parêntese.

Escolhe um dos combos

Pagamento exclusivo via cartão de crédito