Reportagem

O Jogo da Morte — duas versões de uma história ucraniana

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O Jogo da Morte — duas versões de uma história ucraniana © Original Museum Kiev

A invasão da Ucrânia pela Rússia é mais um ato desumano que a humanidade é capaz de perpetuar. Dezenas deles conhecemos pelos livros de história — ah, se tivéssemos aprendido com eles… Outros tantos vimos via TV ou, nos últimos anos, online, via internet. Às vezes até os vivenciamos, na dor que a empatia nos ensina a sentir.

O certo, porém, é que nenhuma guerra tem sentido para quem sofre com ela. Às vezes até por quem a disputa, no front. Como disse o piloto alemão Erich Hartmann, “a guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem nem se odeiam se matam por decisões de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam”.

Também é mais do que certo que quem sofrerá com o conflito do Leste Europeu — assim como quem está penando com a guerra no Iêmen (conflito esquecido pela mídia ocidental) — é o povo. Sempre foi assim. E assim será.

É o homem e a mulher simples, que labutam dia a dia para sobreviver nesse mundo muitas vezes cruel, quem mais sente os horrores dos conflitos armados.

São pessoas que irão vivenciar uma disputa que, apesar de interferir diretamente nos seus cotidianos, não tem nada a ver com suas vidas.

São indivíduos como aqueles jogadores de futebol de Kiev que, em 1942, tiveram a coragem de vencer diversos times alemães em um torneio organizado pelas forças nazistas que ocuparam a Ucrânia em meio à Segunda Guerra Mundial (1939–1945).

Por isso, vale conhecer a lenda e a história mais próxima daquela realidade para entendermos mais uma vez como uma guerra atinge a vida das pessoas que nada têm a ver com os desejos daqueles que comandam, de dentro de salões cuidadosamente decorados, a vida de milhões.


A lenda

O filme O Homem que Matou o Facínora tem uma frase que talvez resuma a história que se popularizou como o Jogo da Morte. Em um trecho do longa de John Ford, lançado em 1961, um dos personagens, jornalista, diz:

– Quando a lenda supera a realidade, publica-se a lenda.

E foi a lenda que tornou conhecida a equipe de futebol ucraniana que encarou os invasores nazistas no verão de 1942. A versão perpetuada pelo regime stalinista, que comandava a então União Soviética, e pelos moradores de Kiev, cidade tomada pelo exército da Alemanha em 1941, sobreviveu até recentemente.

Tanto, que foi imortalizada em Futebol ao Sol e à Sombra (L&PM, 1995), do uruguaio Eduardo Galeano, bem como por outros jornalistas, escritores, historiadores e pesquisadores. Galeano resumiu no seu já clássico livro:

“Um monumento lembra, na Ucrânia, os jogadores do Dínamo de Kiev de 1942. Em plena ocupação alemã, eles cometeram a loucura de derrotar uma seleção de Hitler no estádio local. Tinham sido avisados:

– Se ganharem, morrem.

Entraram resignados a perder, tremendo de medo e de fome, mas não puderam aguentar a vontade de ser dignos. Os 11 foram fuzilados vestidos com as camisas no alto de um barranco, quando terminou a partida”.

Uma história forte, com certeza. Tão forte quanto a real, que ficou anos escondida porque, para o governo soviético, era mais importante usar a lenda do que a realidade como propaganda.


A versão mais completa

Anos depois de ser imortalizada pelo craque charrua das letras, parte da verdade do Jogo da Morte veio à tona em outro livro, Futebol & Guerra — resistência, triunfo e tragédia do Dínamo na Kiev (Zahar, 2004) ocupada pelos nazistas. Lançada originalmente 2001 pelo jornalista escocês Andy Dougan, a obra traz detalhes da história.

Com base em ampla pesquisa em documentos e reportagens de jornais da época, bem como relatos de testemunhas, Dougan conta como viviam os kievanos e os ucranianos, naquele período. Como mariscos, estavam entre a ocupação da União Soviética stalinista e a invasão nazista.

Em meio à investida que tomou e, praticamente, destruiu a cidade em 1941, todas as atividades cotidianas de Kiev deram lugar ao caos. Após a conquista, o exército invasor, apoiado por parte da sociedade local, de viés nacionalista e antissoviética, começou a trabalhar para dar certo ar de normalidade à vida.

Algumas fábricas, principalmente as de alimentação, foram reabertas, bem como eventos sociais foram retomados.

Nisso, surge na Padaria nº 3 um ponto de encontro de atletas. Responsável pelo local, Iosif Kordik, era fã de esportes e passou a contratar todos que encontrava. Dessa forma, ao deparar com Mykola Trusevych, goleiro do Dínamo, resolveu montar um time de futebol.

Foi assim que nasceu o Start FC — palavra ucraniana que tem o mesmo significado da inglesa: “começo”. Em alguns dias, Trusevych reuniu outros sete boleiros do seu clube (Mikhail Svyridovskiy, Mykola Korotkykh, Oleksiy Klimenko, Fedir Tyutchev, Mikhail Putistin, Ivan Kuzmenko e Makar Goncharenko) e três do Lokomotiv, também de Kiev (Vladimir Balakin, Vasil Sukharev e Mikhail Melnyk).

Em paralelo a isso, o jornalista Georgi Shvetsov, ex-jogador e técnico do Rukh, time criado entre nacionalistas e colaboracionistas, teria convencido os invasores da necessidade de criar um torneio de futebol. O objeto era dar ares de normalidade à sociedade kievana.

A competição teve, além do Rukh, é claro, e do Start FC, equipes ligadas aos invasores — dois formados apenas por alemães (um deles da Luftwaffe, a temida Força Aérea de Adolf Hitler), outros dois times da guarnição húngara e um último de soldados romenos.

Segundo Dougan e os registros históricos, as partidas ocorreram entre 7 de junho e 16 de agosto. O Start ganhou todas — 7 a 2 sobre o Rukh; 6 a 2 contra a primeira equipe húngara; 11 a 0 nos romenos; 6 a 2 no primeiro time alemão; 5 a 1 e 3 a 2 sobre outro grupo de húngaros; 5 a 1 e 5 a 3 sobre os alemães do Flakelf — time da Luftwaffe, cujo nome significava os “11 (elf) da bateria antiaérea (flak); e nova vitória sobre o Rukh, 8 a 0 dessa vez.

Na segunda partida contra o Flakelf, os jogadores do Start receberam a visita de um oficial alemão no vestiário improvisado. Empertigado no uniforme negro da SS, ele disse que seria o árbitro da partida e pediu um jogo limpo — o que não ocorreu, é claro, com os nazis dando botinadas a torto e a direito –, além de ordenar que os jogadores fizessem a saudação “heil, Hitler” ao cumprimentar os adversários.

Os jogadores kievanos, que já estavam nervosos, ficaram ainda mais. Mas decidiram não saudar os oponentes dessa forma. Ao entrar em campo e se perfilar antes da partida, os 11 ucranianos ergueram o braço direito e gritaram de uma só vez: “fizcultcura” (palavra que significa “viva o esporte”).

O escocês conta, em seu livro, que a cada partida o ânimo dos moradores de Kiev melhorava. Vitória após vitória, o Start passou a ser visto como um foco de resistência. Por outro lado, esse clima de otimismo era repudiado por nacionalistas colaboracionistas como Shvetsov, que viu seu time perder duas vezes para os “padeiros”.

A revanche que não veio em campo, veio nos gabinetes alemães. Shvetsov convenceu os oficiais invasores a extinguir qualquer possibilidade de surgir, por meio do Start, uma insurgência. Assim, dias depois da última partida, oficiais da Gestapo, a temida política secreta de Hitler, foram à Padaria nº 3 e prenderam os jogadores.

Sob alegação de que pertenciam ao NKVD (Ministério do Interior soviético), todos foram levados sob custódia. Passaram por sessão de tortura — Korotkykh teria morrido assim — e, depois, foram encaminhados ao campo de trabalhos forçados de Syrets. Kuzmenko, Klimenko e Trusevich acabariam sendo executados em fevereiro de 1943.

A história relatada por Dougan é tão ou mais forte do que a lenda propagada pela URSS e registrada em diversos livros e reportagens ao longo dos anos, além de ser tema do monumento citado por Eduardo Galeano em seu livro. Para os soviéticos, porém, a verdade tinha tom de colaboracionismo por parte dos jogadores do Start, por terem disputado a competição organizada pelos invasores.

Como conta o escocês, no entanto, os boleiros queriam apenas praticar o esporte que amavam, como forma de enfrentar o terror vivido naqueles dias.

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