Reportagem

Por um pedaço de chão

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Por um pedaço de chão Viviane Kaingang, 23 anos
Fotos: Theo Tajes No dia 6 de março, um domingo, cerca de 50 indígenas ocuparam o prédio em ruínas que fica em frente ao Campus Central da UFRGS, na entrada do Túnel da Conceição. A ideia era permanecer ali até a Universidade abrir conversações sobre uma demanda que já vinha desde 2008, data do ingresso dos primeiros estudantes indígenas na UFRGS, ainda antes da implementação da política de cotas: a criação da Casa do Estudante Indígena. A ocupação que mobilizou pessoas das etnias Kaingang, Xokleng e Guarani, e que contou com a adesão de movimentos sociais, chegou ao fim depois de 22 dias. Em 28 de março, a  Pró-Reitoria de Extensão e a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis da UFRGS informaram ao Coletivo dos Estudantes Indígenas que a Universidade cederia a eles o antigo prédio da creche, desativado desde antes da pandemia, quando o atendimento aos filhos dos funcionários foi trocado por um discutível auxílio-creche. Essa conversa com duas das lideranças do movimento, a estudante de Direito Viviane Kaingang e a pajé Kanté Kaingang, aconteceu durante a ocupação. São relatos das necessidades e das urgências de um povo que merece melhor tratamento, tanto por parte dos governos – e o atual sequer merece ser chamado de governo -, quanto da sociedade branca. Já passou do tempo. Há muito tempo.  “A UFRGS se vangloria do acesso, mas não pensa na permanência do indígena”. Viviane Kaingang, 23 anos, estudante de Direito, é uma das jovens lideranças dos estudantes indígenas da UFRGS. Durante a ocupação, alternou as tarefas da militância com os cuidados com os parentes e as crianças. Parentes dela, ensinou Viviane, são todos os indígenas, já que todos têm a mesma origem. Os verdadeiros donos de um país que vive há séculos de olhos fechados para eles. “A maioria dos 75 alunos indígenas de hoje, e dos outros que já passaram pela universidade, estão nos cursos da Saúde. Porque a nossa saúde precisa de um olhar diferenciado. Normalmente as vagas são escolhidas conforme as demandas das comunidades indígenas. Mas também existem alunos indígenas na Psicologia, na Pedagogia, no Direito. Claro que é muito mais difícil nos cursos de elite, Medicina, Odonto, Direito. O acesso é muito mais complicado.Desde a entrada dos primeiros estudantes indígenas na UFRGS, sentiu-se a necessidade de um espaço específico pra gente. Não se trata da gente não querer conviver com o branco. Aqui, nessa ocupação, com pessoas brancas vindo por vontade própria, por comprometimento, parece tudo tranquilo, e é. A convivência é fácil quando as pessoas entendem quem somos nós e como somos nós. Não é o que acontece na CEU, a Casa do Estudante Universitário, onde os outros moradores são obrigados a conviver com a gente, e nem todos gostam. Aí é muito ruim, porque a gente tem o espaço, tem as vagas, mas não é bem-vindo. Não é bem-visto naquele lugar.O principal motivo da reivindicação de uma casa para estudantes indígenas foi a situação das mães. A CEU não permite a entrada de crianças. Nós somos […]

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