Reportagem

Quase rebaixamento do Colo-Colo expõe falências do modelo de clube-empresa no Chile

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Quase rebaixamento do Colo-Colo expõe falências do modelo de clube-empresa no Chile Time mais popular do Chile vive período turbulento desde que sociedade anônima assumiu o setor de futebol do clube (Foto: Colo-colo/Divulgação)
Em fevereiro, a equipe chegou perto de ser rebaixada pela primeira vez em sua história. Situação é resultado de transformação administrativa determinada por lei

Único chileno a conquistar o título da Copa Libertadores e clube mais popular do país, o Colo-Colo esteve muito perto de viver o seu primeiro rebaixamento na história. No dia 17 de fevereiro, o Cacique (apelido da equipe) venceu a Universidad de Concepción por 1 a 0 e evitou o descenso.

Mesmo com o alívio recente, a turbulência vivida pela instituição está longe de acabar.

O alvinegro vive há alguns anos uma tempestade iniciada em um processo que é tido no Brasil como a tábua de salvação do futebol: a transformação dos clubes em empresas. Uma lei de 1998 obriga os clubes das principais divisões do país a serem sociedades anônimas.

É quase a crônica de uma crise anunciada. Quem resume a situação é o professor de Sociologia da Universidad de Alberto Urtado, sócio e torcedor alvinegro Alexis Cortés:

“O principal legado da SAD (sigla de Sociedad Anónima Deportiva, como são chamados os clubes-empresas no Chile) foi levar o Colo-Colo à beira do rebaixamento”, ponderou por telefone, acrescentando que, desde que a Blanco y Negro S.A. assumiu a administração do futebol, em 2005, o Cacique vive seu período menos glorioso.

Como quebrou antes de ser “privatizado”, perdeu boa parte do seu patrimônio – o que muitos torcedores acreditam ter sido premeditado, para forçar a venda do clube –, ficando, inclusive, sem sua sede social, que foi transferida para uma sala do Estádio Monumental, um dos poucos bens mantidos, e hoje administrado pela SAD.

Mas esse é apenas um dos ingredientes que levaram aos péssimos resultados ao longo da temporada 2020, que se encerrou, como no Brasil, apenas em fevereiro de 2021. Os dias cinzas pelos quais passam os torcedores colocolinos têm muitos temperos.

Os principais têm a mão do presidente do país, Sebastián Piñera, que foi um dos donos da sociedade anônima que administra o clube. Outros problemas passam também pelos protestos sociais que estouraram em 2019 e pela pandemia da Covid-19.

Há um ano, o Chile convivia quase diariamente com protestos contra a política econômica do governo Piñera quando o novo coronavírus desembarcou em Santiago. Entre as muitas medidas tomadas no Palácio de la Moneda para enfrentar a situação, foi criada a Lei de Proteção ao Emprego – o primeiro tempero colocado pela mão de Piñera na crise alvinegra. 

A medida permitiu aos patrões suspenderem, por três meses, os contratos dos funcionários, explica o jornalista Javier Candia, da rádio Nuevo Norte FM, de Antofagasta, também por telefone. Com isso, o trabalhador passa a receber o seguro-desemprego, com cortes progressivos nos salários: no primeiro mês, recebe 70%, no segundo, 50%, no terceiro, 45%.

Já em crise financeira há alguns anos, o Colo-Colo foi o único entre os grandes clubes chilenos a aderir a essa lei. Assim, os contratos de todos os profissionais foram suspensos entre abril e junho do ano passado.

A medida provocou situações inusitadas, como a do argentino Pablo Mouche, que foi ameaçado de despejo por falta de pagamento do aluguel. A moradia fazia parte do acordo formal de Mouche com a Blanco y Negro. Com a interrupção dos acertos, o benefício também acabou ficando sem pagamento.

Ao mesmo tempo, como a lei não permite a manutenção do vínculo empregatício, atletas e comissão técnica não puderam manter contato, deixando os treinamentos a cargo dos próprios jogadores, com cada um se virando como pode para manter a forma durante a paralisação do campeonato.

Resultado: na volta das competições, o grupo ficou em desvantagem física ante os adversários, comenta Candia. Além disso, praticamente todos os atletas tiveram lesões a partir da retomada da temporada.

Na pandemia, Governo de Sebastían Piñera permitiu aos patrões suspenderem, por três meses, os contratos dos funcionários (Foto: José Manuel de la Maza/ Presidência do Chile)

Outro problema surgiu com os privilégios que apenas seis jogadores tiveram no período. Como tinham contratos de publicidade – ou direito de imagem –, eles seguiram recebendo esses valores, o que causou um desconforto no grupo.

Os protestos que tomaram as ruas de Santiago e das principais cidades do país em outubro de 2019 se somam ao quadro de instabilidade do Colo-Colo, desta vez com sua própria torcida. O movimento que começou com reclamações contra o preço da tarifa do metrô transformou-se, rapidamente, em pressão por uma nova Constituição.

Os atos ganharam apoio de boa parte da sociedade, descontente com as políticas econômicas, que seguem praticamente o plano neoliberal da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Iniciada pelos estudantes, a onda de insurreição teve adesão de outras categorias, inclusive das torcidas dos principais clubes.

Com o slogan “perdimos mucho tiempo peleando entre nosotros”, as principais organizadas deixaram de lado a rivalidade e foram às ruas lado a lado. Além das questões econômicas, políticas e sociais – a violência policial também era alvo dos atos –, os torcedores passaram a questionar as SAD, tidas como um dos exemplos do neoliberalismo chileno.

Como ao longo dos anos diversos movimentos sociais ligados ao Colo-Colo ganharam força, não demorou para esses grupos aderirem aos protestos. Inclusive abrindo as portas da entidade para debates.

A partir dessa atuação além das quatro linhas, o número de colocolinos tem crescido consideravelmente, conta Cortés. Isso resultou no aumento da quantidade de sócios e na ampliação da base territorial da torcida.

Essa situação também levou os sócios a quererem recuperar a administração do Cacique. Com a Blanco y Negro sendo responsável pelo futebol profissional, cabe à direção do clube apenas a parte social.

A volta do alvinegro ao seu povo pode vir de duas formas: a mais difícil é um grupo de torcedores conseguir comprar a maioria das ações; a outra depende do término da concessão. Segundo Candia, o contrato tem duração de 30 anos. Ou seja, a torcida terá que esperar mais 15 para retomar o clube para si.

O jornalista acrescenta que, em parceria com as torcidas de diversos clubes, deputados criaram um projeto de lei para reverter as regras das SAD, que obrigaram todos os times a se transformarem em S.A. O novo texto acabaria com a imposição.

Como no Chile é o Executivo quem define as prioridades a serem apreciadas pelo Parlamento e a questão é de interesse do governo de Sebastián Piñera – mais uma pitada desse tempero –, o projeto segue engavetado.

Segundo o vice-presidente de Planejamento do Club Social y Deportivo Colo-Colo, o sociólogo Raúl Silva, o cenário é complexo. Enquanto a Blanco y Negro S.A. administra o futebol profissional, a estrutura tradicional do clube, propriamente dita, que tem duas das noves cadeiras da direção da S.A., fica com a parte social apenas – incluindo a equipe de basquete e as escolinhas de futebol.

Silva explica que, devido ao contrato de concessão, o clube não pode tentar adquirir o controle acionário. A entidade apoia, entretanto, qualquer movimento de torcedores nesse sentido. O dirigente diz acreditar que os acionistas minoritários deveriam se organizar para aumentar seu peso na gestão da S.A.

Ele acrescenta que os integrantes da direção social defendem a volta da administração total do Colo-Colo, inclusive o futebol profissional, para o clube. E argumenta:

“Os destinos do Colo-Colo não devem depender dos interesses que tenham o empresário que esteja na presidência em determinado momento. Isso não podemos aceitar em um clube com milhões de torcedores como é o nosso”.

Sua queixa se deve aos constantes conflitos empresariais que surgiram nos últimos anos. Segundo Candia, houveram diversos rachas entre os acionistas majoritários que se intercalam nos principais cargos da diretoria da S.A.

Sendo assim, aquela que seria a salvação de um clube quebrado não deu certo para o Colo-Colo. Apesar dos bons resultados nesses 15 anos – com 11 conquistas nacionais –, a situação econômica e financeira deixa a desejar.

Cortés e Candia acreditam que isso só foi possível a partir da lei 20.019, promulgada em 2006 e que havia sido apresentada em 1998 pelo então senador Sebastián Piñera – mais uma pitada do tempero. Aqui vale um parêntese: torcedor fanático da Universidad Catolica, o hoje presidente chileno se tornou acionista da Blanco y Negro S.A. na data da sua criação, em 2005.

Vale notar, ainda, que, por isso, muitos chilenos o comparam com o ex-premiê da Itália Silvio Berlusconi. Magnata dos meios de comunicação, o italiano também foi dono do Milan, entre outros negócios. Já o presidente chileno foi proprietário da Chilevisión, segunda maior audiência da TV chilena, além de ter 26% da Lan Airlines.

Todas suas participações em empresas, porém, foram vendidas para um fundo de investidores, ao ser eleito presidente, em 2010. Só que os novos responsáveis pelos negócios têm ou tiveram ligação com Piñera.

Um deles, por exemplo, Gabriel Ruiz-tagle é um dos principais empresários do país e protagonista de um escândalo de combinação de preços no mercado de papel higiênico. Segundo Cortés, Ruiz-tagle foi subsecretário e, depois, ministro de Esportes do governo Piñera, entre 2010 e 2014, e um dos presidentes da S.A. futebolística.

Todos esses ingredientes e temperos, acreditam Candia e Cortés, além de boa parte da torcida colocolina, fazem parte da receita mais amarga dos 96 anos do clube mais popular do Chile.


Roberto Jardim, jornalista desde 1996, pesquisa e produz reportagens independentes misturando futebol, política e história publicadas em portais como Medium, Puntero Izquierdo e Ludopédio. É autor de dois livros Além das 4 Linhas (Vento Norte Cartonero, 2016) e Democracia Fútbol Club: o jogo de bola além das quatro linhas (Editora Ludopédio, 2020).

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