Resenha

25 anos sem Paulo Freire e alguns diálogos necessários

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25 anos sem Paulo Freire e alguns diálogos necessários Paulo Freire com a mulher, Nita. (Arquivo: Nita Freire)

A educação que ensina a refletir e valoriza os saberes que o educando já possui é considerada muito incômoda pela extrema-direita brasileira e mundial. A liberdade e o desenvolvimento do livre pensamento é um valor ameaçador para esse tipo de liderança.

Um dos maiores pensadores contemporâneos da educação do nosso país, o pedagogo Paulo Freire – que terá seus 25 anos de morte lembrados no próximo dia 2 de maio –, é uma das figuras mais citadas nos meios acadêmicos do exterior e tem sua obra utilizada nas produções de métodos educativos inovadores em muitos lugares do mundo. No Brasil, infelizmente, a questão ideológica suscitou uma “cegueira seletiva” em relação à sua potência intelectual e às suas ideias inovadoras. 

Os partidários do chamado “olavismo”, esse movimento pseudointelectual liderado por um guru sem nenhuma formação, para defender o Brasil de uma ameaça comunista inexistente, tomou Paulo Freire como seu principal “Judas de malhação”, criticando não só suas ideias e as inserindo no pacote mirabolante que o grupo chama de “marxismo cultural”, mas ridicularizando-o até por suas origens e aparência, numa demonstração inequívoca de imaturidade emocional e intelectual. Nem o declarado nacionalismo desses grupos os impede de tentar destruir os talentos que são reconhecidos como gênios no exterior e que fazem a “boa publicidade” do Brasil, cujas relações exteriores vêm se deteriorando progressivamente. Concentram suas energias em não deixar entrar qualquer sopro de liberdade no país, em não permitir que qualquer vestígio de autoconsciência ou autovalor chegue às classes esmagadas por um pensamento colonial que a independência do nosso país não extinguiu. 

O Brasil é uma colônia adaptada que ainda se esforça em ser uma nação democrática. Os negros, os mais pobres, os que fogem da padronização (sexual, de gênero ou de estilo de vida) saíram da escravidão para a servidão, da servidão para um eterno servilismo. O governo atual, com Jair Bolsonaro, é a cristalização desses valores fracamente mascarados, mas ainda impostos por uma pequena elite que comanda e suga a grande massa, inconsciente de si mesma. 

O surgimento de um pensador como Freire – que legitima o saber popular e crê na educação acima do adestramento – foi muito significativo e divisor de águas dentro desse pensamento oligárquico que alimenta o obscurantismo, que atuando mascarado em palavras que suavizam a exploração humana, sempre persistiu – independente do progresso tecnológico e econômico do país.

As celebrações de seu centenário e os artigos que colocam pontos de luz sobre sua relevância e atualidade constituem um importante foco de resistência e esperança. Essa esperança incansável de chegarmos a ser um país verdadeiramente livre e democrático, não apenas na constituição e num discurso paternalista que se finge caridoso, mas em valores que respeitem o humano em suas diversas experiências e inúmeros conhecimentos, fomentando a liberdade real, a diversidade ampla e a autogestão dos diferentes grupos humanos. 

Realizando um esforço louvável de trazer a público (de forma honesta e construtiva) e ampliar os conhecimentos sobre o pensamento de Paulo Freire, surge o livro Diálogos com Paulo Freire para entender e mudar o mundo: 100 anos de um educador (Editora Diálogo Freiriano, 2022), organizado por Cristiano Goldschmidt e Liana Borges. É uma obra de fôlego, que traz entrevistas, cartas-abertas e artigos que iluminam vários pontos da produção e da vida deste imenso criador da educação brasileira, que reconstruiu, no respeito e no diálogo, a ideia de educação popular e talvez ainda possa nos ensinar muito sobre como reconstruir as estruturas democráticas desse país – uma vez que possamos voltar a reunir um número suficiente de brasileiros e de brasileiras com essa intenção.

O primeiro dos textos, como não poderia deixar de ser, é a entrevista de Nita Freire concedida a Goldschmidt. Antes de todos os olhares ao pedagogo, o olhar do amor ao ser humano. E Nita é farta de amor, sem perder o olhar crítico a tudo o que foi feito da obra de Paulo depois de sua morte. Obra da qual ela é guardiã, homem da qual foi biógrafa. 

Ela aponta sem pudores que ainda falta muito reconhecimento das lideranças de esquerda ao seu trabalho, fonte da qual beberam muito, ainda que não o citem tão explicitamente. Consegue argumentar, sem favoritismos nem rancores, os pontos falhos da esquerda em relação à educação, enquanto esta esteve no poder, e as consequências que enfrentamos até hoje. Aponta, com muita lucidez, o aprofundamento da desigualdade social no Brasil, não só gerado pelo atual governo, como pelos mecanismos perversos de exploração postos em funcionamento com a pandemia da Covid-19 – benéficos apenas para a pequena porcentagem extremamente favorecida, como de hábito.

Mais do que ninguém, Nita tem consciência da necessidade do reconhecimento do trabalho de Paulo, não apenas por ter sido seu esposo e o homem que muito amou, mas por ter trabalhado junto a ele e se conscientizado de sua importância para a formação de outro tipo de sociedade no Brasil e no mundo. 

“A educação é um ato político, e quando afirmamos isso, as pessoas não entendem. Quando se fala em educação política, não se está dizendo ‘vamos educar os meninos dentro do PT’, mas é assim que as pessoas acham que é. (…) não aceitam que a gente se engrandeça e que a gente se emancipe como um país soberano, como um país que é dono de si mesmo.” Com essas palavras, a mulher que acompanhou a construção do homem (não só do esposo, mas também do ser humano e do educador) desde seus princípios mais humildes e repletos de dificuldades, tendo viajado depois pelo mundo para conhecer a grandeza que ele se tornou, resume a estrutura de sucateamento e de negação da educação brasileira. Além da entrevista, Nita participa também com um artigo falando da importância do cuidado com a obra de Freire e a necessidade de critérios em suas reedições. 

Apresentados por Balduíno Andreola (professor emérito da Ufrgs) em uma carta-prefácio, o restante destes “Diálogos com Paulo Freire” foi organizado entre textos de natureza variada, como faria o próprio professor, sempre aberto às expressões e conhecimentos de natureza variada. 

Camila Moreira e Wellington Pedro da Silva nos trazem reflexões sobre a participação de Paulo na nossa história, analisando sua relevância política, principalmente no atual momento. Trabalho de mesma tônica apresenta Leôncio Soares. Podemos citar aí também os textos de Fabíola Andrade Pereira e Severino Bezerra da Silva; Cláudia Borges Costa e Mad Ana Desirée Ribeiro de Castro; Alessandro Augusto de Azevêdo; Edite Maria da Silva de Faria e Kátia Simone Filardi Melo. Este último contém ainda uma carta aberta, que, ao estilo do próprio Freire, está presente em várias outras contribuições. Liana Borges e Wagner do Amaral apresentam cartas pedagógicas; João Colares da Mota Neto, uma carta aberta aos educadores populares.

Outros autores apresentam relatos da vivência da aplicação dos ensinamentos de Paulo em diversificados projetos. Aí se encontram as experiências da deputada federal Maria do Rosário; de Maria Aparecida Rezende; de Marinaide Freitas e Andresso Torres; e de Renato Pontes Costa. 

Unindo a experiência educacional com a formação de vida, temos a deliciosa narrativa de Cristiano Goldschmidt. Entre o histórico e o biográfico se incluem igualmente os trabalhos de Gaudêncio Frigotto e Maria Salete Van der Poel, que nos esclarecem sobre as dificuldades enfrentadas por Freire, bem como na divulgação de seu trabalho, já que não é recente o incômodo que a educação popular e libertária causa aos que subjugam parte expressiva da população. Um destaque para a análise da aplicação de Freire é o texto de Oscar Jara, que trabalha como educador popular em toda a América Latina e foi amigo do pensador. 

Temos ainda um relato da vivência de formação freireana no teatro por Fernanda Lopes Kunzler e, ao final, a apresentação da Campanha de Defesa da obra de Paulo na América Latina e no Caribe, por Raimunda de Oliveira Silva e Marleide Barbosa de Sousa Rios. 

Em vozes e formas diversas, este livro-legado nos traz com clareza a presença de uma obra e de um homem que superaram sua morte física. E que, esperamos, pelo poder de sua universalidade e respeito ao ser humano, ainda há de superar desmandos, teorias desprovidas de embasamento e cheias de interesses pessoais e escusos, repressões e fake news de toda sorte. Que a sabedoria de Freire possa seguir iluminando este país e toda nossa América Latina, marcada por modelos adestradores de educação, que apagam a consciência e reduzem o valor de quem realmente constrói as nações. Que possamos ter, como diria ele mesmo, um país mais cheio de boniteza.

  • Diálogos com Paulo Freire para entender e mudar o mundo: 100 anos de um educador (Editora Diálogo Freiriano, 2022) será lançado no dia 25 de abril, às 19h, na sede da Fundação Ecarta, em Porto Alegre, com a presença dos organizadores, convidados e convidadas. Em São Paulo (SP), o lançamento será no dia 28 de maio, sábado à tarde, na Escola Amorim Lima, e contará com a presença dos organizadores e de Nita Freire.

Samara Leonel – Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (USP), Bacharel em Letras (Ufrgs), Mestra em Literatura (UFSM). 

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