Resenha

Apostas da canção latino-americana para a temporada de premiação

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Apostas da canção latino-americana para a temporada de premiação

10 álbuns lançados no último ano, do Uruguai à Costa Rica, figuram na lista de recomendações do jornalista João Vicente Ribas

Nos próximos meses abre a temporada de prêmios da música em toda América Latina. Alguns já estão divulgando os concorrentes, dentre álbuns lançados em 2023, outros ainda nem confirmaram a data exata. Agora em maio ocorrem os Prêmios Gardel na Argentina. O Chile costuma realizar os prêmios Pulsar em junho e o Uruguai organiza o Graffiti em outubro. O mais prestigiado é o Grammy Latino, que chegará em novembro à sua 25ª edição. Tem ainda o Capemusica, no Peru, o Praise, em Porto Rico, e o Nuestra Tierra, na Colômbia, pra ficar num rol não taxativo.

Seja consagrando ou injustiçando talentos, quando os cancionistas subirem ao palco vestidos de gala, conheceremos alguns destaques da produção mais atual. Enquanto isso não acontece, vamos aproveitar para compartilhar alguns palpites. A intenção, porém, não é exatamente apostar em vencedores, mas participar do zum zum que acontece em torno da entrega dos troféus.

Certo é que 2023 ambientou canções serenas e contundentes. Algumas cruas, outras super produzidas. Entre intimistas ou revoltadas, afáveis ou irônicas, tivemos uma oferta diversa. Tudo dentro do que podemos chamar de canção latino-americana.

Canção latino-americana?

Não é bem um gênero musical, embora seja possível identificar uma tradição consagrada e uma produção atual bem-sucedida. Abrange ritmos diversos, costuma mesclar raízes e linguagens contemporâneas. Sua performance envolve sempre um cantar que “diz” uma letra significativa, na voz do próprio autor da canção, que se acompanha por violão, mas também pode ser outro instrumento. Um piano ou um charango, por exemplo.

Nas premiações, a canção latino-americana é enquadrada em categorias como cantautor, canção de autor ou música popular.

Na lista abaixo, uma amostra do que de mais interessante foi lançado dentro deste espectro e que deve concorrer em 2024. Levando prêmio ou sendo ignorados, estes 10 discos representam a efervescência da cena, num ano em que nomes consagrados fizeram intervalo, o que abriu espaço na seleção para mais revelações. Será que nos prêmios também será assim?

Leia a lista do ano passado na revista Parêntese:
Dez álbuns da atual canção latino-americana – Primeira parte
Dez álbuns da atual canção latino-americana – Segunda parte

La Añez – Paralelas

Em Paralelas, as gêmeas colombianas Las Añez reuniram canções da mesma característica que consolidaram em trabalhos anteriores, calcadas em vocais, teclados e batidas sintetizadas. Vieram lapidando o processo e chegaram a um disco impecável.

Um dos melhores álbuns de 2023, que figurou em inúmeras listas de final de ano. Pela constância, pelo primor na produção, pela régua acima da média. Por criações impressionantes, como a despretensiosa Canción de amor. Combinação perfeita de letra e melodia, apresentadas com programações lo-fi caricatas, que acentuam a intenção irônica.

Tudo para embalar uma porção de letras manifestamente feministas, com sonoridades folclóricas. Começa já com uma cumbia lenta, com o refrão: “No quiero ser una diosa/ Ni depender de mi cuerpo/ No quiero ser una santa/ Yo quiero ser lo que quiero”.

Segue com a vigorosa Como si fuera yo, que tem participação da conterrânea Lido Pimienta, uma das compositoras mais talentosas da nova geração. Já em Árbol Genealógico, Juanita e Valentina brilham na performance, variando a interpretação entre ares anódinos (um backing vocal figurativo) e autorais (tipo: “sou eu mesma que escrevi e que estou cantando estes versos”).

São apenas oito faixas, o suficiente para diversificar as soluções de encontro das raízes colombianas com a roupagem moderna. Señal del viento tem o canto llanero de Cholo Valderrama, em meio a um arranjo concreto, de sinais telefônicos e vocais assoprados. Há rock ainda, em Pasaran los días. E para o desfecho, uma vinheta remixada da primeira canção De Curvo Cuerpo, para completar o álbum de forma conceitual. Una chimba!

Ezequiel Borra – La cantimplora

O bárbaro da canção conectada. Ezequiel Borra faz parte do movimento de conquista e expansão da canção de autor na Argentina. Emerge de uma cena jovial, pulsante, ligada ao espírito de uma época imaginada, de colaboração. Povoa um mundo onde não se aparam os pelos do corpo, locomove-se de bicicleta, representa-se na pintura em aquarela.

Junto dele, afluem nomes como Rodrigo Carazo, Lola Parda e Sofía Viola. Todos com participação nesta cantimplora, além do senegalês Moussa Dieng e dos espanhóis Pedro Pastor, Muerdo e Alex Serra. Com este último, traduz a atmosfera coletiva na sublime Al oírla cantar.

Neste sétimo álbum de uma carreira prolífica, Ezequiel Borra traz uma coleção de composições inspiradas, muito bem gravadas. Está entre os melhores do ano pela coesão, acabamento e ousadia. Daqueles álbuns redondos.

Há espaço para melodias belas, como a de Para adelante, interpretada com o duo Perotá Chingó, e para ironia mórbida, em La cumbia del velorio. Já com senso de humor leve, o sambinha em portuñol Destinos trocados é um dos destaques da capacidade do compositor em deglutir referências que se incorporam em seu estilo eclético.

Agora, a faixa mais simples e potente é a que abre o álbum, Cielo Clarito. Com ritmo irresistível, acentuado ainda pela embolada de Sofía Viola. Termina com Fuente de luz, uma quase paródia de canção exaltação moderna, cantada com muito afeto pela cidade de Córdoba.

Por fuera y por dentro é uma perfeita conjunção de cântico folclórico e sonoridade atual. Coisa que os grandes nomes da música popular fizeram no século XX para consolidar o formato canção na América Latina e que Ezequiel faz com a marca do seu tempo.

La Lá – Debut

La Lá, onomatopeia que evoca o cantarolar, é o apelido que representa Giovanna Núñez, compositora peruana de canções suaves e cortantes. Já sabia disso por ter escutado seus três primeiros álbuns. Mas desta vez, chegou a um nível de acabamento que me motiva a escrever: Debut é o seu melhor disco.

Começa com uma levada jazz graciosa, junto ao mexicano Jósean Log, e segue desfilando ritmos diversos da América Latina, em parceria com outros músicos. La reyna del Delay é um merengue, meio axé, com feat da conterrânea Lorena Blume. Em Kung Fusion retoma a elegância jazzy, solfejando em duo com a flauta divina de Junior Pacora.

São muitas as participações. Seguem com o duo peruano Alejandro y María Laura, na bachata Quiero ser un ONVRE, com uma letra debochada. A pegada feminista desta faixa tem seguimento no arranjo soturno de violão e violoncelo de Mimi Rada, ao lado da costarriquenha Berenice. Nela, a  frase categórica “nunca quise ser perfecta” é coroada por uma flauta desafinada no final.

Então, o dueto romântico com seu irmão Iluso, desabrido a plenos pulmões, parece contrastar com as levadas requintadas das primeiras faixas. El corazón no engaña a su dueño harmoniza o coração com a sonoridade vintage do mellotron. No entanto, a pegada brega é muito bem resolvida e permite uma sequência coerente com o álbum todo.

Para finalizar, retorno à suavidade, em uma valsa de voz e violão, para conformar aquela ambiência confortável que La Lá induz, sem deixar de inspirar sempre uma suspeita sagaz.

Berenice y Los Locos Descalzos – Nido

O nido (ninho) representa o lugar seguro onde tudo começa, de onde saem diversas espécies de pássaros, podendo inclusive ser migratórias. Deste ponto de partida, emergem melodias genuínas, letras auto-reflexivas e de conexão com a natureza.

Os meandros poéticos da costarriquenha Berenice Jiménez também têm como pano de fundo a sororidade. Não à toa, pois a compositora integra o coletivo Viajo Sola, uma comunidade de mulheres artistas, que exige o direito de uma mobilidade livre e sem medo no continente.

Por isso, nem sempre suas metáforas remetem à fragilidade do nascedouro dos pássaros. Em outras, bruxas nascem das cinzas, lobas enfrentam a noite e outros seres trocam de pele. “Lobas que cuidan la noche/ No se pierden más en el bosque/ Rondan su nido, protegen su fuego/ Lideran su norte” – canta em Lili.

Voz de potência medida, timbre discreto, ondula no registro da fala ao pé do ouvido. Contudo, Berenice alça voo neste álbum de estreia.

Bem como uma cancionista, os arranjos são baseados em seu violão e priorizam as letras. No entanto, as percussões possuem o mesmo nível de importância em cada uma das performances e o resultado do álbum é coletivo. Los Locos Descalzos é o nome do grupo espanhol que a acompanha.

Sombra y animal abre o álbum com uma dinâmica crescente que revela sua potência aos poucos. Na sequência, Sentencia, traz uma pegada soul que reaparece em Hija del sol. Já a levada ternária, típica da canção de autor latino-americana, vem na ótima Espirales. Dentre os destaques também está Pájaros, uma canção de ninar, com a melodia mais linda do disco.

Aparentemente despretensiosa, Cinco talvez ofereça o que de mais genuíno Berenice alcançou neste trabalho. Sua dicção parece mais segura e inventiva, levando uma letra simples por uma melodia original.

Nido foi produzido e gravado em Madrid, com Alan Denis de la Sierra e Daniel Solano. Financiado por políticas de apoio às artes da Costa Rica.

Lúcio Feuillet – Mínimo infinito (álbum)

Cantautor natural de Nariño, sul da Colômbia, lançou seu quarto disco, todo de vozes e violão. E que violão! Arranjos dedilhados, arpejados, rasgados, ritmados, seguindo a tradição hispânica e as apropriações diaspóricas. E muitas vozes! Uma série de participações, como as conterrâneas Andrea Echeverri, Pilar Cabrera, La Muchacha, o argentino Kevin Johansen e o chileno Benjamin Walker, entre outros nomes da canção latino-americana.

Disco longo, com 21 faixas, incluindo inéditas e algumas regravações. Entre elas, melodias lindas, como a ode à beleza Pez Colibri, que ganhou arranjo da ótima dupla peruana Alejandro y Maria Laura. Ou a original Poción Secreta, com Johansen: melodia cativante e ritmo esperto. Há algumas com levada de chacarera: Una pena, com Las Añez, e La cita, com Pilar Cabrera e Alvaro Ruiz, a mais vívida delas.

Dentre tantas canções para se comentar, vale pontuar mais uma: El tuerto Agustín. Narrativa trovadoresca sobre um paisano, com “Su fina y agreste lírica/ Ingeniosa y típica”. Contada ao lado de Andrea Echeverri, lenda viva do rock colombiano, que revela matizes sutis de seu timbre, alternando entre seu cantar gritado rouco e um falado grave brilhante.

A limitação dos arranjos a vozes e violões não elimina a capacidade das faixas em ressoar com ampla gama de frequências e com graves potentes, sem perder a sonoridade orgânica. Um belo trabalho de captação e masterização dos fonogramas, com a produção de Ricardo Muñoz.

O título dialético Mínimo infinito representa bem a condição simples de produção do álbum, que leva a resultados que extrapolam todas as restrições. Afinal, as composições de Feuillet possuem um grau de enlace entre letra e melodia que é para poucos cancionistas.

Danitse – Augurio

Uma mulher empunhando um charango. Uma mulher empunhando um charango para cantar suas próprias músicas. Longe do folclórico exótico, legitimado outrora como world music, sua performance produz uma atmosfera contemporânea.

Antes de ouvi-la, é preciso saber que a peruana Danitse é engajada em projetos de conservação ambiental e pesquisa a história do charango. Em sua perspectiva, o instrumento mestiço andino é um símbolo cultural em constante evolução. “Me encierro en mundos imaginarios/ Para no ver lo que se perdió/ Sobre los restos de lo pasado/ Algo reconstruiremos tú y yo” – diz nos versos de Augurio, faixa-título pungente.

Além de assinar a composição de cada canção, Danitse foi responsável pela produção do disco, resgatando uma sonoridade artesanal, com instrumentos de madeira e couro, a exemplo do wankara (tambor andino largo), mesclados em arranjos sutis de guitarra, sintetizadores e bateria. Algumas canções contam com outras charanguistas convidadas, Valentina Soto e Adriana Lubiz.

Augurio é seu quarto álbum, o primeiro em que aposta nos ritmos de raiz latino-americana, fruto de um projeto ganhador de financiamento à cultura do governo peruano. Entre as faixas mais instigantes está Desoriente, cantada em espanhol e dialeto quéchua; Belleza, de performance vocal afiada, ao lado de Lorena Blume; e Encender el sol, com aires de huayno e carnaval, mas mantendo a melancolia, característica de todo o trabalho de Danitse.

Uma mulher empunhando um charango para cantar suas próprias canções. Para mesclar a cosmovisão ancestral com a urgência do presente. Uma performance de preservação da natureza e transformação da cultura.

Mon Laferte – Autopoiética

Mon Laferte dispensaria apresentações para quem anda com o radar ligado na música latino-americana. Contudo, a reinvenção da artista em um álbum diferente do que vinha fazendo requer um pequeno retrospecto. Há 15 anos, a chilena de Viña Del Mar se mudou para o México com a cara e a coragem. Começou enfatizando a sonoridade rock dramática que é sua marca registrada, mas experimentou outras tendências, passando pelo revival do bolero e a canção típica de autor. Chegou ao nono disco. Estampou a capa da revista Rolling Stone e agora vai estrelar um documentário na Netflix.

Neste radical Autopoiética, presta tributo ao biólogo chileno Humberto Maturana, nomeando seu álbum com um conceito formulado por ele para designar a capacidade dos seres vivos de produzirem a si próprios. Já seria um título interessante por si só. Mas para fazer jus à concepção, Mon Laferte criou canções que extrapolam sua biografia.

Para além da estética eclética, a tônica explícita de suas letras contribui para que seja uma audição de difícil digestão. No primeiro single que veio à tona, causou furor revisitando a histórica capital asteca Tenochtitlán, na batida comedida do trip hop e no canto falado e até rezado. Para se ter uma ideia, a canção inicia com os versos: “Cuánto le costó quien se la cogió/ Si es una puta sudaca tercermundista/ Nadie le parió/ De donde apareció/ La mina se cree artista”.

No disco, abusa de sintetizadores e transmuta até sua voz, que soa masculina na cumbia Te juro que volveré. Um dos destaques é Préndele fuego, uma bossa eletrônica com uma flauta agressiva, letra sensual e explícita.

A seguir, na batida de NO+SAD, seu recado sarcástico ao mainstream: “No es la misma de antes/ La vamos a enterrar”. O tema da transformação segue na cumbia pegada de Metamorfosis. E acelera mais na tecno Autopoiética.

Ritmos tipicamente latinos cadenciam as faixas seguintes, como o bolero e a salsa, passando uma impressão mais palatável. Contudo, segue profanando, a julgar pelos títulos das canções Levítico 20:9, Pornocracia e Amantes Suicidas.

Vale encarar o estranhamento inicial com tanta experimentação. Mon Laferte incomoda nossos ouvidos indolentes para atiçar nossa esperança na criatividade humana.

Omar Giammarco – Las razones del corazón

Contém aquela melancolia tão marcante da canção do Rio da Prata, presente na milonga e no tango. No sexto disco, Omar Giammarco até visita esses gêneros, no entanto é muito mais filiado ao rock. Não é tangueiro nem milongueiro. É um cancionista, pela dedicação incansável para encontrar temas que instigam a alma, transformando-os em poesia e melodia.

Em constante intercâmbio com o Brasil, Omar já gravou o álbum Música Menor, ao lado de Arthur de Faria. Agora conta com a participação de Vitor Ramil no dueto de La balada de la cárcel de Wilde, baseada em poema de Alberto Muñoz. Já na vidalita Polen, musica versos do uruguaio José Arenas. Típico da composição de cancionistas: se a letra não é de próprio punho, é adaptada de um grande poema alheio.

Há baladas lindas, sua especialidade, como Sonámbula, com participação de Flor Bobadilla Oliva. Aliás, o romantismo também permeia boa parte das canções, justificando o título do álbum, que alude à máxima do francês Blaise Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Em relação aos arranjos, a característica marcante deste Las razones del corazón é o piano de Daniel Godfrid, harmonizando de forma rica, junto ao violão tocado pelo cantautor ao fundo. Entre as melhores faixas está De copas ajenas, um tango dissonante e econômico, de letra autorreferencial.

Interessante saber que o processo criativo de Omar para este disco passou pelo projeto Cocina de Autor, onde ele testou ao vivo cada canção nova, antes de finalizá-la e gravá-la.

Las razones del corazón prova que, em um ano trágico na política, a música argentina manteve-se prolífica. Lançado pouco antes da eleição do novo presidente, contém uma canção especialmente combativa, Ahora qué, que divaga sobre um contexto “em que os racistas reclamam respeito”.

Sofía Alvez – Canciones de tapa blanca y negra

Sofía Alvez começou tocando na igreja e em linhas de ônibus de Montevidéu. Hoje com acesso a recursos de produção e gravação, aos 29 anos, está em sua fase mais prolífica. O resultado são três discos e um EP lançados em um ano. Entre eles, Canciones de tapa blanca y negra, o mais cru e intimista. Talvez não seja o melhor cotado para os prêmios Graffiti, mas o que mais revela seu instigante processo de composição.

Nele, a uruguaia coleciona uma mostra de canções curtas, algumas com menos de dois minutos. Todas são intituladas “canción” alguma coisa. Tal escolha literária dá a pista de seu gesto experimental metódico de busca por uma linguagem própria. Sumariza-se em Canción cauce, canção caminho.

Multi-instrumentista autodidata, mostra sua inventividade em arranjos econômicos, de harmonias minimalistas, baseadas em violão, com algumas inserções de baixo, percussão, guitarra e bateria. As influências do soul e da música brasileira são evidentes.

Canciones de tapa blanca y negra traz faixas com uma dicção montevideana, que falam de amor, embaladas em candombe, bossa, blues. Os temas também passam por rompimento com sua cultura cristã familiar, abordando a morte, a feminilidade e até o diabo.

Sofía não é exatamente um fenômeno do Spotify, mas sua audiência é significativa e crescente, para uma jovem artista oriunda de um país de menos de 4 milhões de habitantes. Seu maior hit, Rompí, está chegando aos 3 milhões de reproduções.

O disco que figura nesta lista é uma amostra da tremenda capacidade dessa cantautora, que se espalha por inúmeras canções. Sofía Alvez é uma imanência contemporânea do paisito, que condensa os sedimentos de sua música popular de forma vigorosa.

Evelyn Cornejo – Sopita de pan

Armada de letras, Evelyn Cornejo defende a natureza e a sensibilidade humana. Sem muitos rodeios ou metáforas, a chilena chega ao seu terceiro álbum. Na gestão de sua carreira também é direta e autônoma, participando do circuito independente de cantautoras, que cresceu na última década em seu país.

Seu novo álbum contém versos de luta: “En este tiempo que, con nuestra comida, nos envenenamos”. Também, refrões mais líricos, como “Yo quiero ser tu vecina/ Para pedirte azúcar todos los días”. E estrofes graciosamente sociais: “Doy todo por ella, más no tengo na/ Ni casa, ni tierra, ni identidad/ Ni linda palabra del gran diccionario/ Solo mi cansancio y mi bajo salario”. Este último é da ótima Echando humito.

Natural da região de Maule, Cornejo imprime uma sonoridade andina, evocada pelas notas de flauta e charango. Sua voz lamenta e protesta, com um timbre que é impossível não associar ao ícone Violeta Parra.

Algumas canções possuem arranjos mais simples, como La mariposa, de melodia marcante para os versos “Nací con las alas cortadas/ me duele el alma y la guitarra”. Outras mais elaboradas, como El Temblor, evidenciando o belo trabalho de produção artística de Manolo Pez.

Están sacrificando é uma homenagem à ativista ambiental Macarena Valdés, morta em 2016. É uma das letras mais contundentes, que reagem à destruição do planeta. Essa luta mescla-se com a afetividade atávica da cancionista, que homenageia sua avó no título do disco. Era ela quem cozinhava todas as manhãs para sua família de escassos recursos a sopita de pan.


João Vicente Ribas, editor da newsletter Canciones para despertar en Latinoamérica.

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