Resenha

Por que falar de Paulo Freire ainda é preciso?

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Por que falar de Paulo Freire ainda é preciso?

Em março de 2021, com o intuito de homenagear o centenário de nascimento de Paulo Freire (19/09/21) e os 25 anos de sua morte, data a ser lembrada no próximo dia 2 de maio, procurei por aqueles e aquelas que eu conhecia e que privaram de sua amizade e também os que tiveram a oportunidade de com ele trabalhar em diferentes momentos. A ideia era a publicação de um livro com textos que dialogassem com Paulo, com a sua teoria e com a sua práxis. 

Logo no início, chamei a Liana Borges para me ajudar na organização do livro. Liana, que é formada em Filosofia, com doutorado em Educação pela PUC-RS, é, para nosso orgulho, das maiores estudiosas e conhecedoras de Paulo Freire. Professora aposentada do município de Porto Alegre, entre outras atividades, por muitos anos dedicou-se à EJA (Educação de Jovens e Adultos) e, atualmente, coordena a Rede Café com Paulo Freire, da qual foi idealizadora e que conta com grupos de estudos em muitas cidades de diversos estados brasileiros. Dona de uma agenda que abarca a maioria dos e das que se dedicam à pedagogia freireana, ela foi fundamental na indicação e na intermediação desses convites, trazendo para o nosso projeto um número significativo de professores e pesquisadores que se somaram à minha lista preliminar. 

Assim, “Diálogos com Paulo Freire para entender e mudar o mundo: 100 anos de um educador” privilegiou diferentes gerações, desde aqueles que foram contemporâneos de Paulo Freire, amigos e amigas que tiveram a alegria de com ele conviver e trabalhar, e outros que, embora não tivessem o privilégio de conhecê-lo pessoalmente, se inspiraram na sua pedagogia e dela se imbuíram para o exercício de suas profissões. 

Os 22 artigos, entrevistas, cartas pedagógicas e relatos pessoais assinados por 27 autores e autoras representam apenas pequena parcela daqueles que se dedicam a estudar Paulo Freire em nosso país. Os leitores e as leitoras encontrarão textos que falam das relações pessoais com Freire, da luta de classes e de movimentos sociais, das questões indígenas e ambientais, de pesquisas feitas no ambiente universitário, de trabalhos desenvolvidos na educação básica, das artes, dos movimentos estudantis no período da ditadura civil-militar, dos avanços (e também dos erros) que tivemos com os governos progressistas de Lula e Dilma, da falta de políticas públicas efetivas que melhorem os índices educacionais do país e, claro, dos desmontes promovidos a partir dos governos de Michel Temer e de Jair Bolsonaro. Ou seja, as diferentes experiências e a diversidade das linguagens e dos temas abordados talvez se configurem no que há de melhor nesta obra. 

Mas por que falar de Paulo Freire ainda é preciso? 

Passados 25 anos de sua morte, no dia 13 de abril deste ano também comemoramos os 10 anos da Lei nº 12.612, de autoria de Luiza Erundina, que declara Paulo Freire Patrono da Educação Brasileira. Atacado por grupos da extrema direita e por determinados setores das elites política e econômica brasileira, Freire é símbolo de uma educação emancipadora, que coloca os educandos (crianças ou adultos) e suas individualidades como protagonistas dos processos educativos. Freire foi e continua sendo a antítese dos movimentos que enxergam a educação formal como mera capacitação de mão de obra para suprir o mercado de trabalho (temos visto cada vez mais isto com o crescimento das Instituições de Ensino Superior mercantilistas). E, ao contrário do que muitos querem fazer crer, sua pedagogia nunca foi avessa à qualificação profissional dos homens e das mulheres, mas defendia que essa formação fosse pautada também por uma pedagogia do livre pensar, que proporcionasse às classes desfavorecidas do país a possibilidade de escolherem os destinos de suas próprias vidas. Essas e outras questões também foram abordadas na entrevista de mais de vinte páginas realizada com Nita Freire, capítulo de abertura de nosso “Diálogos com Paulo Freire”. O lançamento será na próxima segunda-feira, dia 25, às 19h, na sede da Fundação Ecarta, em Porto Alegre.     

Cristiano Goldschmidt – Jornalista e pedagogo. Doutorando e mestre em Artes Cênicas pela Ufrgs. Conselheiro de Estado da Cultura. 

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