Retrato escrito

Volto semana que vem, de Maria Regina Pilla

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Volto semana que vem, de Maria Regina Pilla “Enquanto o bonde não vinha, era possível admirar a alameda de entrada da chácara. No fim do parreiral, uma escadaria em semicírculo conduzia ao alpendre e daí à porta de vidro e madeira. Era uma casa verde, janelas pintadas de vermelho-escuro, uma feiura para os desacostumados ao gosto dos imigrantes de nossa cidade. O bonde seguia por entre chácaras amarelas, rosadas, brancas. Portas e janelas brincavam de cores. Pátios e jardins misturados, alguns com taquarais, como o da casa dos avós, na Vicente da Fontoura com a Bento. Naqueles terrenos onde a Bento encontrava com a João Pessoa, as paineiras subiam eretas, com seus vestidos de flores rosadas, quase solferinas. Nas tardes de ventania, os vestidos das paineiras se esvaíam por todos os lados. Dálias, rosas e copos-de-leite formavam arabescos nos pátios de terra batida. Era comum fazer canteiros empilhando a terra em faixas largas. Dos bordes caíam tristes alguns chumaços de grama verde-escura. As hortênsias queriam o encosto da casa, da parede caiada. Então se entregavam ao calor cheio de sombra das manhãs de verão. Dormiam com as pétalas azuis e rosas olhando o céu. Não perfumavam. Elas vêm com o cheiro da mãe, da casa do Partenon”.  Sabe o que essa Porto Alegre de 1960 tem a ver com a ditadura militar na Argentina?  Pois ela é a cidade apresentada por Maria Regina Pilla em um dos capítulos de Volto semana que vem (Cosac Naify, 2015). Narrado em primeira pessoa, o relato vai e vem no tempo registrando momentos singulares em desordem cronológica. Nesse conjunto, uma jovem personagem que tem a capital gaúcha como cidade natal acaba alcançando o mundo por conta da militância política e das perseguições em período de governo militar. A narradora, que sabemos reescrever a história da própria autora, apresenta as experiências de prisão e exílio, no confronto da estudante revolucionária com a ditadura argentina.  Sim, o principal centro repressor da história de Pilla é nosso país vizinho: a Argentina. A capital gaúcha aparece aqui e ali como uma personagem das memórias e se apresenta muitas vezes para ajudar a recompor o passado que ficou distante no espaço e no tempo. Com a evolução dos fatos no Brasil, depois de 1964, aquela jovem entrou em rota de colisão com a ditadura brasileira, caiu na clandestinidade e se juntou à oposição na Argentina, onde foi presa e de onde saiu para o exílio na França, até retornar ao Brasil. A bela Porto Alegre do fragmento acima vai dar espaço a um capítulo intitulado “1976-77 — Presos jogados vivos de aviões”. Ele cita a carta aberta do jornalista e escritor Rodolfo Walsh, que se relaciona com a confissão de Adolfo Scilingo — militar que disse ter despido e lançado de aviões os corpos de presos políticos. Scilingo, aponta a narrativa, alegou insanidade mental, mas acabou preso e condenado à prisão perpétua. “Entre 1500 e 3000 pessoas foram secretamente massacradas depois que vocês proibiram toda e qualquer informação sobre a descoberta de cadáveres que em alguns casos, […]

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“Enquanto o bonde não vinha, era possível admirar a alameda de entrada da chácara. No fim do parreiral, uma escadaria em semicírculo conduzia ao alpendre e daí à porta de vidro e madeira. Era uma casa verde, janelas pintadas de vermelho-escuro, uma feiura para os desacostumados ao gosto dos imigrantes de nossa cidade. O bonde seguia por entre chácaras amarelas, rosadas, brancas. Portas e janelas brincavam de cores. Pátios e jardins misturados, alguns com taquarais, como o da casa dos avós, na Vicente da Fontoura com a Bento. Naqueles terrenos onde a Bento encontrava com a João Pessoa, as paineiras subiam eretas, com seus vestidos de flores rosadas, quase solferinas. Nas tardes de ventania, os vestidos das paineiras se esvaíam por todos os lados. Dálias, rosas e copos-de-leite formavam arabescos nos pátios de terra batida. Era comum fazer canteiros empilhando a terra em faixas largas. Dos bordes caíam tristes alguns chumaços de grama verde-escura. As hortênsias queriam o encosto da casa, da parede caiada. Então se entregavam ao calor cheio de sombra das manhãs de verão. Dormiam com as pétalas azuis e rosas olhando o céu. Não perfumavam. Elas vêm com o cheiro da mãe, da casa do Partenon”.  Sabe o que essa Porto Alegre de 1960 tem a ver com a ditadura militar na Argentina?  Pois ela é a cidade apresentada por Maria Regina Pilla em um dos capítulos de Volto semana que vem (Cosac Naify, 2015). Narrado em primeira pessoa, o relato vai e vem no tempo registrando momentos singulares em desordem cronológica. Nesse conjunto, uma jovem personagem que tem a capital gaúcha como cidade natal acaba alcançando o mundo por conta da militância política e das perseguições em período de governo militar. A narradora, que sabemos reescrever a história da própria autora, apresenta as experiências de prisão e exílio, no confronto da estudante revolucionária com a ditadura argentina.  Sim, o principal centro repressor da história de Pilla é nosso país vizinho: a Argentina. A capital gaúcha aparece aqui e ali como uma personagem das memórias e se apresenta muitas vezes para ajudar a recompor o passado que ficou distante no espaço e no tempo. Com a evolução dos fatos no Brasil, depois de 1964, aquela jovem entrou em rota de colisão com a ditadura brasileira, caiu na clandestinidade e se juntou à oposição na Argentina, onde foi presa e de onde saiu para o exílio na França, até retornar ao Brasil. A bela Porto Alegre do fragmento acima vai dar espaço a um capítulo intitulado “1976-77 — Presos jogados vivos de aviões”. Ele cita a carta aberta do jornalista e escritor Rodolfo Walsh, que se relaciona com a confissão de Adolfo Scilingo — militar que disse ter despido e lançado de aviões os corpos de presos políticos. Scilingo, aponta a narrativa, alegou insanidade mental, mas acabou preso e condenado à prisão perpétua. “Entre 1500 e 3000 pessoas foram secretamente massacradas depois que vocês proibiram toda e qualquer informação sobre a descoberta de cadáveres que em alguns casos, […]

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