Revista Parêntese

Parêntese #80: Inimigos dos livros

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Parêntese #80: Inimigos dos livros
Se o prezado leitor e a gentil leitora não viram e quiserem gastar um tempo com um horror silencioso de nossos dias, eis um endereço aqui. Trata-se de relatório feito por um jornalista, cujo nome não importa, mas cuja função sim: ele é o inimigo dos livros mencionado no título. E trabalha às ordens do atual presidente da Fundação Palmares, um negacionista notório.     Esse relatório – “Retrato do acervo – A dominação marxista da Fundação Cultural Palmares, 1988-2019” – é de dar desespero. Ele repassa o acervo de livros e documentos da biblioteca da Fundação Palmares, tarefa em si rotineira para bibliotecas e acervos, mas para uma finalidade policial hedionda: o lamentável presidente e este seu sequaz querem expurgar o acervo do que consideram nefasto. Nefasto por ser de esquerda, nefasto por, dizem, incentivar a sexualização precoce de jovens.    Repassei o relatório para ver o estrago de perto. É verdade que no acervo se encontram livros perfeitamente datados como visão da história (e há, porque livros fazem também eles parte do processo da vida), mas o foco do Relatório é outro: ele é policialesco, como nos piores momentos da finada mas insepulta Ditadura Militar no Brasil.     Um livro que vai dançar é As santas prostitutas – Um estudo sobre devoção popular no Rio Grande do Sul, de Antônio Augusto “Nico” Fagundes. Resultado de sua dissertação de mestrado em Antropologia na UFRGS, sim, senhor. A palavra “prostituta” assustou o pessoal? Outro é Banditismo, de Eric Hobsbawm, um clássico de história social. Dele, o Relatório retira uma frase, absolutamente descontextualizada, como prova de uma suposta tendenciosidade – “Banditismo é liberdade”. Diz o jornalista que aqui se lê “um esforço para justificar a criminalidade como arma revolucionária”.     Em outro momento de luzidia imbecilidade, o Relatório afirma que determinados volumes merecem ser defenestrados porque foram editados antes da mais recente reforma ortográfica. Se essa fosse a lógica, deveríamos incendiar uns 95% de tudo que se publicou.     Contra essa abominação, só a inteligência. Como a da Dalva Maria Soares, nossa entrevistada. Figura marcante por sua sensibilidade, suas qualidades como escritora e sua magnífica trajetória pessoal, ela nos oferece aqui um contraponto saudável aos horrores do Relatório.    As fotos de Gilberto Perin mostram como foi passar oito semanas em um apartamento provisório, à espera da data da viagem. E o Pablito traz a Jussara, um dos destaques da mais recente manifestação em Porto Alegre. Ela que diz: “Essa bandeira é nossa”. Fernando Seffner passeia sua verve pelos nomes de prédios em Porto Alegre, agora aqueles relativos ao mundo religioso. Juliana Wolkmer retorna às nossas páginas com a bela história de um ator/diretor/produtor notável, Ribeiro Cancella.     Vinícius Rodrigues bate seu ponto mensal visitando a vasta produção de quadrinhos, agora com Robson Vilalba e seus quadrinhos jornalísticos. E Fausto Leiria dá depoimento sobre o que pode e o que deve ser feito nas ilhas de Porto Alegre para que gente como nós alcance o patamar básico de civilização – tendo água corrente em casa. Pieta Poeta traz o […]

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