Revista Parêntese

Parêntese #81: Inverno de novo

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Parêntese #81: Inverno de novo

Se o tempo vestisse certamente seria sobrepeliz de pelúcia para usar na vasta noite do sul. Redes de gelo articulando-se com o vento das esquinas esfiapadas pela luz pequena dos postes emoldurados de sereno. De longe vem a geada sobre os cabelos do campo, que trazem o frio até a beirada dos braseiros. 

Roupas pesadas, mantas coloridas, botas reluzindo graxa de rim de ovelha. Sensação de névoa nos cabides, luz recolhida nos lenços sem partido, um pouco de mansidão e uma meninice instalada, curva e incompleta, na lã da boina.

Essas linhas são da seção “Inverno”, do romance Assim na terra, de Luiz Sérgio Metz, mais conhecido como Sérgio Jacaré. Um cara falecido há 25 anos, na exata noite em que entrava o inverno de 1996.

Morto há muito tempo, com obra magnífica mas reduzida e de escassa circulação, ele tem tudo para ser jogado naquele grande poço do esquecimento, em que jazem tantos talentos. Faz parte, mas ao mesmo tempo, para quem conhece sua obra, é uma pena. 

Assim na terra teve segunda edição sofisticada, ocorrida na véspera da falência de uma grande editora recente, a Cosacnaify. Se encontra nos sebos e deveria encontrar mais leitores.

Enquanto enxugamos essa lágrima, vamos adiante, com esta edição 81, que tem tutano para agradar leitores exigentes. Começa com a entrevista do Jandiro Adriano Koch. Historiador e escritor de talento, funcionário público honrado para pagar as contas, o Jan tem um discernimento raro na sua leitura do mundo e em sua atuação nele. Todo um universo de nossos dias, que se esconde e se expõe na mutante sigla LGBTQIA+, recebe na entrevista uma abordagem de intensa clareza. 

No ensaio de fotos, o investimento é de alguma maneira na obscuridade, ou na fronteira entre o claro e o estranho: Liziane Kugland, tradutora de ofício, apresenta um conjunto de imagens profundamente dúplices, que a Liziane comenta em analogia com seu trabalho. 

A Nathallia Protazio já é conhecida dos leitores, com suas crônicas ferinas e o folhetim que publicamos aqui. Agora ela virou titular: duas vezes por mês estará presente – e esse prazo é o mote do texto da 81. 

Célio Golin repassa a história da Coligay, a torcida gremista que tanta barreira furou. Euclides Bitelo volta ao estilo do repórter para abrir a história de um quilombo rural das antigas, que ainda hoje não está bem reconhecido, a uns 100 km da capital. E Paulo Coimbra Guedes, o nosso Paulo Guedes, rememora o mestre Celso Luft, cujo centenário de nascimento transcorreu esses dias.

Alisson Affonso, ao mesmo tempo que espera, deseja com suas imagens que passe a pandemia. E o capítulo 6 do folhetim de Pieta Poeta, meldels… A mãe do João não tem como suportar o extravio do filho, e o facebook parece não ajudar.

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