Revista Parêntese

Parêntese #124: O trem da história

Change Size Text
Parêntese #124: O trem da história

Um dos trens da história o Brasil perdeu lá pela altura do JK, o presidente Juscelino Kubitschek: perdemos, ou melhor, jogamos fora, justamente o trem. Ali foi feita, sob patrocínio dele, uma escolha crucial – o Brasil abandonava o trem como meio de transporte massivo, em favor do chamado rodoviarismo. Estrada de rodagem, caminhão, ônibus e automóveis, e não os trilhos e os trens. 

Perdemos os que já existiam, alguns velhos e outros naquele então modernos, e deixamos de conhecer os que viriam depois, muito modernos e rápidos, que fazem o brasileiro vibrar de ciúme quando pega trem na Europa ou noutras partes. 

A minha geração ainda andou de trem regularmente, que a gente tomava ali na ponta de Voluntários da Pátria. Ia-se acampar em Fanfa, ia-se a Santa Maria, ia-se e voltava-se. Isso acabou, esse trem ficou para trás. 

Que diremos então do trem, agora metafórico, de viver num país organizado, com indústria robusta, emprego bom, escola de qualidade, pesquisa científica e tecnologia criativas – que diremos desse outro trem, que está em um horizonte cada vez mais remoto? Será que o perdemos para sempre?

Nosso parceiro Arnoldo Doberstein, nesta edição, conta a história de um singelo trenzinho urbano porto-alegrense, que o leitor vai gostar de conhecer, se não soube dele ainda. Jackson Raymundo oferece um segundo artigo sobre o Carnaval de Porto Alegre, que tá rolando, contra muitos obstáculos – e tem transmissão no youtube, com produção da Cubo Play, nossa parceira de outros carnavais.

Na entrevista, Nathallia Protazio quer saber como é, como foi, como será a vida e a obra de Esteban Rodrigues, poeta e ativista. A mesma Nathallia, por sinal, estampa em sua crônica uma interrogação que se dirige a um dos pilares da vida emocional, sexual, social da vida burguesa. Quer saber?

O ensaio de fotos é um luxo: Breno Serafini, que lançou seu Poalaroides urbanas, livro que é um orgulho de nosso tempo, selecionou algumas imagens para deleite do leitor, que depois imagino que vá querer comprar o livro, como ele merece.

Carlos Scomazzon alcança o penúltimo capítulo de suas Memórias da epilepsia, um material que, em partes ou no conjunto, vai certamente merecer as páginas impressas daqui e algum tempo, tal sua força, sua precisão, sua transcendência. Em contraponto com essa dureza, uma nova crônica de Ana Marson, ainda em viagem deslumbrante pela Europa. E Eron Duarte Fagundes resenha o livro de poemas de Juremir Machado da Silva. 

Ainda temos nesta edição dois outros trilhos, para manter o campo semântico do trem. Frank Jorge, cancionista, popstar, escritor, professor e amigo da casa, estreia como folhetinista. A história do Nelson, que se dá conta de que é hora de cair fora de certo grupo de whatsapp – quem nunca?

Finalmente, um novo texto de Lúcio Carvalho para a Parêntese trazendo notícia de um evento que deveria estar nas manchetes: um julgamento de transcendental importância está revisitando um massacre de cem – sim, 100 – anos atrás. Algumas centenas de indígenas foram chacinadas em 1924, na província argentina do Chaco, fronteira com o Paraguai. Bem, dirá o leitor desiludido, massacre de indígenas acontece desde 1500 e até agora mesmo, com as ações e omissões assassinas do nosso governo federal. Ocorre que a Argentina está, mais uma vez, tomando a sério a tarefa de defrontar-se com passados medonhos – que só enfrentados nos deixam em paz. Para reencontrar, quem sabe, o ritmo certo do trem da história.

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.