Editorial | Revista Parêntese

Parêntese #227: A falta que faz

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Parêntese #227: A falta que faz Foto: Maurício Tonetto/Secom

Fico olhando as expressões do rosto do Sebastião Melo e do Eduardo Leite. Antes e depois de ocuparem os cargos que ocupam, são gente como qualquer um, respiram, aspiram, piram. Fico tentando decifrar quem são, como são. 

Políticos profissionais, por certo aprenderam cedo a compor a máscara adequada. Riem na hora certa, com o melhor ângulo disponível para as câmeras. Ficam pensativos com o timing adequado para compor a imagem que imaginam ser a certa – e ambos são bem sucedidos nisso. 

Nenhum dos dois teve problemas maiores em serem eleitos. E os dois pareciam navegar em ondas favoráveis – Melo estampava a certeza de que ganharia no primeiro turno mais quatro anos na gestão da capital, e Leite dava ares de poder ser chamado para falar com qualquer um, até com o papa, sem restrições de horário, porque tudo lhe sorria, na medida em que ele sorria para tudo.

Mas é um sorriso inexpressivo. Menos inexpressivo que o do João Dória, do mesmo partido até outro dia. Dória é uma máscara do começo ao fim, enquanto Leite carrega um ar de certa leveza, talvez pela juventude, talvez pela bem-vinda, mas calculada e politicamente bem sucedida revelação de sua orientação sexual. A qual lhe deu bem mais de 15 minutos em rede nacional, em entrevista para Pedro Bial.

Melo de vez em quando se dava ares de preocupado, franzia o cenho, mas logo metia um chapelão de palha e organizava um sorriso aberto e pronto, estava composto o figurino do político que vai ao povo, que abraça a senhora suada na periferia, que conhece o nome de todos os bairros e avenidas e até de becos. 

Agora estão no paredão. É evidente e inegável que Leite estraçalhou o Código do Meio-Ambiente e que era entusiasta da operação ecocida com o carvão, aqui do lado. E é também evidente que Melo foi, quando menos, incompetente, mas provavelmente também omisso, relapso, negligente, ao gastar todas as energias no populismo e no agrado ao mercado imobiliário, com zero atenção ao sistema de proteção da cidade contra as águas – sistema que, afinal ficou demonstrado, é eficiente, desde que tenha a manutenção que Melo sonegou. 

Olho para o rosto dos dois, quando não estão falando ou no centro das cenas midiáticas, e me pergunto, tentando ultrapassar a face composta dos políticos profissionais que são: de que eles sentem falta agora? 

Da tranquilidade em que vinham trotando rumo à permanência no cargo, caso de Melo, ou rumo a instâncias mais altas do poder, caso de Leite. 

Tranquilidade como tiveram e têm ao apoiar, com maior ou menor cerimônia, Boslonaro e bolsonaristas.

Tranquilidade de continuar passando suas respectivas boiadas, em linha com o estado mínimo que representam. 

Tranquilidade de pegar logo no sono ao ver suas embromações retóricas funcionarem, quando, talvez, suas consciências apontavam que algo não ia bem. 

Sentem falta da tranquilidade que teriam se fossem outros – se, por exemplo, viessem de trajetórias políticas ancoradas (imagem aquática em homenagem às águas insurrectas) ou estribadas (imagem cavalar em lembrança do Caramelo) no respeito a organizações populares, não em populismo. Em respeito à ciência, não às ideias moderninhas de ocasião. Em respeito ao funcionalismo público qualificado, que Leite trata a pão e água há seis anos, para ajustar o caixa, sua prioridade contra qualquer outra.

Luís Augusto Fischer


Nesta edição

Depois de alguns dias que prometiam uma luz no fim do túnel, o início do recomeço, as chuvas de quinta reinstalaram o caos em Porto Alegre. Por aqui, seguimos falando sobre as águas para tentar acomodar o que estamos vivendo.

Temos crônicas de Miguel da Costa Franco, Rafael Kruter Flôres, Ondina Fachel Leal e Juremir Machado da Silva. Claudia Tajes e Theo Tajes visitaram alguns abrigos da capital e relatam com texto e fotos. Frederico Bartz escreve sobre o voluntariado e o movimento de solidariedade que tomou conta da cidade e do estado.

Como é preciso falar sobre prevenção e planejamento, a Parêntese conversou com o especialista em Saneamento e Recursos Hídricos, Márcio Freitas. Em outro texto, Álvaro Magalhães complementa essa discussão.

Luciano Alabarse está de volta à coordenação do Porto Alegre Em Cena e escreve sobre a próxima edição, que será de reconstrução, composta inteiramente por espetáculos gaúchos.

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