Editorial | Revista Parêntese

Parêntese #228: Mídia, poder

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Parêntese #228: Mídia, poder Foto: Caleb Oquendo/Pexels

As duas palavras do título aguentam muitas combinações, aproximações, trocadilhos. A mídia é um poder. O poder da mídia. A mídia faz o poder. O poder alimenta a mídia. Tem pilhas de ensaios e pesquisas girando em torno disso. 

Vem da tradição liberal inglesa a noção de que o jornalismo é o quarto poder – legislativo, judiciário e executivo seriam fiscalizados pelo jornalismo, que como tal teria influência sobre os outros três. 

O Brasil ficou independente de uma forma inédita e perversa: aquele D. Pedro I quis perpetuar o modelo “antigo regime” que era o seu berço, e mandou fechar a primeira Assembleia Constituinte do novo país para depois impor uma constituição em que havia de fato um Quarto Poder, o Moderador, privativo do Imperador. Ele era ao mesmo tempo uma pessoa e um poder inteiro; nada era superior a ele, nem mesmo a vontade dos eleitores ou do congresso. 

Essa perversão vem até hoje, como vimos atordoados nos patéticos acampamentos diante de quartéis, tolerados e mesmo prestigiados pelos militares. Ali se pedia a intervenção das Forças Armadas como um quarto poder, invocando o tal artigo 142 da Constituição, numa interpretação venenosa, subscrita por advogados famosos e endinheirados. Tristes de nós. 

Nada disso expressa outro aspecto da relação entre mídia e poder que tem se revelado aqui na província como carência. Para termo de comparação, lembro o caso de São Paulo: é bem conhecida a circunstância de que a chamada Revolução de 32, rebeldia da província paulista contra o poder de Getúlio Vargas, foi decidida na mesma mesa em que, pouco tempo depois, foi decidida a criação da USP, a poderosa Universidade de São Paulo, a maior do Brasil e da América Latina, subvencionada por dinheiro estadual. 

Que mesa era essa? A mesa da direção do jornal O Estado de São Paulo, antes chamado Província de São Paulo. O mesmo jornal que enviou Euclides da Cunha a Canudos para dar notícia daquela estranha guerra, para citar outra circunstância notável.

Guerra, universidade e jornalismo, tudo na mesma mesa. 

Se formos pensar na Folha de S. Paulo, atualmente o maior jornal brasileiro, ou no mais velho e também poderoso O Globo, do Rio de Janeiro, vamos encontrar coisa parecida: golpes de estado, edição criminosa de debate eleitoral (Collor x Lula, em 89), apoios veementes, silêncios eloquentes, puxadas de tapete – tudo na mesma mesa. 

Corta para Porto Alegre. Algo parecido com isso, Porto Alegre tinha na antiga Caldas Júnior, com o poderoso Breno Caldas, último da família a usar a mesma mesa para assinar liberações de textos, firmar cheques e tratar com os poderosos da política, do judiciário, do mundo militar, em escala estadual. Hoje, o Correio nada tem desse passado. 

E a RBS? Nunca teve esse peso – e pior, parece que nunca se qualificou para ter, nem teve apetite de ter. 

Isso dá notícia do alcance da nossa maior empresa no ramo. Isso nos diz o tamanho da nossa fragilidade. 

Quarto poder fiscalizador, aqui no estado, é com os novos veículos – Sul21, Extraclasse, Nonada, a nossa Matinal e a revista Parêntese. 

Luís Augusto Fischer


Nesta edição 

Hoje é dia de estreia por aqui. Publicamos o primeiro capítulo de uma série assinada pela historiadora Danielle Herbele Viegas. Em Passado e presente da região metropolitana ela nos conta, em cinco episódios, sobre a negligência pública com o planejamento urbano da região metropolitana. O primeiro texto é sobre Canoas.  

Gustavo Borba também estreia como colaborador da Parêntese, com um texto sobre como vamos seguir a partir de agora para reconstruir e planejar o futuro: por onde começar? 

Nossa seção de crônicas traz textos de Guto Leite, Cristina Bonorino, Nanni Rios e Juremir Machado da Silva. Também apresentamos mais um conto de Rodrigo Breunig, que integra o manuscrito O livro dos leitores imaginários. E Henrique Schneider honra a memória do jornalista e músico Carlinhos Mosmann, falecido na última semana.  

Fechamos a edição com um ensaio fotográfico de Lars Erick pelas paisagens alagadas de Porto Alegre e um salve aos porto-alegrenses. 

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