Editorial | Revista Parêntese

Parêntese #230: Uberização e digitalização

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Parêntese #230: Uberização e digitalização Foto: "GIG – A Uberização do Trabalho" Youtube/Divulgação
Conversa com gente de fora daqui, mais uma vez, me propõe a pergunta incômoda: como é que na terra da suposta virtude política, com uma larga tradição de participação popular e governos com atenção aos de baixo – desde os tempos da Primeira República, passando pelo Trabalhismo espalhando escolas por toda parte, até os governos de centro esquerda dos anos 1990 e 2000 – se criou uma situação como a de agora, em que a direita menos ilustrada e a extrema direita jogam de mão? Há uma tendência meio geral para a direita, por toda parte, com expoentes estridentes como Trump nos EUA e aqui Bolsonaro. Por quê? É preciso considerar a imensa virada “uber” do mercado de trabalho, que ocorreu neste período. A uberização traz junto um sentido forte de individualismo que se opõe à solidariedade social, que estava no centro nervoso das práticas socialdemocratas. As escolhas de governantes, locais e nacionais, caminharam também nessa direção, com uma tendência forte de diminuir os aparelhos administrativos e também as práticas coletivas – o Orçamento Participativo foi desprestigiado em Porto Alegre, virando um tradicional balcão de barganhas, e no estado não chegou a ganhar tração, por desinteresse explícito de vários dos governantes.  (Cá entre nós: era estado mínimo o que queriam, mas agora na catástrofe exigem que os governos sejam o máximo.) A solidariedade esclarecida requer uma constante pedagogia, uma constante presença do debate público, coisa que não tem acontecido no estado, muito pelo contrário: o que temos é no máximo campanhas pontuais de solidariedade em momentos de tragédia, como agora, mas tudo tratado como varejo.  E ao lado da uberização, como irmã gêmea dela, temos a vida online, a impressionante dominância das relações mediadas pelo smartphone e o computador, o que foi especialmente agravado pela pandemia, uma dura experiência civilizatória que não tem paralelo. É com esse horizonte que precisamos lidar – porque nem uma, nem outra vão desaparecer do cenário real, e as duas são claramente individualistas, em sentidos e alcances inéditos.  A combinação das duas variáveis, uberização e digitalização da vida, dá uma descomunal força a grupos clara ou veladamente antidemocráticos, como aqueles que orbitam em torno de Bolsonaro e seus aliados locais, uma gente que, para combater posições democráticas e social democratas ou socialistas, aceita aliança com o diabo, se preciso for. Eles sabem que as mentiras que veiculam são mentiras, as ditas fake news, e impedem ativamente, por exemplo, a aprovação de legislação de controle público democrático das redes sociais. Essa combinação resulta na tia do zap, aquela pessoa que já é isolada socialmente, que perdeu as referências sociais coletivas e solidárias que eventualmente tinha (a família, a vizinhança, a igreja, o sindicato, a imprensa profissional, etc.) e ganhou o zap na mão, que a torna refém de qualquer aproveitador desses, incluindo muitos líderes políticos e religiosos.  O que temos a oferecer? Crítica, debate esclarecido, relato das vidas reais, jornalismo.  Luís Augusto Fischer Nesta edição No dia 20 deste mês, o psicólogo Jordan Peterson estará em […]

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