Editorial | Revista Parêntese

Parêntese #233: Faltando Canecas

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Parêntese #233: Faltando Canecas Murilli La Greca, Execução de Frei Caneca

​Duzentos anos atrás, Pernambuco representou um sopro de verdadeira modernidade política no Brasil ao liderar a chamada Confederação do Equador, um movimento anticentralista, de temperamento republicano e com traços abolicionistas, contra o golpe dado por aquele lamentável Pedro I.

​Sim, o cara que ficou para a posteridade como figura da independência brasileira, o filho do rei de Portugal que ficou aqui para garantir que o novo país permanecesse travado num estado ao modo do Antigo Regime. Essa mala, esse representante do atraso e do elitismo torpe que ainda hoje manda em nosso país: é dele que estamos falando.

​Contra o autoritarismo desse Pedro, figura subserviente a seu pai que aceitou fazer o Brasil pagar uma suposta dívida colonial, ia se erguendo uma interessante Assembleia Constituinte, que fez o que pôde para inventar uma constituição adequada para um país novo e futuroso. Pois esse Pedro fechou a Assembleia, cassou seus líderes e tirou da algibeira uma constituição cheia de veneno – que consagrou a ideia de um Quarto Poder: haveria Legislativo, Judiciário e Executivo, mas o que mandaria mesmo seria o Poder Moderador, privativo dele mesmo, esse Pedro. Voltávamos uns quatro séculos em matéria de organização política.

​Já se disse, em síntese perfeita: esse Pedro tinha todos os direitos, inclusive o direito de embananar tudo que os outros três poderes fizessem, e nenhum dever. Na ponta oposta, estavam os escravizados, que tinham todos os deveres e nenhum direito.

​Contra essa maldade onívora e duradoura, Pernambuco se levantou, duzentos anos atrás.

​O que fez o Pedro esse contra os revoltosos do Recife? Retaliou o quanto pôde. Sufocou militarmente o levante, sufocou a cidade, punindo sua população; recortou a geografia de Pernambuco, atribuindo uma larga faixa de seu território para a Bahia; e perseguiu os líderes.

​Aqui é que entra o Caneca. Frei Caneca. Assim chamado por herança da profissão honrada de seu pai, que era tanoeiro, um artesão. Frei Caneca era frei, estudou, escreveu poesia e uma gramática, e animava os rebeldes.

​Mandado para a forca, teve o consolo de ver três carrascos declinarem da tarefa, porque ele era um homem querido por todos. Milicos imperiais então armaram um pelotão de fuzilamento, e aí Caneca morreu.

​Se um leitor contemporâneo quiser honrar sua memória, pode por exemplo ler o “Auto do Frade”, um poema dramático de um conterrâneo seu, João Cabral de Melo Neto. Eu aposto que vai engasgar de emoção cívica e humana umas quantas vezes, lembrando o que essas elites, de 200 anos atrás e de hoje, fazem contra o povo brasileiro.

Luís Augusto Fischer


Nesta edição

Na nossa seção da enchente, hoje trazemos um belo texto de Frederico Bartz, que sugere aos leitores algumas “diretrizes de resgate” para evitarmos os processos de destruição que colocam em risco nossa relação com o passado e para salvarmos nossas memórias individuais e coletivas. Danielle Heberle Viegas apresenta a quarta parte de sua série sobre as inundações e a região metropolitana de Porto Alegre.   

O professor de linguística Gabriel Othero recomenda uma leitura para quem quer compreender melhor a linguagem neutra. Júlia da Rosa Simões nos convida ao mundo dos sonhos e, além de algumas boas obras sobre o tema, também indica termos um sonhário – um caderno especial para anotarmos nossos sonhos. Ainda sobre livros, Luís Augusto Fischer entrevista Éder da Silveira, que no dia 13/07, exatamente daqui uma semana, lança a obra Horas Brasileiras: Benjamin Péret, o Brasil, a América.    

Demétrio Xavier escreve sobre memórias da infância, criação e inteligência artificial. Paulo Ribeiro homenageia o pintor Agenor Conceição da Silva, falecido em 20 de junho. E Juremir Machado da Silva adverte: chegou a hora do fim da cultura tal qual um dia foi concebida.  

Na biografia musical de Porto Alegre, Arthur de Faria prossegue na saga dos irmãos Kleiton e Kledir, contando a sua estreia no Rio de Janeiro e sobre o ano em que fizeram 137 shows. 

Valesca de Assis é a convidada de hoje que relata causos da vida cotidiana ligada aos 200 anos da imigração germânica. A autora conta sobre os bordados e as lições ancestrais que recebeu da avó, aquilo que fazia uma mulher se tornar uma verdadeira Frau.  

E, não esqueçam: hoje tem mais uma edição da Sabatina Parêntese – Conversas sobre o futuro. O convidado da vez é o arquiteto Flávio Kiefer que vai conversar com a gente sobre o que faz uma cidade ser uma cidade. É logo mais, às 11h, na Livraria Paralelo 30! O evento também será transmitido pelo nosso canal no YouTube. Te esperamos! 

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