Revista Parêntese

Parêntese 37: Viver do futuro

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Parêntese 37: Viver do futuro

Fui tomado da obsessão de estudar a economia de nosso país, de deslindar as causas de seu singular atraso. Essas causas teriam de ser desentranhadas da história, das peculiaridades do processo formativo do país. Não adiantava comparar modelos abstratos nem vestir a realidade com as camisas pré-fabricadas dos “modos de produção”. Havia que abarcar a realidade complexa com a imaginação e submetê-la em seguida a tratamento analítico.

Quem escreveu esse parágrafo foi Celso Furtado, num livro que devia ser leitura obrigatória para exame de motorista, certificado de reservista, qualquer coisa dessas. Se chama A fantasia organizada, um volume de memórias de texto fluente e profundo, publicado em 85, quando o grande brasileiro completava seus 65 anos – nascido em 1920, agora estamos comemorando seu primeiro centenário de nascimento. 

Em alto estilo: com uma excelente síntese biográfica produzida por Pedro César Dutra Fonseca, professor de Economia da UFRGS, um desses excelentes estudiosos que sabem pensar e escrever com clareza. Neste livro, Furtado conta seus anos de juventude, a ida à Europa no pós-Guerra, seu doutorado em economia, sua trajetória na fundação da CEPAL, Comissão Econômica para a América Latina, um órgão da ONU que, por sinal, já se fez presente na Parêntese, quando entrevistamos outro grande, Cláudio Accurso

Não resisto a mais uma citação de Celso Furtado: “Também as sociedades vivem de seu futuro, da imagem que se fazem dele”. 

Viver do futuro é mais ou menos o que fazemos aqui na Parêntese, a cada sábado. Mirar num futuro melhor, mais inteligente, mais solidário, com mais justiça e mais igualdade, sempre com liberdade, é o que nos faz sair da cama a cada dia. Mesmo agora, na interminada pandemia – vale muito conhecer a excelente reportagem da Naira Hofmeister sobre o caso de Pelotas, sede de uma trajetória notável de pesquisas de fôlego em matéria de saúde pública, na UFPel. Para nosso grande gosto, assinalamos que o trabalho da Naira foi financiado por uma bolsa da Fundação Gabriel García Márquez.

As fotos de Marco Nedeff nos abrem as asas do pensamento, da saudade, do desejo de voltar a passear por belezas da Serra gaúcha. O cartum da Denise Silva coloca a autoestima para florescer.

Nossos habituais cronistas estão a postos: José Falero relata o que é a “dor de dono”, que pode resultar em surra num pobre, enquanto a Nathallia Protazio caminha ereta em solo pantanoso, contando uma duríssima experiência e pensando nela com uma franqueza inabitual.

Cláudia Laitano explica um termo raro mas circulante, “Bayes”, e Arthur de Faria conta a primeira parte da incrível trajetória do flautista Dante Santoro. Na quinta etapa de seu percurso pela história da filosofia acerca do casamento, Eduardo Vicentini de Medeiros nos conta de uma pensadora, sim, uma mulher, que faz diferença no processo.

Na entrevista, vamos conhecer uma excelente figura humana, Elio Carravetta, um pensador do esporte e da preparação física, um literal doutor na matéria, em trabalho jornalístico de Roberto Jardim. 

Diego Grando relembra o primeiro livro de Drummond, editado 90 redondos anos atrás, enquanto Mauro Póvoas traz o retrato do trabalho escravo nas charqueadas pelotenses. 

Uma matéria que também visita o passado é assinada por Rafael Guimaraens: em 1980, quando o vibrante Coojornal ainda lutava para sobreviver – foi a mais bem-sucedida empreitada da imprensa de oposição ao regime militar aqui no Sul –, armou-se um show beneficente no Araújo Vianna. E lá estavam dois artistas nacionais, que vieram pelo amor à causa, sem cachê, o relativamente jovem João Bosco e o consagrado mas esquivo Sérgio Ricardo, que faleceu faz poucos dias. As fotos do Luiz Eduardo Achutti testemunham aquele encontro, que contou com um time local valioso, do já conhecido Giba-Giba a uns jovens cancionistas que… Bem, vale a pena conferir.

Em sua segunda colaboração para a Parêntese, Vinícius Rodrigues conta da vida e da obra de Fabiane Langona, outra figura de exceção, uma mulher no mundo do cartum, das histórias em tiras. Também mulher protagonista: a jovem professora Kétina Timboni conta o que é encarar alunos chineses, estudantes do Português, nos tempos bozonóicos. 

Uma tristeza, uma pena de nós mesmos, uma lástima pelo futuro que nos brindou com o contrário do que sonhava o grande Celso Furtado. 

— Luís Augusto Fischer


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