Revista Parêntese

Parêntese 38: Volto e Vamos

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Parêntese 38: Volto e Vamos Ester Ramirez

Ato falho todo mundo comete. Freud inventou o conceito: um ato – uma fala, um gesto, uma lembrança – que carrega um equívoco, um engano, um trocadilho involuntário. Estava falando com o João, conhecido de tempos, mas o chama de Pedro. Sabe?

Nossa entrevistada de hoje, Maria Regina Pilla, cometeu um ato falho genial. Nos e-mails e mensagens que trocamos no processo, ela algumas vezes falou do Vamos. Eu estranhei: de que ela tá falando? Conheço o livro dela, claro, mas ele se chama Volto semana que vem. Livro de memórias, excelente livro, com uma sucessão de relatos que são como flashes, instantâneos da vida, na Porto Alegre de sua infância e juventude, nos Estados Unidos onde passou um ano estudando em intercâmbio, na Buenos Aires onde esteve presa por ligação com organizações de esquerda, na Paris de anos de exílio. Tudo escrito com verve, talento e pontaria.

Entre Volto e Vamos tem semelhanças – sonoras (o V inicial, as duas sílabas) e semânticas (de movimento) – mas um abismo de diferença – entre voltar e ir. 

Ir de novo. Voltar para mais uma vez partir.

Com o ato falho da nossa entrevistada, tomamos a bênção para o número 38 da Parêntese. Porque é sempre disso que se trata, voltar e ir, ir e voltar, salvo quando não há mais remédio, como ocorreu para mais de cem mil conterrâneos nossos, que alguma vez vibraram com as mesmas canções que nós, torceram para a mesma camisa amarela da Seleção, se irritaram com coisas semelhantes, se decepcionaram talvez com as mesmas frustrações. 

Uma montanha de mortos. Precisamos chorar esse luto e precisamos manter o espírito aceso para o que ainda temos por diante.

Como o espírito da Patrícia Lima, jornalista que relata aqui o que é ter a mãe adoecida pelo coronavírus. Um texto tocante, com a profundidade do amor e a força do justo combate ao negacionismo.

Lolita Beretta nos oferece uma viagem a um mundo delicado e sempre ao alcance (ainda ao alcance): a observação de pássaros. Uma beleza que pode nos levar longe, ao mundo da infância talvez. 

Longe como é o caso do ensaio de Michel Le Grand, um professor francês, que viveu uns anos em Porto Alegre e aqui deixou um presente de valor inestimável, a tradução comentada dos Contos gauchescos, de Simões Lopes Neto, ao francês, num exercício intelectual que amplia os horizontes da literatura brasileira. Vivendo agora em Guadalupe, no Caribe francês, Michel nos leva a um passeio de linguista atento ao mundo das línguas minoritárias. 

Cláudia Laitano nos explica uma gíria fresquinha e inesperada. José Falero lembra uma perseguição peculiar. Pablito entrevista a dura vida de quem faz entregas com uma bicicleta. As sempre bem-vindas recomendações do Roger Lerina. Eduardo Vicentini de Medeiros dá a ver como o iluminista Rousseau via o casamento – uma decepção, talvez, para seus admiradores. E Arthur de Faria conclui a história de Dante Santoro, um flautista de talento que foi sufocado pelo esquecimento injusto.

Finalmente, uma nova seção: Maria da Glória Bordini, conhecida professora e estudiosa da literatura, nos dá um depoimento do Erico Verissimo cotidiano, trabalhando na editora Globo. 

Luís Augusto Fischer


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