Revista Parêntese

Parêntese 53: O que há num nome?

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Parêntese 53: O que há num nome?

Parêntese: um nome que puxa uma imagem e sugere um intervalo, uma folga, um comentário. Um alívio, uma descompressão, uma intrusão. 

Por outro lado, se o amável leitor, a culta leitora, são versados em Shakespeare, vão lembrar que essa pergunta é feita por Julieta, aquela do Romeu. “O que há num nome? Se a rosa tivesse outro nome, teria o mesmo cheiro agradável”, filosofou a infeliz amante. Rosa é nome, não seu perfume. Podemos aplicar esse insight linguístico da Julieta para todo e qualquer caso?

Dou exemplo. No artigo em que a Ondina Fachel Leal evoca a “invasão” da Casa do Estudante da UFRGS, no remoto 1980, um marco da luta feminista em Porto Alegre, um depoimento do Luiz Eduardo Achutti evoca o nome de um jornalzinho das Ciências Sociais daquele tempo. O nome: “Band-aid infecto”. Que nome! 

Eu lembro da história porque era vizinho, como aluno de Letras — nós tivemos na mesma época um jornalzinho chamado “Dígrafo – Um encontro de letras”, trocadilho letrado, ao passo que o pessoal da História teve um que se chamou “Olhaí os delírios do Campus”, trocadilho bíblico, a revelar outro mundo cultural. A origem do título infeccionado se deu numa reunião das Sociais para discutir mudança do currículo. Diante de certa proposta, um participante disse: “Isso não é uma reforma, é um remendo, um simples band-aid, e pior, um band-aid infecto!”

Nomes, eis o ponto. O novo folhetim que orgulhosamente apresentamos se chama “Mil manhãs semelhantes”. Baita nome, certo? O Marcelo Martins Silva está mexendo com o nosso cotidiano pandêmico, em dez capítulos.

Um morto a chorar também se pega pelo nome: é o inventor do aeromóvel, uma grande figura humana, Oskar Coester. Aero + móvel: duas palavrinhas amplamente conhecidas para designar uma invenção que poderia ter já nos ajudado muito a viver melhor na cidade multitudinária. Eu o havia entrevistado oito anos atrás, para uma publicação que homenageava grandes figuras de empreendedores do estado, no PGQP – Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade, que saiu em álbum organizado por Marcelo Beltrand. Reproduzo aqui, com modificações, em forma de homenagem a essa imensa figura, que foi fotografada pelo Eurico Salis.

Nomes: Afrofuturismo, como explica a Cláudia Laitano. Alcides Gonçalves, parceiro do Lupicínio, como nos conta o Arthur de Faria. Ou um sobrenome, Fortuna, que enfeita o nome do Felipe, poeta que inventa uns cards muito inteligentes e agora empresta seu talento para nós, aqui. Branquitude: nome novo, para algo até aqui quase invisível, que a Maria Avelina Gastal nos apresenta, em sentido texto. 

Nomes da literatura feita por pessoas negras, agora em antologia saindo do forno em espanhol, em Buenos Aires, a mostrar a força do fenômeno, que é editorial e literário mas antes é social e histórico. José Falero e Dalva Maria Soares foram atrás das impressões de três autores — Cidinha da Silva, Ronald Augusto e Gabriel Sanpêra — e da tradutora, Lucía Tennina. As fotos e o texto da Camila Cunha fazem um triste eco à reportagem.

Imaginação, que também é nome, preside a nova série que o Eduardo Vicentini de Medeiros oferece, em dez capítulos a contar de agora. O tema de fundo é o mesmo da série anterior, “Até que a razão os separe”. Agora, é a imaginação o limite. 

Dois nomes mais: Maradona, ecoando Madonna. Ele se foi, aos 60, depois de uma vida de muitas emoções, farta detonação e alegrias mundiais; ela vai bem, obrigado, e completou 62. Não sou especialmente fã dela, mas sabe como é, formo parte da geração de 58, junto com o finado Michael Jackson. Bons nomes, né?

— Luís Augusto Fischer

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